
O prazer de comer redobra quando sentimos prazer em cozinhar. Por vários motivos, desde logo este: aqueles alimentos concretos que vamos consumir estimularam a nossa criatividade antes de se materializarem em comida. Fomos nós que os adquirimos, fomos nós que os confeccionámos, foi na nossa cozinha que eles se tornaram requintados e apetecíveis.
Ao contrário de outras espécies animais, que vivem para comer, nós comemos para viver. O que faz toda a diferença. Com a passagem dos anos habituamo-nos a associar a arte culinária às pequenas alegrias quotidianas.
Mesmo quando já sabíamos disto em teoria, ganha significado quando é posto em prática. Quem cozinha, saboreia melhor a vida. Está um degrau acima daqueles que só se relacionam com a comida como seres passivos, consumindo o que outros lhes preparam.
Esta convicção reforça-se até quando o prato é simples. Por exemplo, o ravioli com espargos e cogumelos salteados que cozinho com frequência – por ser fácil, barato, pouco calórico e muito saboroso. E rápido: basta um quarto de hora.
Presto culto aos espargos – que não me recordo de consumir na infância – desde que um dia, na minha amada cidade de Évora, comi umas irrepetíveis migas de espargos com carne de alguidar.
Mais tarde fiquei a saber que tem propriedades nutritivas, é diurético e anti-oxidante. Tanto melhor, mas foi pelo sabor que este vegetal me conquistou.
Começo por amputar-lhes a base, mais fibrosa, e corto-os em pedaços de cerca de 5 cm. Irão ser escaldados por muito pouco tempo numa caçarola: assim amaciam sem perder consistência. Entretanto liberto os ravioli da embalagem e deposito-os numa panela com água a ferver. Ficarão ali apenas cinco minutos. Gosto desta massa fresca sobretudo quando é recheada de mozzarella e tomate.
Já retirados os espargos com uma escumadeira, ponho a frigideira ao lume com um fio de azeite e um dente de alho picado. Chama média. Vou lá depositando os cogumelos laminados, logo a seguir os espargos e uns pedaços de tomate seco cortados em tiras, temperando apenas com grãos de pimenta já moídos. Quem não resiste à carne pode lá depositar também umas raspas de chouriço.
Outros cinco minutos nisto. Até que envolvo os ravioli e salpico-os com duas ou três colheres de água da cozedura. Daí a nada, tudo pronto a comer.
Já fora do lume, polvilho com ervas aromáticas (manjericão, por exemplo) e algum queijo ralado. Quando me apetece, adorno com meia dúzia de tomates-cereja cortados em metades. Os olhos também comem.
Apetece repetir. É o que faço. Sem nunca enjoar. Sermos nós a preparar um prato faz toda a diferença. É tal qual vos digo: o prazer redobra. Quem nunca experimentou nem sabe o que perde.


agora ouve-se no futebol
«tás aqui tás a comer»
«já comeu no focinho»
Ouve-se isso?
O tipo de comeres que gosto.
Hei-de trazer cá outro, caro Manuel Sousa.
tenho uma má noticia…adoro cozinhar. e comer.
Boa notícia.
Costumo fazer ravioli recheado com ricotta e fiambre para a Neta, que adora o petisco. Estes têm um aspecto formidável, Pedro!
Ficam muito bons, salteados com o resto, no fim de tudo. Dá sempre vontade de repetir, Dulce.
Retenho no seu escrito uma frase muito importante que ouvi à minha irmã à 50 anos.
” Nós comemos para viver e não vivemos para comer”
Uma das lições mais antigas que aprendi com a minha mãe.
Que bom aspeto! Vou fazer esta iguaria.
Como escrevi, é fácil, rápido e sabe muito bem.