
Há umas semanas, o José Teixeira falava aqui de um prato que vai servindo para desenrascar nos momentos de crise, baptizado aliás assim mesmo. Crise. Batatas fritas e um ovo estrelado. Popularizou-se naqueles anos da inflação galopante, em que expressões como “apertar o cinto” constavam do quotidiano português. Havia bandeiras negras a assinalar ilhas de fome. E pela primeira vez o terrífico conceito de “salários em atraso” se foi banalizando entre nós.
Somos muito daquilo que comemos. E temos hoje a certeza que não só pela boca morre o peixe: pode acontecer-nos o mesmo se abusamos da carne vermelha, dos doces e do sal, por exemplo. Há uns anos uma senhora foi crucificada nas redes ditas sociais só porque se atreveu a afirmar que não podíamos comer bife todos os dias. Credo, que horror, a desalmada senhora queria condenar os compatriotas à fome… Afinal limitou-se a proclamar o que qualquer dietista ou nutricionista perora de manhã à noite, entre acenos de concordância.
Serve este intróito para dizer que ando a comer cada vez menos carne. Por opção própria. E dou-me bem com isso. Mas não só: cada vez cozinho mais em casa. Os benefícios financeiros desta opção são óbvios. E também para a saúde: sei sempre o que como e os ingredientes que utilizo. Morar perto de um dos melhores mercados de Lisboa facilita-me a aquisição de peixe e vegetais. Por ser frequentador assíduo do mercado percebo como os preços têm vindo a subir (a “escalar”, como agora papagueiam os imbecis nas pantalhas). Peixe, portanto, também só de vez em quando.
No ano passado, falei aqui do que vou cozinhando. Nessa altura ainda não constava da minha ementa regular o menemen turco – exemplo clássico de comida de rua que encontramos em qualquer ponto de Istambul, por exemplo.
Este que invoco hoje: tornou-se um dos pratos que preparo com mais frequência. Simples, fácil, barato. Sem carne. E permite aproveitar pão com algum atraso.
Basta picar meia cebola – minha medida habitual – numa frigideira que começou por levar uma colher de sopa de azeite e outra de manteiga (prefiro creme vegetal, dos que servem para barrar o pão). A cebola refoga em dois minutos, com chama alta. Logo é reforçada por tiras de pimento vermelho, acrescidas de tomate em pedaços e duas colheres de polpa de tomate.
Baixo a chama, vai cozinhando durante sete minutos. Enquanto recebe temperos: pimenta moída, orégãos, meia colher de chá de paprica, umas gotas de molho inglês.
Vou cortando fatias de pão – que pode ser de véspera ou de antevéspera – para ocupar a base do prato. E bato um ovo, que será envolvido na frigideira. Ali fica, abraçado à tomatada, durante três minutos. Convém ir mexendo.
Depois é só derramar o conteúdo da frigideira no pão do prato. Salpico com salsa e acompanho com nacos de queijo feta: combina da melhor maneira com tudo o resto. Por vezes enfeito com azeitonas cortadas em metades.
Os ingredientes variam conforme os dias. Além dos pimentos, costumo juntar cogumelos laminados, por exemplo. Os indefectíveis amantes da carne podem adicionar raspas de chouriço.
Será prato de crise. Mas garanto que sabe sempre bem. E volto a manifestar a minha concordância com a tal senhora, outrora tão vilipendiada por aves canoras a pipilar no Twitter: não podemos comer bifes todos os dias. Nem devemos.

A senhora foi vilipendiada não por dizer o que disse mas pela forma como o disse, com soberba, como se fosse a detentora da verdade absoluta.
É evidente que não devemos comer carne todos os dias assim como também não devemos comer peixe todos os dias ou comer erva todos os dias. Devemos diversificar e fazer uma alimentação equilibrada o que pressupõe comer de tudo com conta peso e medida.
Esses pratos ligeiros são bons e para quem já tem uma certa idade são óptimos, mas para mim têm de levar sempre uma proteína animal.
