
Já aqui confessei ter praticamente banido a carne da minha dieta alimentar. Não por qualquer simpatia pelo PAN, que é nula, nem por embarcar nas suas prédicas tele-evangélicas sobre o “bem-estar animal”, mas simplesmente porque me sinto melhor assim. Cada vez cozinho mais em casa – e cozinho cada vez com maior recurso aos vegetais. O preço quase proibitivo de carne e peixe, nos dias que correm, contribui para juntar o útil ao agradável.
E agradável é este prato que aqui vos trago: caril de abóbora, grão e coco. Prato vegetariano, sim. Mas pouco me importam as etiquetas. Interessa é que seja apaladado e nutritivo.
Comecemos por reunir os ingredientes: abóbora, cortada em cubos; um pedaço de gengibre fresco (tenho sempre algum no congelador); dois dentes de alho; um par de chalotas (cebola também serve); dois tomates em pedaços; uma lata de grão já cozido; uma lata de leite de coco; uma malagueta a que retiro quase todas as sementes.
E ainda arroz, pronto a cozer à parte. O ideal, para mim, é o basmati. Mas por questão de preço e de consciência ecológica (o basmati é produzido longe de Portugal), o nosso mui respeitável carolino serve também.
Não esquecer ainda: uma colher de sobremesa de caril e uma colher de chá de açafrão. Além de coentros, em talos e folhas.
O azeite começa a aquecer no tacho quando nele se incorporam o gengibre cortado em palitos finos, o alho laminado, a malagueta e as chalotas em pequenas rodelas. Dois ou três minutos em lume forte. Vai-se mexendo com a colher de pau: Bruxelas, felizmente, levantou o veto a tão indispensável ferramenta da nossa culinária.
Há que verter então os talos de coentros e o caril, tudo frita ligeiramente. E logo ali mergulham os tomates e o açafrão, banhados pelo leite de coco, já o lume ficou brando. Convém esperar por um início de fervura: chegou o momento de enfiar abóbora e grão na panela.
Segue-se um quarto de hora em lume brando, talvez nem tanto. Há que espreitar para ver se necessita água para não secar nem colar ao fundo. Depois, apagar o lume e aguardar um pouco mais, de tacho descoberto, enquanto o molho engrossa.
À margem, cozemos o arroz no seu canónico quarto de hora que pode estender-se aos 18 minutos. Será polvilhado de pedaços de caju ou sultanas – foi desta vez o caso, conforme a foto documenta. Haverá ainda um resto de coentros para enfeitar. E o indispensável chutney – neste caso, de gengibre e manga: perfeito para acasalar com o picante.
Há quem prefira acompanhar com naan, pão indiano: também serve, como complemento ou alternativa ao arroz. Menos recomendável a quem esteja em dieta.
Prato simples, saudável e saboroso. Sabe muito bem a qualquer hora – seja almoço, seja jantar. E desmente a convicção, ainda entranhada em muitos, de que refeição sem carne é insípida e escassa de sustento. Deste meu posto de cozinheiro amador já capaz de tratar o fogão por tu, vos afianço: não acreditem nisso.

cuidado com os fungos e outros microrganismos do basmati do Paquistão
Basmati, só de longe em longe. Prefiro arroz nacional, embora os preços estejam a disparar aqui também. E cultivo a chamada “economia circular”, tanto quanto possível.
Tem um aspecto formidável! Mesmo para quem não é fã de coco, como eu, já
provava um bocadinho.
Bom dia, Dulce. Aprendi no Oriente a apreciar coco, base alimentar de vários países. No caril, especificamente, é ingrediente obrigatório. Não concebo caril sem coco – à moda tailandesa, a minha preferida.
Eu faço um prato ao qual tenho a ousadia de chamar ” caril de gambas com manga” cuja receita contém leite de coco. Não o faria de propósito para mim, mas come-se bem. Tenho um sobrinho – neto que namora uma pequena que é vegan e creio que esta sua receita ( que já copiei) é mais uma alternativa ás poucas que sei fazer se vêm cá jantar.
Sinta-se à vontade. É precisamente com essa intenção da partilha que vou trazendo volta e meia algumas receitas aqui.
Há uma adesão recente mas crescente à cozinha vegana, por motivos económicos e de saúde. Faz sentido, em larga medida, desde que se evite todo o fundamentalismo nesta matéria, tão palerma como o daqueles que insistem em dizer que “refeição sem carne não chega a ser refeição”.
Chili com batata doce também é espectacular. É igual em tudo, mas em vez da carne leva batata doce aos cubinhos…
Anotado!
Uma rica ideia, rica é como quem diz, de voltar à comidinha consumida no tempo da vida barata.
Com o frango/galinha para os doentes, as vacas utlizadas no trabalho agrícola e os bois no transporte, as cabras e ovelhas a dar leite pra cidade, a caça proibida ao povo, arroz e maça só para ricos, a sardinha só no verão, o bacalhau ainda não tinha chegado o tempo dele a pataco, sobrava o porco por ano e a horta sempre a jeito.
O que não faltavam de vegetarianos, era a comidinha do que dava na horta, não se crescia muito mas enchia a barriga.
Fez muito bem e bom apetite.
p.s.(com confundir com sigla partidária) O meu primo não gostava de bife com batatas fritas – que é que não gostava- por nunca ter comido.
Refeições a sério (ou “à séria”, como alguns dizem em imitação dos brasileiros) eram as que mestre Aquilino descrevia nos seus romances. Copiosas refeições que contrastavam com a eterna “côdea de pão” presente em muitas outras obras da literatura portuguesa do século XX, que foge da gastronomia como o diabo da cruz.
Ainda há muita gente viva, que nasceu no século passado, que todos os dias da semana, comia um cozido de couves, batatas, toucinho e chouriço, com o respectivo caldo e pão.
Preocupa-me muito mais as pessoas condenadas à fome, à sede e ao frio nos dias de hoje. Na vida real, não nos romances.
Como os milhões de ucranianos a quem o ditador russo tem vindo a cortar todas as fontes de abastecimento de energia, de calor e de água.
Altamente explosivo.
Nada explosivo. Nem na carteira nem no estômago. Desde que se retirem as sementes à malagueta.
Queria dizer:
p.s. (não confundir..)
P. S. significa “post socialismus”?
Um prato que fazemos muitas vezes e que é do agrado de todos. É delicioso. 🙂
Com algumas diferenças. Faço o refogado com óleo de côco em vez de azeite, se tiver. Não ponho o picante no início (gengibre sim) por causa do mais pequeno. Usamos depois no prato mas não é a mesma coisa. Gosto de adicionar a abóbora previamente assada e cortada aos cubinhos (com a casca) mais para o fim. O leite de coco também adiciono só mesmo no final.
Para variações, adiciono tofu aos cubinhos, maçã reineta aos cubinhos ou espinafres grosseiramente picados.
Acompanho com arroz integral ou arroz carolino (se tenho pressa).
Fazemos muitos dias pratos vegetarianos. Mas com as crianças em crescimento tendemos a cozinhar mais carne e peixe do que nos idos tempos a dois.
Já fiquei com fome… 😉
Engraçado também, nestes pratos, é podermos ir variando os ingredientes, alternando com outros às vezes até em função do que se tem em casa. Hei-de experimentar essas pequenas alternativas que sugere, Susana.
Costumo gostar de tudo desde que seja bem feito. Ficar desconsolada é que não.
A carne e o vinho, têm que ser muito bons, caso contrário prefiro não tocar. Manias!
Só tenho uma implicação que é o coco seco. Já o leite de coco no caril, cada vez gosto mais.
Como eu. Não dispenso leite de coco no caril.