Tantas teorias já li até hoje sobre jornalismo. E nenhuma delas consegue deslustrar a mais clássica de todas: o jornalista deve escrever de forma clara, concisa e compreensível sobre acontecimentos a que assistiu ou que foram presenciados por testemunhas idóneas. Tudo o resto são variações a esta regra de bronze da profissão que tem sido exemplarmente aplicada por várias gerações de jornalistas.
Lembrei-me disto há dias, ao saber da morte de Tom Wicker, o enviado especial do New York Times a Dallas para cobrir a visita que o presidente John Kennedy ali fez a 22 de Novembro de 1963. Previa-se um serviço de rotina: multidão entusiástica nas ruas e palavras inspiradoras do inquilino da Casa Branca, que já pensava na campanha para a reeleição. Mas um jornalista nunca deve encarar nenhum serviço como rotina: a qualquer momento, em qualquer lugar, a História irrompe em letras de ouro ou letras de sangue. Compete-lhe estar no seu posto, como escritor do primeiro rascunho das enciclopédias e dos compêndios do futuro. Tão perto quanto possível do acontecimento, como ensinou Robert Capa, o mais célebre fotojornalista de todos os tempos. “Se a fotografia não ficou boa é porque não estavas suficientemente próximo”, sublinhava.
Tom Wicker estava no lugar certo, a bordo de um autocarro que integrava a caravana presidencial, quando os três tiros disparados pela carabina de Lee Oswald mataram Kennedy, por volta das 12.30 desse fatídico dia. E o despacho que pouco depois enviou para o New York Times, a partir de uma cabina telefónica do aeroporto de Dallas, destacou-se como uma pequena obra-prima de rigor e concisão.
Eis as primeiras linhas:
Nada de floreados, nada de torrente emocional, nenhuma concessão ao sentimentalismo. O jornalista encheu o seu relato de informação — os substantivos não cediam espaço aos adjectivos nesta prosa clara e tensa, como o disparo de uma objectiva fotográfica. Isto apesar de naquele dia Wicker não ter visto partir apenas o presidente: perdeu também alguém que lhe era muito próximo e com quem conviveu diariamente durante três anos — primeiro como repórter da campanha democrata de 1960, depois como correspondente credenciado na Casa Branca.
Esta peça jornalística viria a ser estudada em cursos da especialidade, contribuindo para a fama de um repórter que tinha como ambição máxima continuar a escrever notícias. E assim foi até se aposentar, em 1991. Faleceu agora, aos 85 anos. Com a convicção, há muito reforçada, de ter sido observador em primeira mão de um momento irrepetível — e de se ter mostrado à altura dele enquanto cronista do imediato. Jornalismo é isto.


Sim Pedro,
O Jornalismo é isto…coisas simples.
pessoalmente substituo dois adjectivos “o jornalista deve escrever de forma clara, rigorosa e imparcial sobre acontecimentos a que assistiu ou que foram presenciados por testemunhas idóneas.”
..coisas simples que tanta falta nos fazem hoje nos dias de hoje, onde nem nas notícias audiovisuais nem nos jornais encontramos essa excelência?…resta-nos a vontade e o querer, de saber e procurar o contraditório, a envolvente, o contexto que explicam a notícia na sua essÊncia.
Um Feliz Natal para Si e para os Seus.
Obrigado pelos seus votos, que retribuo com todo o gosto.
um repórter que tinha como ambição máxima continuar a escrever notícias
Pois, um excelente exemplo para alguns jornalistas de hoje.
De acordo.