No verão a minha dieta é à base de peixe e no inverno à base de carne, o meu lado vegan é só para as saladas.
A senhora disse o mesmo que as novas apóstolas e os novos apóstolos da alimentação saudável proclamam todos os dias.
Foi trucidada por «querer condenar os portugueses à fome». Trucidada pelos mesmos que no dia seguinte e na semana seguinte e no mês seguinte andavam a dizer o mesmo que ela.
Das mais coisas mais ridículas que testemunhei em muitos anos.
Prova inequívoca de como as redes ditas sociais podem ser as novas guilhotinas dos nossos dias.
Ela foi vítima do contexto, falou na altura da intervenção da troika em que grande parte das pessoas já estava com a corda na garganta. Dizer que não se podia comer um bife todos os dias quando as pessoas nem tinham dinheiro para comprar pão, foi assim um bocadinho descontextualizado. Foi de tal maneira que nesse ano o banco alimentar teve uma queda brutal de receitas.
Muitos dos que a criticaram (suspeito) jamais contribuíram com um cêntimo para o banco alimentar contra a fome. E seriam incapazes de promover alguma iniciativa tão meritória e até indispensável como esta.
Infelizmente são as instituições que sofrem quando os dirigentes abrem a boca. Veja o caso do Fernando Nobre quando se candidatou a presidente da assembleia da República, cada vez que abria a boca…era uma tristeza.
A Jonet teve azar, as suas intervenções coincidiam precisamente com as políticas do Gaspar. Levou por tabela.
Nobre tem mérito também. Fundou a Assistência Médica Internacional, que já ajudou muita gente. Precisamente a que mais precisa.
Muitos dos que o criticam, instalados num sofá, nunca arregaçaram as mangas para construir algo sequer vagamente semelhante, seja em que área for.
Típico de um certo Portugal: geralmente quem critica nada faz – mesmo nada – em prol da comunidade.
Tem razão, mas como diz o velho ditado, cada macaco no seu galho. Fazer uma boa acção não implica ser um bom político. E quando se misturam as coisas geralmente dá barraca. Foi o que se passou nos dois casos.
Aí estamos totalmente de acordo. Ser uma excelente pessoa numa determinada actividade, até com evidente benefício comunitário, não faz dela uma política sequer razoável. São áreas muito diferentes. Tal como a melhor literatura não se faz com boas intenções, antes pelo contrário, na política é frequente acontecer o mesmo. Os virtuosos estragam mais do que solucionam.
Alguns dos políticos mais enaltecidos – lembro-me de um Kennedy ou um Churchill, por exemplo – não passariam em certos crivos sociais. Hoje ainda menos do que na época deles, como é sabido.
A senhora quer leis para impedir os Portuguese de comer carne. É ela que quer ser guilhotinadora.
Cada vez menos pessoas trabalham fisicamente, veriam se tiverem de escavar e trabalhar no campo a falta do bife ou de peixe a sério.
Esta senhora tem feito mais para combater a fome em Portugal, incluindo a fome envergonhada, do que todos os pseudo-“influentes” das redes ditas sociais.
O que a senhora disse (e na altura não lhe vislumbrei um pingo de arrogância) foi que ela própria dizia aos seus filhos que não se podiam comer bifes todos os dias
Dno
E disse muito bem.
Com os meus parcos talentos e depois de te ler arriscar-me-ei neste teu rumo, apesar da delicada e complexa confecção do repasto.
Fácil, fácil – como diria o presidente Varandas.
Os preços não estão a “escalar”. Eles estão a “disparar”.
Os imbecis agora usam “escalar” para tudo. Da guerra aos preços. Já sem falar no alpinismo, claro.
Devem pedir sempre peixe “escalado”, para prestarem culto à palavra dominante. Serve para tudo: há três meses que não ouvimos outra.
Os preços estão a escaldar. Saliento, como excepção, a cadeia comercial Lidl, cujo aprazível uísque “queen margot” subiu apenas 10 centimos, mantendo-se nuns saudáveis 6,99 euros a garrafa. Bem hajam…
As chamuças ainda não estão mais caras no mercado de Alvalade.
