Civilização


Luís Naves,

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O sistema dos últimos 40 anos baseou-se na redução do Estado, no consumo desenfreado e na criação de pesadas dívidas. Os accionistas das empresas que cortassem dez mil trabalhadores ganhavam na bolsa e toda a gente achava que era excelente ideia enviar as fábricas para a Ásia. Esta fase do capitalismo não é sustentável do ponto de vista ambiental e criou ressentimentos. A população sente que não ganhou a sua justa fatia da incrível dose de riqueza que beneficiou sobretudo uma estreita hiperclasse. As desigualdades estão na origem da jacquerie de baixa intensidade a que alguns chamam movimento populista. Os problemas da civilização contemporânea vão mais longe: a ordem política está a estilhaçar-se e o ocidente não controla as mudanças; as rupturas tecnológicas são até inquietantes; vamos ter crescimento lento, desemprego, inflação, migrações em massa; o acesso aos recursos será difícil. Há uma corrida aos armamentos e a guerra a que assistimos na Europa não serve apenas para definir na Ucrânia a fronteira entre os blocos, mas é algo de mais complexo, com implicações globais. O mundo está irremediavelmente dividido e as classes médias deixaram de confiar nas suas elites, isso parece evidente.

imagem Night Café

7 comentários em “Civilização”

  1. O mundo está irremediavelmente dividido

    Tal como em 1914, estamos a assistir ao fim de uma época de ouro do liberalismo. As fronteiras fecham-se, a desconfiança a tudo o que vem do outro bloco instalou-se.

  2. as modernas utopias: globalização, multiculturalismo, ideologias, etc.
    faliram e criaram novos conceitos
    as elites estão velhas, desenquadradas da realidade, desacreditadas.
    a classe política caminha para masoquismo irreversível

  3. penso que nunca houve tanta incerteza quanto ao futuro , mas tudo indica que será como descreve. as grandes empresas serão as primeiras em usar a IA para despedir ainda mais pessoal. convinha que refletissem no que a humanidade ganhou com a concentração dos negócios e da propriedade nesses monstros.

  4. Tudo é tratado pela rama; aos termos que definem as grandes opções/ transformações associam-se, não análises, mas emoções.
    O grande sofrimento associado à 1ª revolução industrial consistia em longa jorna de trabalho repetitivo; de sol a sol em trabalho no campo era o ponto de referência.
    Agora que a tecnologia diminui a jorna, o ideal centra-se em ter trabalho repetitivo por todo um percurso de vida, vulgo não precariedade, emprego estável.
    Será preciso esperar que a IA nos defina o futuro?

    1. numa sociedade em que a inserção social está dependente de ter emprego, é mesmo que a IA que vai definir o futuro das pessoas na civilização industrial e tecnológica….semana de 4 ou 3 dias , rendimento mínimo para todos para manter o rebanho mais ou menos tranquilo, são medidas faladas e não é por acaso.

  5. > a jacquerie de baixa intensidade

    > as classes médias deixaram de confiar nas suas elites

    Duas boas observações. Uma terceira: na interdependência tecnológica moderna, o número de indivíduos necessários para uma perturbação significativa é muito pequeno.

    O controlo dos media é cada vez mais crítico.

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