Como a peste


Teresa Ribeiro,

Podia ser um filme de terror. Algures, numa cidade obscura do planeta, de dois em dois dias resgatavam-se, de banais prédios de habitação, cadáveres de velhos. Essa cadência imprimiria o ritmo adequado à narrativa, realçando-lhe a sordidez. De dois em dois dias, bum, bum, como um coração que se parte, retiravam-se de apartamentos silenciosos destroços de gente. Podia ser um filme, mas não é. Podia ao menos acontecer num ponto obscuro do planeta, bem longe da nossa vidinha, mas não. Passa-se em Lisboa. A cidade radiosa de Tanner, tão luminosa, tão linda, afinal às vezes mete medo.

22 comentários em “Como a peste”

  1. E cada vez será pior, Teresa. Ontem, uma vizinha, com 92 anos, disse-me que o filho não vem há muito, que já não ouve nada e que caiu na cozinha, mas conseguiu arrastar-se para a cama onde dormiu. Qualquer dia, já sei que ao tocar à estridente campainha se não obteiver resposta é porque já não se levantou.
    É que a Segurança Social está muito preocupada com a redução dos subsídios miseráveis…

      1. Nem todos. É o problema também de nos termos habituado a falar e a escrever na primeira pessoa do plural. Tu não andas. Eu não ando. Não temos que nos achibatar por todos os erros do mundo. Há os que andam demasiado ocupados e há os que não andam tanto assim – e vê aí o post da Laura sobre a Maria Adelaide de Bragança.

  2. Não percebo o que querem.

    Arregimentar os velhos em lares? colocar uma pulseira que avise quando o coração parar de bater? Mandar uma pessoa de semana a semana verificar se estão vivos?

    Não sei o que esperavam que acontecesse,isto é só o começo do choque populacional em Portugal.

      1. Nos casos em que se aplica sim.
        Mas como é que extrapola essa critica do números de casos?
        Podem bem ser pessoas que tenham más relações familiares ou sejam introvertidos e prefiram viver no seu mundo.

        1. Velhos misatropos, claro que existem e esses casos não me merecem comentário. Sabe-se, porém, que há cada vez mais velhos abandonados pelas famílias. São as câmaras e as Misericórdias, através dos seus serviços sociais que o atestam. Aliás, basta olhar à volta para se perceber que os velhos são tratados como lixo.

  3. “Em 2011, os bombeiros receberam 1511 chamadas para abertura de porta com socorro. Nestas intervenções foram salvas 1129 pessoas que precisavam de apoio e resolvidas 303 situações de risco (como fogões acesos ou outras), mas 79 pessoas foram encontradas já mortas nos seus apartamentos. No ano anterior, tinham sido 60, segundo os dados disponibilizados pelo vereador Manuel Brito.”

    Esta história é terrível, sobretudo pela segunda morte.

    Mas… Eu vivo sozinha. Em parte por escolha minha, apesar da muita família, amigos e aderentes, em parte pelas partidas que a vida nos prega. Terei os meus sistemas de alarme bem organizados? Penso que não. Por vezes passo 2 ou 3 dias posta em sossego no meu canto, sem qualquer contacto humano. Gostaria de viver doutra maneira? Não tenho a certeza. Como morrerei? Não sei, e não quero saber.

    1. Isabel, presumo que na maioria destes casos se trata de idosos que não são minimamente assistidos pela família. A independência só deveria ser opção para quem a pode gozar em boas condições.

      1. Tem a certeza de que pensou bem a sua segunda frase, Teresa? 😉

        Eu gostaria que todos tivéssemos opção até morrer, mesmo quando as opções que fazemos são más. O que eu mais temo é que a minha vida se prolongue para além do meu livre arbítrio.

        Seguramente, muitos velhos são abandonados pela família (as minhas cunhadas, que fazem voluntariado num lar, dizem-me que uma das senhoras que ajudam a arranjar-se não sai de lá há 3 anos apesar de ter capacidade para o fazer e de ter lá uma filha a trabaqlhar na lavandria…). Há filhos maus. Mas não nos esqueçamos de que alguns tiveram também muito maus pais. E há também aqueles que sempre fugiram, e fogem até ao fim, de relações com parentes e vizinhos. Existe uma linha muito fina entre solidariedade e ingerência que nem sempre é fácil estabelecer. A posteriori, as soluçãoes parecem óbvias.

        Em 2011 houve 1511 situações em que alguém agiu e chamou os bombeiros. Em 79 dos casos foi tarde demais. Naturalmente, só nos chega ao conhecimento aqueles em que foi mesmo muito tarde demais. Não sabemos nada dos outros.

        Acho que o que eu quero dizer é que precisamos todos de estar atentos: atentos a nós, atentos aos nossos, atentos aos dos outros. Mas que nunca poderemos impedir mortes tristes. Que, tal como as famílias infelizes, o são cada uma à sua maneira.

        1. Claro que pensei bem no que afirmei e reitero, Isabel. Não sei é se fui bem interpretada. O que pretendi dizer é que sem condições não é possível desfrutar o que a independência tem de bom. Estou a pensar particularmente em falta de condições de saúde, já que é de idosos que estamos a falar. E eu defendo que devemos “interferir” quando a segurança e autonomia dos idosos que vivem sozinhos está em risco. É uma questão de civismo.

  4. Tens razão, Teresa: mais valia que fosse um filme de terror. Infelizmente é verdade e passa-se à nossa porta, mas nunca é de mais chamar a atenção para estas notícias incómodas.

  5. Eu tive um amigo muito mais velho que viveu sozinho toda a sua vida. Sem família próxima (existiam uns primos em Abrantes), o Zé preferia a solidão à companhia de antigos colegas e amigos. Muuuuuitas vezes tentei que ele viesse comigo passar um fim de semana, sempre sem sucesso. Respondia invariavelmente com a mesma desculpa: gosto de estar sozinho.
    Foi encontrado morto em casa ao fim de quinze dias.
    Poderia ter feito mais por ele? Jamais o saberei…

    1. Tenho a certeza que também me ficaria a perguntar o mesmo, mas não são estes casos que me preocupam, José da Xã. Este seu amigo tinha, pelos vistos, gente interessada que o contactava, mas de acordo com os serviços que melhor percepcionam estas situações, há cada vez mais velhos abandonados pela família e amigos.

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