Comer (5)


Pedro Correia,

atum à Brás.jpg

 

Conheço vários apreciadores de boa mesa que jamais sentiram curiosidade em indagar como se faz. Há até quem escreva sobre gastronomia sem saber estrelar um ovo, algo que sempre me fez confusão: como é possível ser-se crítico sem ter sequer conhecimentos rudimentares nesta matéria?

Só por irredutível preguiça alguém pode dizer-se incapaz de cozinhar. Tudo se resume à motivação. Nada melhor, para o efeito, do que respondermos a este repto mental: como faria eu para comer se todos os restaurantes que conheço fechassem ao mesmo tempo e me encontrasse sozinho em casa, impossibilitado de sair (devido a uma pandemia com estado de emergência e recolher obrigatório, por exemplo) e tendo apenas os ingredientes básicos na despensa ou no frigorífico?

Espírito de pioneiro: só isto nos leva a vencer a inércia. Não admito que um adulto, consciente e responsável, se confesse «incapaz de estrelar um ovo». Geralmente acontece com homens, embora vá encontrando cada vez mais mulheres que se proclamam «alérgicas à cozinha» e até pareçam sentir orgulho em dizer que mantêm relação nula com fogões. Sinal dos tempos: se é para exibirem «emancipação», vão por mau caminho. Assim ficarão sempre dependentes de alguém, disponível (ou não) a cozinhar para elas.

 

Comecemos pelo mais básico. Que costuma ser também o mais rápido – e nem por isso menos saboroso. Um dos dois ou três primeiros pratos que preparei é ainda daqueles a que recorro com frequência quando a fome aperta e o tempo escasseia. Atum à Brás: faz-se em minutos e exige poucos ingredientes. 

Começo por picar meia cebola: as receitas falam-nos sempre em cebola inteira, mas metade basta. O mesmo para os alhos: se sugerem dois dentes de alho, é garantido que um já cumpre a função. Segue também picado para a frigideira, onde já repousa a cebola mais uma folha de louro.

Rego com um fio de azeite, fica a alourar. Verto então meio copo de vinho branco e aguardo que ferva um minuto ou dois. Entretanto, bato um ovo por pessoa, com salsa e pimenta. Fica pronto a despejar sobre a cebolada, em lume brando. Há que mexer sempre: é nestes momentos que uma colher de pau se revela auxiliar imprescindível, digam os burocratas de Bruxelas o que disserem.

 

Mal o ovo esteja cremoso, termina a sucinta operação culinária. Resta juntar batata frita palha e envolvê-la na frigideira, apagando-se o lume. Há que agir com rapidez para evitar que o ovo seque.

Falta acrescentar o atum – também uma lata por pessoa. Prefiro o Santa Catarina, açoriano. Mas Minerva ou Bom Petisco também servem, em posta ao natural, sem azeite acrescido. 

Que mais? Polvilhar com salsa. Podemos também enfeitar com azeitonas: parece ainda mais português. E sabe sempre bem.

 

Há pratos que demoram mais tempo a fazer do que a comer: são quase todos. Com este, sucede o contrário.

É um dos motivos que me levam a recomendá-lo a quem queira iniciar-se. Para riscar de vez aquela expressão «nem sei estrelar um ovo»: deixemos isso para as dondocas que têm cozinheiro privativo ou para os grunhos que se gabam de nunca entrarem numa cozinha. Nem sabem o que perdem.

38 comentários em “Comer (5)”

  1. “como faria eu para comer se todos os restaurantes que conheço fechassem ao mesmo tempo e me encontrasse sozinho em casa, impossibilitado de sair (devido a uma pandemia com estado de emergência e recolher obrigatório, por exemplo) e tendo apenas os ingredientes básicos na despensa ou no frigorífico?”
    Cozinhava e era infeliz, porque não gosto de cozinhar.

  2. Eu fui dondoco durante duas décadas, e na prévia alimentava-me em casa paterna, em restaurantes ou em desatenção militante. Ou seja, cheguei aos 50 anos “a saber apenas estrelar um ovo”. Desde então tenho feito alguns progressos – não gloriosos, friso. Um dos quais é o (para mim) difícil “legumes à Braz”, que me sai a contento próprio. Mas Aquela para quem cozinho contesta a utilização da batata, quanto mais frita de pacote…

    1. Há quem se “desenrasque” descongelando pizas. Ou optando por comida pré-cozinhada, congelada, que basta enfiar 3 minutos no micro-ondas.
      São opções sempre desaconselháveis no médio e longo prazo. Depois o corpo é que paga.
      E também pesa mais na carteira.

      1. Desaconselho, mesmo, o recurso às pizzas. Cometo isso, com assiduidade (pelo menos uma vez por mês), em radical preguiça. O meu lado natural, aka metabolismo, fica sempre a resmungar. Nesse registo de preguiça, mas menor, sou muito dado a fazer sopas (e já tive[mos] a colaboração da Maria Dulce Fernandes nessa matéria) e procuro desenvolver o ofício de cozinhar vegetais – muito por influência d’Aquela para quem cozinho. Vegetais que algo se ausentam quando vegeto na solidão.

