Miguel Esteves Cardoso é um dos melhores cronistas portugueses – um dos últimos resistentes da coluna vertebral em letra impressa, dotada de um imaginário muito próprio e de uma sintaxe inconfundível. Cada um dos seus textos contrasta em absoluto com a tendência, cada vez mais generalizada nos nossos periódicos, de divulgar opiniões que funcionam como ecos de outras vozes, em reprodução mecânica das agendas mediáticas, incapazes de transcender a espuma dos dias.
Reparem na crónica do Público que transcrevo acima: é o exemplo perfeito de um texto que só podia ter saído da pena dele. Ensina sem ser didáctico, faz-nos divagar, desperta-nos um sorriso, sabe interpelar-nos, consegue de súbito comover-nos com uma frase irrepetível. Mantém o gosto de contar uma história e, através dela, estabelece teias de discreta cumplicidade com quem o lê – sem sombra de presunção ou solenidade. Escreve com o assombro de quem se sabe tocado pelo dom da escrita e não se considerasse inteiramente digno desse dom. Escreve como se cada crónica dele fosse sempre a primeira. Ou a última.
Ao lê-lo, subimos um degrau. Ou dois. Quase sem nos apercebermos, como se fosse a coisa mais natural do mundo, damos por nós situados num patamar superior. E é também por isso que vamos ao encontro do milésimo texto dele com a certeza antecipada de que nos surpreenderá. Como se nunca o tivéssemos lido antes ou não conhecêssemos o seu nome de lugar algum.
(via Pedro Rolo Duarte)


Sou, também, amante da escrita a caneta de tinta permanente. Possuo várias, de diferentes marcas e modelos; algumas delas, com mais idade que eu.
Mas nunca desmanchei nenhuma, apesar de algumas estarem a precisar da “limpeza” que o MEC ensina a fazer. Creio que não me irei aventurar proceder à operação. Não me preocupa o facto de ficar com uma mancha negra nos lábios, mas sim, não conseguir que voltem a escrever.
Tudo menos isso, Bartolomeu.
Esta, e para além de todas as outras, está fabulosa. Pela forma como nos transporta para um final tão inesperado como extraordinário. Sim, só podia ser do Migues Esteves Cardoso. 🙂
Verdadeiramente inconfundível, Carla.