Comer (12)


Pedro Correia,

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Longe vai o tempo em que comia quase sempre fora. Isso mudou, aliás antes da pandemia. Agora tornou-se raro o dia em que não cozinho. É uma actividade que cultivo, aprecio e recomendo – começando, aliás, na lista de compras já a pensar nas ementas. 

Como salientei no primeiro texto desta série, houve mudanças a outro nível. Sou hoje muito mais exigente naquilo que consumo à mesa. Bani quase por completo os fritos da minha alimentação diária e reduzi a carne à expressão ínfima. Adoro peixe, mas também fui reduzindo – neste caso sobretudo pelo preço, que se tornou proibitivo. Uma recente ida ao mercado, aliás quase vazio, deixou-me com certezas reforçadas nesta matéria. Não apenas no peixe, mas nos legumes: por um molho de espargos pediram-me o triplo do preço que costumo pagar no supermercado.

Vade retro, especuladores. Depois são os primeiros a debitar lamúrias perante as câmaras de televisão…

 

Partilho convosco um dos pratos de que mais gosto: todas as semanas o faço. Alterando uma vez por outra os ingredientes, mas sempre com a mesma base: arroz selvagem – rico em fibras, vegetais e anti-oxidantes. 

Exige três focos de atenção. Por um lado, o arroz vai cozendo, demorando um pouco mais do que o arroz tradicional: cerca de 20 minutos. Por outro, escaldamos espargos, devidamente cortados e despojados da base mais rija: cerca de quatro minutos bastam. Finalmente, numa frigideira, vamos salteando em azeite e louro uma curgete partida em pedaços. Quando estiverem dourados, dão lugar aos espargos, repetindo-se o processo.

À parte, numa tigela, depositamos fatias de queijo mozzarella (o vulgar queijo fresco também serve) com tomates-cereja cortados em metades. Tudo bem misturado e temperado. Com orégãos, um fio de azeite, algumas gotas de vinagre balsâmico e uma colher de sobremesa de pesto: tenho usado pesto alla calabrese, pelo seu inconfundível travo picante.

Entretanto o arroz cozeu e respirou durante alguns minutos antes de rumar à travessa. Vai servir de leito aos pedaços de curgete, aos espargos, ao queijo e ao tomate. Falta revolver tudo noutra colher de pesto. E escalfar dois ovos, que seguirão o mesmo rumo, cada qual de sua vez. Ficam no topo da travessa, juntamente com sementes de sésamo ou miolo de caju. Além das cabeças dos espargos, só para enfeite. 

 

Fácil, rápido, nutritivo e saboroso. Daí eu repetir tantas vezes este prato. Que não encontro em nenhuma ementa de restaurante. Nem sinto essa necessidade.

Para quê procurar fora aquilo que tenho em casa?

22 comentários em “Comer (12)”

  1. Já comia! Tem um aspecto formidável.
    Ultimamente também ando pelas saladas,couscous com brócolos, pimentos e acrescento lentilhas, feijão ou grão. Com arroz tenho de utilizar arroz utilizar arroz integral, que também pode ser selvagem. No princípio da semana fiz “caldeirada aldrabada” de choco com arroz. Muitos cheiros, refogado rápido de tomate e hortelã. Estava mesmo bom.

    1. Gosto de trocar ideias sobre culinária, Maria Dulce. Enriquece-nos culturalmente.
      Contribui para desfazer ideias feitas, tabus, preconceitos. Alarga horizontes.
      Como costuma dizer um dos mais célebres chefes de cozinha do nosso tempo, o basco Andoni Luis Adúriz, «quando comemos partilhamos sempre uma porção de vida alheia».

  2. boa ideia, volta André que estás perdoado.
    não esquecer que é comido à colher directamente da travessa.
    se arranjar e regar com um pouco de óleo de mancarra (amendoim) ainda melhora.

  3. Comida estereotipada. Arroz selvagem, tomate cereja, vinagre balsâmico, mozzarela…etc. Teria ficado melhor servido com uma açorda (sopa) alentejana com um ou dois ovos escalfados ou com uns rojões à moda do Minho.

  4. arroz selvagem – rico em fibras, vegetais e anti-oxidantes

    Mas pobre em proteína.

    Eu diria que arroz integral é mais saudável e nutricionalmente rico.