Isso é uma boa notícia.
Havemos de reflectir mais em pormenor sobre este assunto.
Temos que fazer um colóquio, sobre o assunto e não só (até porque se entrou no defeso clubístico)…
Alinho nisso. Numa «escalada» de chamuças, para usar uma palavra de que agora se abusa a toda a hora. Para testar a nossa «resiliência» a qualquer «disrupção» (outras duas, cada qual mai’ linda que a outra…)
Encomendei umas chamuças das “tais” jpt. Que maravilha. O meu marido adorou também as picantes
Pois folgo muito com essas boas notícias… Obrigado por me deixar saber.
Uma boa homenagem a cozinha turca que e muito rica e que infelizmente tem alguns (muitos) dos seus pratos serem confundidos com a cozinha grega!
É verdade. Devo salientar que Istambul foi das cidades estrangeiras onde melhor comi até hoje.
Em gastronomia dá cinco-a-zero a Atenas.
Lá para Novembro planeio ir até lá. Depois peço umas dicas sobre a comida.
Em Istambul come-se bem, a qualquer hora, em qualquer lugar. Há muita comida de rua – boa, barata, variada.
E aquelas esplanadas à beira-Bósforo são imperdíveis. De um lado Europa, do outro Ásia. Com os esbirros de Putin a uma distância considerável, apesar de tudo.
Possivelmente a despropósito, o diálogo entre Pedro Correia e Carlos Sousa, fez-me lembrar uma “estória” do pós 25 de Abril
Num supermercado estava uma senhora bem vestida mas com um casaco que já vira muitos Invernos e duas suburbanas, tipo empregadas de limpeza casadas com seguranças bancários que se viram de repente bafejadas por um contrato colectivo que não só subiu o ordenado para o mínimo do sector como, sobretudo, assegurou horas extraordinárias principescamente (ou bancariamente) pagas. A senhora adquirira soja e uma delas perguntou-lhe para que era aquilo. A senhora explicou que tinha as mesmas proteínas que a carne, era muito mais barata e misturada até tornava os croquetes mais leves. Aí a outra leva a mão à cintura e proclama:
– Então não querem lá ver que estas gajas até sabem ser pobres!
Eheheh.
Enfim, tal como no tempo da I.ª República na Província, andam a comer a “sopa dos pobres”… Só que para disfarçar, chamam-lhe agora outros nomes.
A sopa dos pobres, também conhecida por Sopa do Sidónio, em alusão ao presidente Sidónio Pais que lançou esta medida assistencialista na impropriamente chamada I República.
Pedro,
não fosse um certo jantar
poderia dizer que nos últimos meses carne de vaca tem sido raro. Muito raro!
Opto por galinhas do campo que fazem uma canja bestial ou um borrego criado em terras beirãs. Este último cozido simples a que depois junto arroz e cenouras. Um mimo.
O problema do teu prato… a pimenta. Faz.me imenso mal! Prefiro piri-piri!
Abraço.
Meu caro, há três petiscos “carnícolas” que adoro mas que passo um ano ou mais sem comer: cabrito assado, chanfana e ensopado de borrego.
Não faço nada disso em casa e sou tão apreciador que só os aprecio mesmo ‘in su sitio’, no devido contexto, em lugares onde saibam mesmo confeccionar tais petiscos. Tal como só me apetece comer pica-no-chão no Minho, enguias na Costa Nova, leitão na Bairrada e cataplana no Algarve.
Ou o arroz de carqueja no Fundão.
Sou vegetariana por opção. Não imponho os meus hábitos a ninguém, mas gosto de ser assim.
Ainda bem. Impor, nem pensar. Bem basta a carga fiscal que o governo nos impõe.
Uma receita a experimentar, sem dúvida! Hoje cheguei a cada há cerca de 1 hora, completamente derreada e tinha à espera uma alheira de caça com grelos amargos salteados. Um miminho que me soube pela vida. Terça feira experimento e depois lhe direi se me saí bem.

