Comer (4)


Pedro Correia,

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O prazer de comer redobra quando sentimos prazer em cozinhar. Por vários motivos, desde logo este: aqueles alimentos concretos que vamos consumir estimularam a nossa criatividade antes de se materializarem em comida. Fomos nós que os adquirimos, fomos nós que os confeccionámos, foi na nossa cozinha que eles se tornaram requintados e apetecíveis.

Ao contrário de outras espécies animais, que vivem para comer, nós comemos para viver. O que faz toda a diferença. Com a passagem dos anos habituamo-nos a associar a arte culinária às pequenas alegrias quotidianas.

Mesmo quando já sabíamos disto em teoria, ganha significado quando é posto em prática. Quem cozinha, saboreia melhor a vida. Está um degrau acima daqueles que só se relacionam com a comida como seres passivos, consumindo o que outros lhes preparam.

 

Esta convicção reforça-se até quando o prato é simples. Por exemplo, o ravioli com espargos e cogumelos salteados que cozinho com frequência – por ser fácil, barato, pouco calórico e muito saboroso. E rápido: basta um quarto de hora.

Presto culto aos espargos – que não me recordo de consumir na infância – desde que um dia, na minha amada cidade de Évora, comi umas irrepetíveis migas de espargos com carne de alguidar.

Mais tarde fiquei a saber que tem propriedades nutritivas, é diurético e anti-oxidante. Tanto melhor, mas foi pelo sabor que este vegetal me conquistou.

 

Começo por amputar-lhes a base, mais fibrosa, e corto-os em pedaços de cerca de 5 cm. Irão ser escaldados por muito pouco tempo numa caçarola: assim amaciam sem perder consistência. Entretanto liberto os ravioli da embalagem e deposito-os numa panela com água a ferver. Ficarão ali apenas cinco minutos. Gosto desta massa fresca sobretudo quando é recheada de mozzarella e tomate.

Já retirados os espargos com uma escumadeira, ponho a frigideira ao lume com um fio de azeite e um dente de alho picado. Chama média. Vou lá depositando os cogumelos laminados, logo a seguir os espargos e uns pedaços de tomate seco cortados em tiras, temperando apenas com grãos de pimenta já moídos. Quem não resiste à carne pode lá depositar também umas raspas de chouriço.

Outros cinco minutos nisto. Até que envolvo os ravioli e salpico-os com duas ou três colheres de água da cozedura. Daí a nada, tudo pronto a comer.

 

Já fora do lume, polvilho com ervas aromáticas (manjericão, por exemplo) e algum queijo ralado. Quando me apetece, adorno com meia dúzia de tomates-cereja cortados em metades. Os olhos também comem.

Apetece repetir. É o que faço. Sem nunca enjoar. Sermos nós a preparar um prato faz toda a diferença. É tal qual vos digo: o prazer redobra. Quem nunca experimentou nem sabe o que perde.

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12 comentários em “Comer (4)”

  1. Retenho no seu escrito uma frase muito importante que ouvi à minha irmã à 50 anos.
    ” Nós comemos para viver e não vivemos para comer”

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