
(Nuno Quadros, Antes que a Gente Morra, Dinalivro, 2023)
Chegado a avô o meu amigo Nuno Quadros sentiu-se assim legitimado a “contar histórias”, as suas. Por isso publicou agora este “Antes que a Gente Morra”, no qual coligiu 30 episódios das suas andanças, como se uma autobiografia. Desde o ocaso do Lourenço Marques colonial até ao Maputo actual – no qual viveu até há poucos meses -, passando por trechos sul-americanos e portugueses, numa escrita escorreita, bem-humorada (mas não humorística), desprovido de trejeitos ensaísticos, analíticos, ou de afãs de manifestos, empenhados ou cáusticos, isento de nostalgias ou azedumes. E assim, através do seu percurso pessoal o Nuno deixa uma ilustração, deliciosa de competente, sobre o final colonial e o processo nacional moçambicano.
Tudo depurado por ter ele sido, logo desde 1974 e assim felizmente se mantendo até agora, alguém que diante das paixões extremas resmunga(va), já nos tempos da “transição”: “Tudo aquilo começava a chatear-me. Preso por ter e não ter cão, carta solta de um baralho de ficos e de frelos, peão no tabuleiro da tempestade perfeita em que voluntariamente me viera meter, optei pela única solução possível. Ignorei as ameaças e assentei arraiais na Catembe, decidido a reflectir sobre o meu fututo em Moçambique, que começou logo na sexta-feira seguinte, quando inaugurámos a nova casa e fizemos um jantar para um grupo de amigos, que descambou em farra…” (55-56).
Dá-nos assim o passar da História – essa que, afinal, e ao contrário do que pensa(va)m os extremados de então e de sempre, não se reduz a militâncias furibundas. E fá-lo muito pela evocação (e invocação) de uma galeria de personalidades a que aderimos, principalmente nós que os conhecemos. Desde a convocatória da memória do seu irmão Rui Quadros, lendário caçador (e sedutor) – idiossincracias que as mentes de hoje diriam “dos tempos” -, à dos grandes fotógrafos Rangel e Kok Nam, de facto também eles próprios figuras que os de hoje também remeteriam para “dos tempos”. E tantos outros, uns entretanto mais celebrizados, outros nem tanto, mas resistindo nas memórias alheias.
Por tudo isto julgo que para quem viveu em Moçambique – e não só, e não só… – será um prazer ler este livro. Pois ele é um verdadeiro convívio… com a vida. E, estou certo, será para muitos um olhar para si próprios, seus percursos e conhecidos. Seja lá onde estes tenham decorrido e sido.
(Constou-me que o livro, publicado pela Dinalivro, está à venda nas grandes cadeias livreiras – Bertrand e FNAC, decerto. Mas também se pode comprar na página da editora. Para a ela aceder bastará “clicar” no título do livro, no topo deste postal).

mesmo sem daquelas a valer umas dólares, os conselhos sobre o livro e o autor “…isento de nostalgias ou azedumes. ……o Nuno deixa uma ilustração, deliciosa de competente, sobre o final colonial e o processo nacional moçambicano.”, chegam.