  5. Realmente, ir comprar vegetais (ou seja o que fôr) ao mercado é má ideia. Por razões que desconheço, lá é tudo muito mais caro.

  6. Que bom aspecto! Tenho de experimentar essa combinação, pois também evito comer carne (em casa nunca faço) e sou parcimoniosa com o peixe. De há uns tempos para cá ando igualmente fã de espargos, que ligam bem com tudo, mas o meu arroz de eleição ultimamente tem sido o risoto – influência de um risoto de espargos que comi há dois anos em Itália e que me encheu as medidas, apesar de ser um prato super simples. Como também faço a maior parte das refeições em casa e ainda por cima sou uma esquisita assumida, ando sempre a puxar pela imaginação para ir variando o que como, e todas as sugestões são bem-vindas 🙂

    1. É fácil variar e desfazer aquele velho tabu (replicado por um leitor aí mais acima) que “refeição sem carne nem pão nem chega a ser refeição”.
      Cozinho muito com espargos, pimentos, cogumelos, cenouras, curgetes. Base de azeite, alguma cebola, um pouco de alho, sem esquecer o tomate.
      De facto, Ana, a diversidade é um dos segredos. Tentar não pesar no estômago e o menos possível na carteira. Pôr a imaginação a funcionar.
      O fogão pode levar-nos a outras paragens.
      Hoje ao almoço, por exemplo, cozinhei ‘tagliatelle arrabbiata”: há muito não fazia, apeteceu-me regressar a este prato de meia-estação no dia em que a hora mudou. Com saudável nostalgia de uma inesquecível refeição que fiz no Paoli, o restaurante mais antigo de Florença. Foi de lá que trouxe a receita.
      É outra forma de viajar.

      1. Uma das vantagens de viajar é que tenho aprendido a cozinhar e sobretudo a gostar de outras comidas que não a nossa tradicional – embora, note-se, eu considere que a culinária portuguesa é das melhores do mundo, e muito variada.
        Aparte isso, sou adepta da cozinha italiana (e o meu almoço de hoje foi esparguete com legumes) e da grega.
        Viagens e gastronomia são duas palavras que combinam muito bem.

  7. Fenomenal
    Também é raríssimo comer fritos e, desde que reduzi carne e peixe “à expressão ínfima”, tenho poupado muito dinheiro, além de cuidar da saúde. Perante os resultados das nossas análises (do Horst e minhas) os médicos não têm o que nos receitar, apenas nos dizem: “continuem como até aqui”. E, com mais um pouco de cuidado (reduzindo na doçaria), emagreci sete quilos, desde Fevereiro passado. Até reactivei peças de roupa que já não vestia há vários anos. Estive para doar algumas, ainda bem que não o fiz, já que as modas passadas estão sempre a regressar

    De facto, não é preciso carne, nem gordura animal, para se comer uma boa refeição. Ontem, fiz um estufado de gão-de-bico, batata doce e pimento vermelho, temperado com caril, gengibre e pimenta, que nos soube muito bem. Teve como base um refogado de cebola, alho e bom azeite (a única gordura utilizada).

    Comprar produtos frescos e cozinhar as próprias refeições é muito importante, embora compreenda que muita gente possa não ter tempo. Por outro lado, em inúmeros casos, é só preciso alguma força de vontade. E não depender de outrem para se alimentar, aumenta a auto-estima. A saúde e o bem-estar agradecem.

    Talvez ainda publique aqui igualmente algumas das minhas criações culinárias

    1. «Em inúmeros casos, é só preciso alguma força de vontade. E não depender de outrem para se alimentar, aumenta a auto-estima. A saúde e o bem-estar agradecem.»
      Grande verdade, Cristina. Muitas vezes são só desculpas de quem não quer abandonar o padrão da comida-lixo.

      P. S. – Estufado de grão-de-bico, batata doce e pimento vermelho, temperado com caril, gengibre e pimenta: eis algo que certamente me agrada.

  8. Um prato com cor.
    Cortei na carne, no peixe não.
    E porque alguém comentou nsobre a carne e pão, começou , ontem, a época das papas de sarrabulho e dos rojões à moda do Minho.
    Todas as refeições sou eu que cozinho. Janto fora de casa quando há um convívio de amigos.
    Obrigada pela partilha.

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