Por instinto conduziu-o pelo braço. Olhos em frente, a furar médicos e enfermeiros naquele vaivém por entre aflitos, o que ela queria era segurá-lo pelo braço, porque a mão, aquela mão dele, estava ao contrário. Se ele imaginasse como lhe era insuportável segurá-lo pela mão, teria percebido porque teve ela de ser tão desembaraçada em tudo, para poder negar àqueles espectros de bata branca o espectáculo banal do seu pavor.
Depois, quando o chamaram e começaram a fazer-lhe perguntas ela recuou ao tempo em que era ele que as fazia. O que diz o teorema do valor intermédio de Bolzano? Ao tempo em que a sua preguiça o exasperava: Burra! E ela, rancorosa, a amaldiçoar aqueles jogos florais, o desafiava: Detesto matemática! (Se calhar o Freud – claro que o Freud – somaria dois mais dois).
Quando os espectros de bata branca, indiferentes ao passado que os fundia, lhe perguntaram: Quantos são 16 + 3? e ele respondeu 18, ela só por pudor não fez o pino, a ver se a realidade a seguia nesse movimento rotativo e se repunha. Para poderem os dois escapar dali incólumes. Ela de franja e de soquetes e ele, grande e forte, a levá-la dali pra fora. Pela mão.

Que desespero tão belo. Ou não será desespero, antes a amorosa matemática da finitude.
A “matemática da finitude” às vezes não é nada amorosa, Valupi 🙂
Pois. Daí.
Tocante.
Obrigada, Paulo.
19?
Neste caso é mesmo 18 – noves fora, nada.
Então é mesmo triste.
Bonita e comovente “dedicatória” Teresa.
Bolzano , o seu “Teorema” Freud – a servir tão bem a “essência” do seu texto – na minha humilde interpretação/intuição, claro;))
Gostei muito…
A minha intuição diz-me que intuiu muito bem. Obrigada, Maria.
Sei muito bem o que isso é, Teresa. Comoveste-me e trouxeste-me recordações com este belo texto, penosas mas muito importantes. Uma coisa te digo, se servir de consolo: por muito que nos doa, é bom, mesmo assim, ter ainda um braço ou uma mão para segurar e guiar. Mesmo que o mundo nos pareça ao contrário.
Um beijo
Eu sei, Ana, que pior é mesmo não haver nada para agarrar. É um consolo. Tenho de o repetir todos os dias: que é um consolo, é um consolo, uma porra de um consolo. Beijo também para ti.
Eu sei, nessa fase nada parece ser um consolo. Só um dia mais tarde percebemos isso. Mas a vida é assim mesmo, suponho.
Sei muito bem a que te referes neste belíssimo texto, um dos melhores que tenho lido aqui. Sei por experiência própria como tantas das nossas inabaláveis certezas começam a desamparar-nos quando se invertem os papéis a que nos habituámos desde a nossa primeira madrugada no mundo.
Um beijinho, Teresa.
Obrigada, Pedro. Desamparo é a palavra certa.
Belíssimo texto, subscrevo. Agreste como a revolta que o tempo e a troca de papéis nos reserva. Não é que seja surpresa, mas é uma experiência nova, e justamente por isso ninguém pode antecipá-la.
Por mais que nos digam, é nos soquetes que está a boa ordem da vida :-). E sofre-se muito, moídas que ficamos entre a súbita carência desse modelo ameaçado e a enérgica eficiência tutelar das nossas meias de vidro…
Quando o momento chega, é sempre prematuro. 🙁
Pois, Chloé, impossível não sentir esta inversão de papéis como algo que é contranatura. E afinal não passa de um processo banal. Cruel e injusto como tantas outras banalidades que fazem parte da vida.