Mesmo numa região como o Médio Oriente, habituada às maiores atrocidades, este foi um massacre particularmente chocante: 108 pessoas mortas a sangue-frio, degoladas ou assassinadas com tiros na cabeça à queima-roupa, incluindo dezenas de crianças. Aconteceu em Houla, no centro da Síria: as chocantes imagens desta barbárie correram mundo, não tardando a ser disseminadas pelas redes sociais e fazendo abrir os olhos a alguns que ainda condescendiam com a feroz ditadura de Bachar al-Assad. Por unanimidade, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou estas atrocidades, atribuídas à milícia pró-governamental Shabiha. Ao contrário do que sucedeu em ocasiões anteriores, desta vez China e Rússia juntaram-se à condenação, que deixa o ditador de Damasco ainda mais isolado.
“Os responsáveis por estes crimes brutais serão responsabilizados”, garantiu o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, enviado desta organização e da Liga Árabe à Síria. Enquanto Barack Obama se confessava “horrorizado” por estas atrocidades e diversas capitais – incluindo Washington, Paris e Londres – expulsavam diplomatas sírios em sinal de vigoroso protesto. Assad pode vir a ser julgado por crimes contra a humanidade, admite Navi Pillay, alta-comissária das Nações Unidas para os direitos humanos.
O mundo comoveu-se com a história do menino de 11 anos que se fingiu de morto, esfregando-se com sangue do seu próprio irmão assassinado, para poder escapar com vida e contar aqueles momentos aterrorizantes que o assombrarão para sempre. “Eu estava apavorado. Todo o meu corpo tremia”, relatou o pequeno Ali, que viu a sua família mais próxima ser massacrada.
Não admira, por tudo isto, que o tirano sírio conte cada vez com menos adeptos. Mas, embora poucos, são indubitavelmente fiéis. Com destaque para o Avante! “O massacre está a ser atribuído ao regime, mas o governo liderado por Bashar Al Assad nega a responsabilidade pelo crime e acusa os grupos terroristas“, tranquiliza-nos o jornal comunista numa notícia com onze parágrafos em sintonia com as teses do ditador. Como se a culpa fosse das vítimas e não dos verdugos.
Ao fim de 14 meses, a revolta popular síria já provocou cerca de 13.400 vítimas mortais, mas nem isso perturba o inabalável Avante!: noutra notícia desta mesma edição, o órgão central do PCP relata que os “povos estão em luta do norte de África ao Médio Oriente”. Mas não na Síria, claro. Com uma chocante indiferença pelas vítimas de Assad. E um solene desprezo pela sensibilidade e pela inteligência dos seus leitores.


Com que informação fidedigna podemos contar nos dias que correm?
Nos dias que viram Kadhafi ser recebido por Sarkozy e pouco tempo depois ser abatido por ordem do mesmo?
Nos dias das “armas de destruição em massa” que não existiam?
Objectivamente o regime de Al Assad terá culpa – não protegeu as vítimas do massacre, tenha esse sido perpetrado por milícias pró-Assad ou contra o regime.
Por isso, a condenação tanto funciona por culpa como por incompetência.
Os caminhos da informação e desinformação são facilmente baralhados… e dado o historial, dificilmente tomaria posição sobre este assunto.
No entanto, não percebo uma coisa… a criança sobrevivente fez o testemunho às mãos das milícias contra-Assad? Não era o governo que controlava aquela área?
Chega de ditadura na Síria: há 40 anos que a família Assad oprime um povo que tem o direito à liberdade, como qualquer outro povo. E chega de justificações para a existência da ditadura e de frases que a procuram apresentar como um regime benévolo. Justificações simétricas às que caucionaram em Portugal os 40 anos da ditadura de Salazar.
Claro que estamos de acordo… chega de ditadura, seja sob que forma se exiba ou se esconda.
A inteligência não ignora a inteligência.
Chega de ditadura na Síria
Sem dúvida. Porém, estou em crer que muitos dos estrangeiros que financiam a atual revolta síria (Arábia Saudita, etc) estarão no fundo apenas interessados em instalar na Síria uma ditadura de sinal diferente. Os ocidentais que os apoiam também nunca se mostraram peculiarmente interessados em acabar com as ditaduras nessa (nem noutras) parte do mundo – mais provavelmente estão interessados apenas em instalar lá mais um protetorado, como fizeram no Kosovo.
Muito bem, Pedro. No género reportagem delirante, esta do Avante de 24 de Maio deve ser um exemplar único:
http://www.avante.pt/pt/2008/internacio nal/120218/
Arranja-se sempre alguém em defesa dos torcionários, Rui.
“E um solene desprezo pela sensibilidade e pela inteligência dos seus leitores.”
Pedro: desconfio que a maioria das pessoas que lê o Avante está precisamente à procura de enquadramentos e justificações deste tipo.
Quero crer que apesar de tudo não seja assim, JAA.
Eu não estou tão certo assim da autoria deste massacre.
Faço notar que têm rebentado bombas que têm matado muitos civis. A colocação dessas bombas, perto de alvos estatais e militares, sugere que são colocadas por opositores ao regime de Assad. Sabe-se que esses opositores incluem a Al Qaeda – uma vez que Assad é de uma tribo xiita enquanto que a Al Qaeda é sunita. Essas bombas serão, com boa probabilidade (em minha opinião), obra da Al Qaeda, que tem bases ali ao pé no Iraque, com gente bem treinada nesse e noutros tipos de barbaridades.
Quero eu dizer que não me admiraria nada que, efetivamente, o massacre fosse obra de opositores ao regime.
Quero acrescentar que não confio, neste caso, nos mídia ocidentais, que, a mando dos seus governos, já nos enganaram repetidamente no passado, por exemplo com o massacre de Racak no Kosovo.
Por favor! Não faça este tipo de propaganda sobre um assunto que desconhece. Quantos anos viveu o senhor na Síria, para vir agora escrever sobre a sua suposta ditadura. Não se precipite nas conclusões. Tenha opiniões moderadas para si e ponha sempre em causa a moderação que lhe dedica.A europa e outros continuam a mostrar o mundo pelo seu telescópio. Veja-se se não está a participar sem saber em muitos outros massacres, pensando-se impugnado pela razão.
Muito bem.
Não consigo ser moderado contra ditadores. Muito menos contra ditadores que são responsáveis pela morte de milhares de concidadãos. Espero que Assad acabe por ser entregue à justiça internacional, como sucedeu com Milosevic e Charles Taylor.
não vale mesmo a pena…passaram e passarão sempre com as massas os que vêem só aquilo que querem ver! Bom filme..e abraços!
Cada um come do que gosta: há quem não passe sem uma ditadurazinha. Mas mesmo esses, no fundo, preferem viver em democracia, onde podem proferir as maiores alarvidades sem terem a polícia política a entrar-lhes em casa.
A cegueira ideológica seria patética se não fosse perigosa.
É certo e sabido, Teresa: mal se contesta um ditador, surgem logo defensores do dito cujo nas caixas de comentários. Algumas das figuras mais repugnantes do planeta têm sempre quem as siga, por vezes cheias de entusiasmo militante. Por isso a década de 30 do século XX foi o que foi…