Comer (18)


Pedro Correia,

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A falta de exigência da nossa “crítica”, nas mais diversas especialidades, chega a ser quase chocante. Regresso hoje ao tema a propósito de uma “crítica” gastronómica que acabo de ler. Como vem sendo costume, nem sombra de reparo crítico nesta prosa: só elogios. Mas elogios a quê? Ao inusual, ao raro, ao criativo, ao extraordinário? Não: um elogio à febra grelhada. Sim, ao mais banal e desinspirado prato do nosso quotidiano alimentar. Daqueles que comemos em casa e que de modo algum justificam uma deslocação ao restaurante.

O artigo espraia-se em elogios aos maiores lugares-comuns da gastronomia portuguesa, com recurso a adjectivos tão banais como os pratos que descreve. Diz o articulista que o estabelecimento onde mastigou justifica a «sua inclusão entre os bons restaurantes» de uma certa cidade. Cozinha «simples, mas cuidada e de bom gosto». O enchido é «saboroso». O entrecosto grelhado é «excelente». Comem-se por lá «dois bons pratos» de bacalhau. Quais são? Se apostaram na banalidade, uma vez mais, acertaram: frito e à Brás.

E chegamos às febras, «talvez o prato mais emblemático» do restaurante. «De textura e sabor cativantes». Grelhadas só com sal.

Um interminável bocejo, esta prosa. Confrangedora pobreza estilística e conceptual, esta “crítica” que apenas elogia. Significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.

10 comentários em “Comer (18)”

  1. o queimado das proteínas das febras é cancerígeno. as proteínas do bacalhau produzem ácido úrico excelente para atacar os rins.

  2. Tem toda a razão, depois da fase em que todos os “críticos” imitavam o estilo de José Quitério, passámos à linguagem fofinha, em que tudo é delicioso, “novo”, com o acrescento de termos agora a chamada “comida de conforto”, estranho conceito, não tenho ideia da comida ser algo de desconfortável, mas deve ser defeito meu.
    Abraço, bom fim de semana

    1. José Quitério, convém lembrar, brilhou durante décadas no Expresso e é senhor de extensa e importante bibliografia de temas “de comer”.
      Actualmente esse semanário publica notícias e críticas de restaurantes que mais não são do que publicidade encoberta a locais “na moda”.
      Exemplo disto foi a notícia de um jantar num desses estancos, tabelado a 750€ por pessoa, onde era anunciado que o brilhante responsável pela escolha e serviço de vinhos era um tal sr. Martins.
      Esse mesmo, o “embaixador” em Portugal da OENO, associação de malfeitores promotora de uma imensa vigarice no comércio de bebidas a nível mundial

      1. José Quitério é uma referência, aquilo que o “espesso” deixou de ser, não o leio há muito tempo.
        Cumprimentos

  3. Completamente de acordo. Engrilo com isso, com essa falta de ‘crítica’ . Siga, ‘bota a moer’, sem qualquer deleite.
    Mas nem oito, nem oitenta!… recordo-me de comer uma simplíssima batata cozida, em itália, mais propriamente nos arredores de Firenze, onde, de forma ‘orgulhosa’, e um tanto ao quanto parva, melhor dito, aparvalhada, o empregado de mesa, fazia a seguinte apologia na defesa da batata e respectivo prato, gesticulando com ar muito sério, como é hábito de qualquer italiano que se preze:
    «Come contorno, una splendida patata fresca, cotta in una pentola di rame che usava mia nonna, con acqua purissima e cristallina proveniente da un’antica sorgente proprio qui dietro al ristorante, già utilizzata dai Romani. Un processo di cottura controllato e preciso, sia nei tempi che nella temperatura. Lasciamo che la temperatura si abbassi per servirla con un’erba aromatica selvatica e un filo d’olio d’oliva puro e delizioso.»
    A ‘erva ‘ era salsa. Isto tudo para por no prato uma batatinha cozida…sem estrelas dos pneus No meio está a virtude. Bom fim de semana, caro Pedro Correia