  3. O meu avô paterno, Faustino Antolin, para além da actividade profissional na firma familiar, de produtores de vinhos, aguardentes e adubos, tinha, como dizia, duas “amantes”, além da família : a caça e a “mesa”, que compreendia o cozinhar e a refeição subsequente. Para a caça eram sagradas as duas semanas de férias em Outubro, para perdizes e pombos. A culinária era um prazer anual, como excelente cozinheiro e gourmet que foi. Numa revista Banquete, do início dos anos 60, vem um artigo a ele dedicado, pelo saudoso amigo e enorme cozinheiro, o Francisco Meira. A 2 de Setembro de 1961 preparou uma refeição de rôlas e codornizes, além de outros pratos, para uns quantos primos chegados dias antes, de Valladolid. Ao fim da tarde, entre cafés, cognacs e uns cigarros, achou que um bicarbonato de soda lhe ajudaria a digestão, tomou-o com água muito fria, choque térmico, o coração falhou. Tinha 64 anos e, como tantas vezes ouvi o meu pai : “… partiu cedo demais, mas talvez tivesse sido a escolha certa para nos deixar…” . E não duvido que terá dito, ao iniciar a preparação desse almoço, aos que chegavam “… entrem, sentem-se, esperem e conversem, o almoço não demora..” . Grande abraço e boas comidas, amigo Pedro

    1. Caramba, Fernando. Morte prematura, com essa idade. Mas deve ter sido também, tanto quanto é possível acontecer, uma morte feliz. Com sofrimento mínimo e após convívio bem partilhado e bem alimentado.
      Hei-de falar aqui de algumas refeições inesquecíveis – incluindo um arroz de perdiz divinal.
      Abraço amigo.

  4. Boa Tarde Pedro Correia
    Como já terá percebido anteriormente comungo do que refere.
    Deixo-lhe uma sugestão: alho francês à Brás. Depois de bem lavado, corto rodelas grossas e cada rodela a meio, que refogo com cebola roxa, e depois sigo o habitual.
    Bom resto de Domingo
    António Cabral

  5. Com esta não me convences, Pedro, apesar da simplicidade. O bacalhau à Brás da minha mãe seria classificado de Património Cultural da UNESCO, ou lá como se designa a coisa. Nada de batata palha: batata picada finíssima, frita com cuidado. Junta-se os ovos fresquinhos das galinhas lá de casa. Quando se come, nem se percebe onde o bacalhau acaba e a batata começa. Umas azeitonas verdes e um copo de branco fresquinhos e até um ateu como eu sente que Deus deve estar no fundo daquele tacho

    Isto para dizer que batata palha só me convence em cachorros quentes, mas gosto muito das tuas sugestões culinárias, Pedro. Cá em casa estamos a fazer um livro de receitas: os segredos das nossas Mães e as coisas que vamos aprendendo aqui e ali.

    1. Isso dá um livro, sim, João.
      A ideia, neste caso, é sugerir o mais básico para demover aqueles que nem sabem “estrelar um ovo” porque sempre tiveram mães, avós, mulheres e namoradas a cozinhar para eles…

  6. Os tipos de Bruxelas são uns totós, julgo que são assim instrumentalizados por interesses instalados das grandes marcas de artigos de cozinha.
    Nos Países Baixos “instalei” a mania da sardinha assada na brasa, a colher de pau e o assador de barro de chouriços. Ah!, e o bacalhau cozido com grão regado com azeite.
    Não queriam outra coisa ‘breng alsjeblieft culer de pau, azador de choriso e cabalau salgado’, pediam-me quando vinha a Portugal.

  7. só cozinho carne e peixe nas versões cozido ou grelhado. também hamburgers de soja.
    este Braz é o do SLB?

  8. “Ó Maria lembra-te dissso, atum só bom petisco”.

    Bife constipado : fritar em molho brando; quando estiver no ponto, verte-se uma chavena de café em cima da carne; abrir a janela e deixar 10 minutos a apanhar ar frio do exterior.
    Problema : só resulta no inverno

    No verão : atum( 1 lata por pessoa) + salada (tomate, cebola e alface + azeitonas). Para acompanhar : super-bock geladinha.
    Ninguém morria de fome.
    Haja imaginação.

  9. > como é possível ser-se crítico sem […]

    Ena, essa tem séculos de história.

    A sério que nunca viu esse debate?

  10. Muitos pontos mal definidos nesta receita.
    (1) Uma cebola, duas cebolas… de que tamanho? Há cebolas de muitos e variados tamanhos. O mesmo se diga dos dentes de alho.
    (2) Atum Santa Catarina, estou de acordo, mas qual? Em água? Em azeite? Em molho de tomate?
    (3) Batata frita palha é coisa que nunca entrou em minha casa. Onde se compra? Que marca recomenda? Que quantidade?

  11. A ordem não está correcta.
    Esturgido
    Atum/bacalhau
    Batata frita
    (Um pouco de leite para amolecer a batata frita)
    Ovos batidos
    Envolver tudo e servir

      1. Não faço com Atum. No bacalhau dourado não há vinho branco. E o ovo pode não ser suficiente para amolecer as batatas fritas.

        1. OK, mas eu faço esta receita com atum. O postal destina-se a desafiar todos aqueles que não cozinham a darem o primeiro passo.
          Nunca poderia ser com bacalhau, que exige sempre elaboração mais complexa.

          1. Eu cozinho desde os 16 anos, já lá vão 40, por isso já nem me lembro dessas dificuldades iniciais.
            Mas hoje em dia há uma escapatória fácil – a bimby ou seus “lookalikes”.

          2. Bem sei. Mas nunca fui por aí – até agora.
            Tenho preferido à moda antiga. E, assim, dando de vez em quando pistas aos leitores do blogue. Sobretudo àqueles que nunca arriscaram entrar na cozinha ou se escudam na tal desculpa de não saberem estrelar um ovo…

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