Combater o esquecimento é serviço público


Pedro Correia,

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Uma das missões fundamentais do jornalismo é resgatar do esquecimento factos relevantes da nossa vida colectiva. Alguns destes factos, como no célebre filme de John Ford, vão dando lugar a mitos. Sucedeu isto a propósito das auto-designadas Forças Populares 25 de Abril, organização terrorista que esteve activa já no Portugal democrático. O recente desaparecimento de Otelo Saraiva de Carvalho funcionou como pretexto para avivar a memória já muito difusa daqueles sete anos em que o Estado de Direito permaneceu sob ameaça constante de um grupo armado que assaltava, destruía, feria e matava. Sob a liderança de Otelo, que ao obter apenas 1,5% nas presidenciais de 1980 viu definitivamente derrotado nas urnas o seu projecto de implantar uma “democracia popular”. Na certeira síntese de Ramalho Eanes, coube-lhe então a «autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências». Como autor moral ou cúmplice de actos de violência extrema, incluindo quase duas dezenas de homicídios comprovados em tribunal.

A RTP destacou-se neste combate contra a desmemória num documentário intitulado Palavra de Otelo. Da jornalista Márcia Rodrigues, com imagem de Hélder Oliveira e edição de Paulo Nunes. Com recurso ao seu rico acervo de imagens, e a uma entrevista feita a Otelo em 1996, a estação pública desvenda-nos aqui fragmentos do complexo retrato do homem que quis implantar em Portugal o “verdadeiro socialismo” com recurso às baionetas. Muito antes de haver FP-25.

No Verão quente de 1975, por exemplo, Saraiva de Carvalho fez esta declaração textual aos jornalistas: «As forças armadas nesta altura estão dispostas a entrar num caminho muito duro, de repressão, que temos evitado até agora. Aqui há uns tempos, disse algumas palavras muito candidamente através da Rádio Renascença dizendo que oxalá não tenhamos de pôr no Campo Pequeno os contra-revolucionários, mas estou convencido de que a curto prazo temos de [os] pôr mesmo. A coisa parece que se está a encaminhar nesse sentido, infelizmente. Vai-se tornando impossível ter uma revolução socialista, na totalidade, por via pacífica.»

Nas últimas décadas de vida, este homem que durante o PREC comandava a mais destacada força de intervenção militar e ordenou centenas de prisões políticas sem mandado judicial, sempre negou ter proferido a frase que Márcia Rodrigues resgatou da poeira dos arquivos. Prestando verdadeiro serviço público.

Notável também, o documentário intitulado FP-25 – Terrorismo Português, que passou numa destas noites na CMTV. Da jornalista Mónica Palma, com edição de Francisco Mata. Aqui dá-se voz às vítimas – às que sobreviveram aos actos de terrorismo naquele Portugal da década de 80, às que sofreram feridas jamais cicatrizadas. Fala-se do filho que aos 17 anos viu o pai baleado na nuca à porta de casa, fala-se de um jovem agente da PJ que deixou viúva grávida, fala-se daquele bebé “contra-revolucionário” que dormia no berço quando foi morto à bomba. Avivam-se memórias anestesiadas pelo esquecimento. Serviço público também.

 

Texto publicado no semanário Novo

 

12 comentários em “Combater o esquecimento é serviço público”

  1. ” Serviço público também.”
    Qual serviço público?
    Otelo faleceu e é um assunto encerrado!
    Injustiças de todo o tipo está o mundo cheio.
    Porque é que o Ricardo Salgado o intitulado dono disto tudo anda a passear por aí intocável a gozar com todos os portugueses? Ou a culpa é só do PS! Tenha dó!

  2. aqueles sete anos em que o Estado de Direito permaneceu sob ameaça constante de um grupo armado que assaltava, destruía, feria e matava

    Penso que o Estado de Direito em Portugal nunca esteve sob ameaça de ser destruído ou limitado pelas FP-25. Nunca se pôs a questão de deixar de aplicar a Lei por causa das FP-25.

    O Estado de Direito em Portugal sofre muitas ameaças (por exemplo, por parte de tiranetes locais, ou de juízes, que pretendem estar acima da Lei), mas as FP-25 nunca o puseram em causa.

    1. O Estado de Direito em Portugal sofre muitas ameaças (por exemplo, por parte de tiranetes locais, ou de juízes, que pretendem estar acima da Lei), mas as FP-25 nunca o puseram em causa.

      Engraçado. Um grupo terrorista é uma ameaça menor do que “um juiz que quer estar acima da Lei”.. não imagino quem seja… alguém do Benfica??). Nesta lógica terá de concluir que a maior ameaça ao estado de direito em Portugal é o Partido Socialista e o próprio aparelho de estado infetado pelos seus capatazes. Esses cornudos nem deixam morrer a TAP para salvar os ordenadões das mulheres deles.

      1. Infectado estou eu. Em cima é infectado e não como eu escrevi, obviamente. Mil perdões por este deslize infame.

  3. Bom, parece que o folhetim Pichardo já está esquecido.
    Voltemos ao folhetim Otelo que parece, agora, é o que vai dar.
    Também, por estarmos na época, pode aparecer uma de “Verão Quente” com bombas, assaltos, assassinatos e tal.
    Ah! e algumas citações do processo/julgamento das fp25 sobre os embuçados e sobre para onde voou o dinheirinho dos assaltos. E ainda pode haver aquela de ter sido uma procuradora do pcp que arranjou a trama para acusar o Otelo.

    1. A propósito de “dinheirinhos” e recuando nos tempos. Para onde terá ido o “dinheirinho” do célebre assalto ao Banco de Portugal em Figueira da Foz, executado por Palma Inácio da LUAR? Ainda existem pelo menos duas pessoas, uma natural de Águeda e outra a acupar um monte alentejano, que podem dizer para onde, mas que houveram grandes farras em Argel com esse dinheiro…….

  4. “…Vai-se tornando impossível ter uma revolução socialista, na totalidade, por via pacífica.”. Calma Sr. Otelo. Não é bem assim.

    Com a ajuda dos constitucionalistas (cuja ideologia, à data, bem conhecemos), do PS, do PCP, meio século depois, Portugal é hoje “por via pacífica”, um País socialista e supinamente individado. Ha outras formas -absolutamente legais- de implantar socialismo/comunismos.
    Veremos os usuais sorrisos na votação do OE. Parabéns aos vencedores.

  5. A Retepê, tal como a TAP, deviam ser extintas. Se fosse eu a mandar neste buraco, aliás, já estavam extintas há muito e aquela gente toda no olho da rua. Dava para viver das casinhas que compraram com o dinheiro do Novo Banco se as alugassem. Alugavam os apartamentos a 12 brasileiros por andar para eles pendurarem os calções e as toalhas na varanda.

    1. Com a bandeira do brazil estampada claro. Bandeiras cubanas ainda há poucas e não saiem baratas ao povoleu,50 merreis de cada enxerto…dase!
      Basilio xuxa….coiso…esse mesmo!

  6. A RTP por vezes faz serviço público, mas aquilo que o povo gosta é de “preços certos” e aberrações afins

    Uma boa semana

    Pedro Cunha

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