Espero que goste, Dulce. Hei-de trazer outras receitas fáceis de petiscos diferentes do habitual.
bom, bom …tirando duas nodoazitas (…imbecis nas pantalhas…e….aves canoras a pipilar ), está excelente, acessivel, pratico, o leitor ate sente o cheiro.
(pronto. E agora o que nao interessa, até porque o mais provavel é eu nao estar a ler bem : ” mesmo se abusamos da carne “)
Tenha cuidado com esses abusos. E com outros.
Na sua idade é capaz de lhe fazer mal.
( a eterna confusao do leitor como “ter aceite” ou ” ter aceitado” ).
E para beber, o que é mais apropriado com esta receita ?
Água da bica, como dizia mestre Nelson Rodrigues.
A melhor bebida do mundo.
Como já tinha lido aqui referencia á sopa dos pobres, palpitou-me que seria essa a recomendaçao.
Nada mais saudável.
Pois a senhora indignou muita gente pelo ar arrogante como falou. De resto é sabido que não se pode comer carne todos os dias a bem da saúde e da carteira. Se bem que os vegetais e o peixe também não estejam nos seus melhores dias de aquisição. Quanto à sua receita só tirava o pimento. E era capaz de juntar bacon😄
Bacon, para mim, nem pensar. É uma das causas da hiper-obesidade dos norte-americanos, comerem disso logo ao pequeno-almoço.
Carnes processadas estão banidas da minha dieta alimentar. Nem fiambre como.
Eu uso muito pimento, cogumelos e tomate. Espargos também.
Ó Pedro Correia; muito obrigado pela receita que parece ser porreira. Vou já fazer hoje mesmo.
A minha dúvida está em refogar a cebola em lume alto, porque quando refogo cebola mesmo em lume moderado ou baixo, ela fica sempre queimada. Mas vou fazer na mesma. Se queimar deito fora e faço outra em lume brando. Acho que também ia bem uma folha de louro.
Reitero os meus agradecimentos pela partilha.
Votos de excelente semana.
cordiais cumprimentos.
Eu costumo refogar a cebola em lume alto no primeiro minuto, depois baixo. Quando começa a dourar, junto as tiras de pimentos e/ou os cogumelos laminados, mais o(s) tomate(s) em pedaços – a que junto duas colheres de polpa, faltou-me acrescentar no texto. (Vou fazê-lo agora.)
Ainda veio muito a tempo, obrigado.
Vou fazer à noite.
Continuação de excelente dia.
Muito bem.
Bom-dia.
Feito! Sucesso estrondoso.
Bom barato, gostoso e aprovado por unanimidade.
Muito obrigado e venham mais dicas,
Tenha um excelente dia.
cordiais saudações.
Ora viva!
Fico muito satisfeito por saber.
Saudações gastronómicas.
Agora a partir do original virão inovações minhas.
Por ex: fatias de pão de mistura e torrado. mais pimentos, amarelos também é capaz de ir bem, mais alhos e menos cogumelos. E condimentos a aplicar, manjericão e alecrim e o que mais me lembrar.
Enfim, acho que há por aí muito caminho a desbravar.
Reitero os meusagradecimentos.
Continuação de excelente dia.
Sim, a piada de pratos como estes é podermos ir variando os ingredientes e os temperos. Eu também costumo polvilhar de manjericão no fim.
Sobre os “salários em atraso”, o meu pai era empresário, empresa familiar, e noutros tempos lembro-me de haver pouco dinheiro em casa, era eu adolescente que ia à mercearia buscar alguns produtos mais necessários, ficava na conta , que era paga ao fim do mês ou logo que houvesse dinheiro.
Nunca uma conta ficou por pagar.
Foram tempos difíceis.
Quanto aos bifes, também nos dias que correm não se pode comer todos os dias, e a carne vermelha está a sair da minha alimentação, dentro de casa.
Embora goste de um bife tenro dentro do pão.
Vou experimentar este seu prato.
Cumprimentos
Muito bom, Maria.
Faço todas as semanas.