A maioria das pessoas gosta do Natal porque pertence a dois grupos plenamente reconciliados com a época: os crentes (que o festejam com maior ou menor religiosidade) e os secularistas (que se apropriaram do evento religioso, conferindo-lhe contornos puramente laicos e transformando-o numa grande celebração do real, da matéria e – curiosamente – da família). Os primeiros constroem presépios, vão à Missa do Galo e recolhem-se em oração. Os segundos invadem os centros comerciais, embrulham e etiquetam presentes, ornamentam árvores e enviam MMS com renas e céus estrelados.
Resta um pequeno grupo, de quem Dante parecia falar quando escreveu “os lugares mais quentes do Inferno estão reservados para aqueles que, numa época de grandes desafios, mantenham a sua neutralidade”. Falta-lhes a crença para celebrarem o nascimento de Jesus e o entusiasmo materialista para festejarem o mito da modernidade. Sobra-lhes, pois, o Inferno – não a punição numa vida futura a que aludia o mestre florentino, mas o castigo de viver todos os dias de Dezembro como proscritos.

Não é assim tão simples, Zé. Os dois primeiros grupos acasalaram há muito e geraram mutantes que convivem alegremente com as duas crenças: a da religião e a do consumo desenfreado. E o terceiro grupo, o dos proscritos, vai aumentando cada vez mais. Por pura estupefacção, suponho, ou talvez por incapacidade de reconhecer o seu adn inicial. Seja como for, os proscritos serão os outros, mais cedo ou mais tarde. É que a maioria já não tem grande convicção na sua religiosidade, nem capacidade económica para acompanhar a modernidade consumista. Sobram os mms, que no Natal costumam ser à borla…
Ainda é um grupo pequenito… Pelo menos pelo que vou vendo nas minhas bandas. Mas tem tendência a crescer, é verdade! Feliz Natal e beijos…!
Ora bolas, ia escrever no meu blogue que ia para o inferno por ter aberto o email e ter eliminado todas as mensagens de feliz Natal. Não foi por mal, foi apenas por falta de tempo e paciência. Obviamente, não teria gabarito para fazer uma consideração dantesca como a tua, mas ficaria expresso que pertenço a uma geração perdida. 🙂
Ainda assim, apesar de me faltar a paciência para as mensagens e MMS natalícios, cedi ao meu impulso consumista, bem antes da debandada. Pecado que pagarei hoje mesmo, quando precisar de comprar, à última hora, algum ingrediente esquecido, e estiver a fazer o jantar com a minha mãe e a minha sogra a moerem-me o juízo. É o inferno na terra!
Espero que passes um excelente Natal, na companhia de quem mais gostas e, sobretudo, com muita paz e sossego.
Um Feliz Natal também para ti, querida Helena! Beijos…
Pouco antes de Nero ter mandado que Séneca tomasse um duche e não saísse da banheira até nova ordem – a cuja nunca chegou, tendo ele morrido, como sabes, extraordinariamente bem lavado –, Lucílio recebeu uma carta do amigo filósofo onde Séneca se queixava do agitação que as Saturnálias provocavam em Roma (a tradução é de J. A. Segurado de Campos):
“Estamos em Dezembro: a cidade está coberta de suor! A ostentação desregrada invadiu toda a vida colectiva. Fazem-se estrepitosamente enormes preparativos, como se existisse alguma diferença entre o período das Saturnais e os dias úteis. O facto é que não há qualquer diferença, e por isso mesmo acho que tem toda a razão quem afirma que se Dezembro em tempos foi um mês, agora é um ano inteiro.”
Grande referência, meu caro… Desconhecia, mas mais a propósito não podia ser! Abraço!