Laurence Sterne: A Sentimental Journey through France and Italy

A Sentimental Journey through France and Italy não é totalmente indigno de The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, a obra-prima de Sterne, mas termina com a abrupta incompletude da frase
“So that when I stretch’d out my hand I caught hold of the fille de chambre’s”
e logo a meio de um episódio empolgante: aquele em que o protagonista e narrador, Yorick (“Ahá!”, ejacula o multíscio leitor, “Shakespeare!”), discutindo com uma jovem dama de pudicas exigências com quem se vira constrangido a partilhar o quarto de estalagem, deita a mão a uma coisa – qualquer coisa, jamais saberemos o quê. Eu antes queria que Sterne tivesse acabado o livro e este me tivesse sido lido ao serão por, sei lá, olhe, por Vítor Gaspar (o leitor assim mais caviloso já percebeu que eu só escrevi isso porque não existe o mínimo risco de acontecer).
Acho que não posso sequer dizer que tenha terminado o livro. Deixarei um espacinho extra na estante de forma a acomodar o que falta de lombada mas preservando a ideia de lacuna existencial, como o leitor entrando no cafezito parisiense de Sartre e conspicuando a ausência daquele com quem se queria encontrar. Esse estreito vão falará volumes. De cada vez que eu ali poisar os olhos, sentirei comoção e meditarei sobre as circunstâncias que cruelmente determinam a condição humana, após o que irei almoçar, jantar ou cear, dependendo da hora e do século em que calhar encontrar-me, já que no de Sterne a gente jantava mais ou menos à hora do almoço.
Conheço outros exemplos de obras que não chegam ao fim, desde a 16ª sátira que Juvenal inconseguiu (ou cujo final, admitamo-lo, se perdeu) ao desfibrilado O Castelo, de Kafka; mas essas sempre terminam com frases completas. Espere, espere, assim de repente vem-me à memória outro caso de um volume que termina a meio de uma frase. Falo de Finnegans Wake – reparou que lhe chamei “volume” e não “livro”? A isso dá-se o nome de “prudência” –, de James Joyce, cujas últimas palavras são:
“A way a lone a last a loved a long the”
Em boa verdade não posso dizer com segurança se termina ou não, porque parece dar uma longa volta até à primeira frase do texto, a cuja, muito convenientemente, começa a meio:
“riverrun, past Eve and Adam’s from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodious vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.”
Reparou que eu não disse praticamente nada sobre A Sentimental Journey? Não tenho desculpa. Sterne tem: morreu. Ele bem queria ter chegado a escrever qualquer coisa sobre Itália, mas não deu.

Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, e O Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes, também terminam com frases interrompidas.
Grato, Miguel. Vou espreitar.