  4. Sempre vale mais, uma febra grelhada, com batata frita, do que aqueles pratos “de chefes michelin”, que se pagam 130 euros, por 1 folha de alface, 5gr de peixe, uma folha de salsa e um molho avinagrado, seguido de uma mini folha, de couve, com 5gr de carne, uma folha de coentros e molho de tomate, para terminar com 1 bola (tamanho do dedo mindinho) de gelado de pistacio, com manteiga de amendoim.
    Fomos, uma vez, pois estava incluído, na estadia… no passeio, posterior, fomos comer hambúrguer grelhado, como ovo, salada e batata frita, por 10 euros, cada, com sumos e com café.
    Quando lá voltámos, só escolhemos as 2 noites, sem comida. A diferença, pagou visitas a 4 caves vinhateiras, meia dúzia de garrafas (das baratas!) e as 6 refeições, no café, da aldeia, ao lado, ainda sobrando dinheiro, para jantar, fora, durante o fim de semana, seguinte.
    Na internet, dizem que “As refeições, são fartas, muito saborosas e com preços justo.”, suponho que não será para portugueses ou para quem ande, a pé e trabalhe.

  5. Aqui estou eu, sentado num daqueles restaurantes Michelin. Onde o menu não é uma lista de comida, mas uma tese de mestrado de um tipo que tirou Antropologia e acabou a estagiar numa cozinha a recibos verdes.

    Pego nessa obra de ficção científica e leio, maravilhado: “Lâmina de suíno ibérico em desconstrução térmica, repousada sobre leito de cristais de sal fumado, selada no calor ancestral do carvão ecológico, em harmonização com tubérculos em corte juliana”. Preço: 46 euros.

    O prato vem à mesa trazido por um empregado de suspensórios que me explica o “conceito” de mastigar. Olho. Pestanejo. Olho outra vez. E não quero acreditar.

    O que eu tenho à minha frente é uma febra.

    Uma febra. Aquela carne triste e anémica que a minha tia Lurdes descongelava à pressa no micro-ondas quando não havia mais nada no congelador além de ervilhas.

    A “lâmina de suíno”? É um simples bife de porco batido com um maço de madeira até ficar com a espessura e a textura de um cartão canelado.

    O “leito de cristais de sal fumado”? É sal grosso, atirado às cegas pelo Zé da grelha, que tem um cigarro ao canto da boca e não limpa a grelha desde que o Éder marcou o golo em Paris.

    Os “tubérculos em corte juliana”? Batatas fritas congeladas da Makro, que chegam à mesa com aquela temperatura morna de hospital.

    E depois lembro-me dos meus digníssimos “colegas” da crítica gastronómica, que vêm aqui e escrevem, com lágrimas nos olhos, sobre a «textura e sabor cativantes». E que era um lugar «simples, mas cuidado e de bom gosto». Pois é. É preciso ter um gosto do caraças para cobrar o preço de um pneu novo por uma febra requentada e chamar-lhe “o prato mais emblemático da casa”. Onde é que está a ASAE da semântica para fechar esta palhaçada?

    Entretanto, olho para a mesa do lado. Estão a comer os tais dois «bons pratos de bacalhau» recomendados pelo mesmo crítico da treta. Um deles é bacalhau à Brás. Só que vem servido dentro de um frasco de compota virado ao contrário, porque o empratamento tem de refletir a angústia de quem pescou o Gadus morhua.

    Vou mas é pedir a conta antes que me cobrem direitos de autor por estar a respirar o ar “gourmet” da sala. E para a próxima, se quiser uma febra grelhada só com sal, vou à roulotte do Alfredo às três da manhã. Pelo menos lá a azia é honesta e a mostarda não vem em esferificações.

  6. Pedro Correia…

    Com tantos assuntos interessantes que podiam ser tema para comentar…

    Sugiro uma nova rubrica para o DELITO DE OPINIÃO (2009-…):

    HOJE DECIDO EU…

    Uma vez por semana, um comentador ou uma comentadora é co-autor/a.

    Quem quiser, comenta.

    Aceita a sugestão?

    João Barros da Costa

  7. Em 1998 ou 1999 uma amiga lembrou-se que era excelente irmos jantar a um restaurante “xpto”. Fui, paguei uma “pipa de massa” e fiquei cheio de fome (tal como a minha amiga). Acabamos a noite a comer no McDonald´s….

    Pedro Cunha

  8. “Febras de porco grelhadas e batatas fritas”, de preferência com muiiito limão… Ora aqui estão duas coisas de que gosto muito…

    Caro Pedro, que raio de embirração é essa com febras de porco grelhadas e batatas fritas?

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