Cinco meses é muito tempo


Pedro Correia,

Nicolau Santos, Expresso, 16 de Novembro de 2013:

«O anúncio de que a Irlanda vai terminar o seu processo de ajustamento sem pedir a seguir um programa cautelar é negativo para Portugal. Percebe-se a estratégia irlandesa. Com taxas de juro da dúvida pública a dez anos em 3,55% no dia 14, o risco de que o País corre de regressar aos mercados pelo seu pé é bastante reduzido. Só que assim ficamos sem saber como será o tal programa cautelar. Ora as autoridades portuguesas têm seguido a estratégia de Dublin a par e passo, com um desfasamento de seis meses. Foi assim com a emissão de dívida pública a dez anos, seria agora em relação ao programa cautelar. As nossas taxas de juro a dez anos, contudo, estão mais de dois pontos acima do patamar irlandês e não nos permitem um regresso aos mercados sem o amparo do BCE.»

 

Nicolau Santos, Expresso, 18 de Abril de 2014:

«O ajustamento está a correr bem. Na imprensa internacional somos apresentados como um caso de sucesso, que ainda vai surpreender mais. Os investidores acorrem em força aos leilões de títulos de dívida pública a República Portuguesa. As taxas de juro caem de forma sistemática e a dez anos aproximam-se dos 3,5%, patamar no qual a Irlanda optou pela saída limpa do seu programa de ajustamento. Prevêem-se crescimentos moderados para os próximos três anos. Os desequilíbrios externos estão domados, a taxa de desemprego cai e a troika vai deixar o País.»

27 comentários em “Cinco meses é muito tempo”

  1. Não admira que o Circo* não tenha espectadores.

    Mudar de casaca nos jornais é mais rápido.
    E ao Nicolau só falta comprar um malmequer de lapela que esguicham para compor a imagem.

    *-Referência a um post abaixo aqui no Delito.

  2. Com leituras selectivas é fácil, mas é desonesto, Pedro Correia. Podia começar pelo título de dia 18 deste mês. Ou acrescentar isto

    “Basicamente podemos dizer que fomos enganados ou que o primeiro ministro nos tem mentido deliberadamente. O objectivo definido é que, para conseguir aqueles equilíbrios, o governo aposta tudo no esmagamento da procura interna. E isso exige que salários e pensões não só nunca mais voltem aos patamares de antes da crise como se mantenha a brutal carga fiscal sobre os rendimentos. Em síntese, este ajustamento exige e assenta no esmagamento da classe média. “

    1. Com comentários selectivos também não vamos lá .

      Não sou tão infeliz que os alcunhe de desonestos mas digamos que apontam para um razoável défice de informação sobre a situação irlandesa .

      Com os problemas dos outros podemos nós bem , né ?

      PS – Nunca explicam o que é que entendem por “procura interna” e confundem-na com a “despesa interna” , nem sempre de forma ingénua …

      1. Caramba, se fazer aqui duas extensas citações do mesmo autor, atribuindo-lhes local e data, é “desonestidade intelectual” que qualificativos reservará você para alguém que apresenta a Portugal inteiro um ex-presidiário sem formação académica como putativo consultor das Nações Unidas especializado em economia à escala global?

        1. O meu comentário era óbviamente dirigido ao l.rodrigues como se pode depreender da posição na grelha dos comentários .

          Como o comentário do Pedro Correia me é dirigido fiquei baralhado .
          Mas deve-me passar .

          1. Caro RMG, as minhas palavras mais acima eram dirigidas ao LR, como se depreende. Ficaram ligadas às suas porque as suas já estavam antes ligadas às dele.

          2. Meu caro Pedro Correia

            Passou-me depressa como eu previa e graças ao seu permanente cuidado .
            Também percebi que era assim mas achei por bem escrever algo a frisá-lo.

            A razão é muito simples : basta ler alguns comentários que se seguiram ao meu para verificar que alguns comentadores , incluíndo mesmo pessoas que aprecio , fazem leituras da situação actual que considero de tal maneira desfasadas dessa coisa irritante e comezinha que é a “vida de todos os dias das pessoas”(*) , que o meu texto tanto podia caír para um lado como para o outro e ser interpretado segundo as conveniências momentâneas de cada um (isto partindo da presunção que alguém lê o que os outros escrevem) .

            Como já se deu conta tenho muito pouca tendência para as frases grandiloquentes e as declarações de intenção espectaculares por força do meu feitio e da minha vida , do mesmo modo que tenho muito pouca tendência para dizer mal de tudo e criticar todos que é a atitude típica de quem nunca teve que tomar decisões difíceis pessoais ou profissionais .

            Talvez por isso gosto de conhecer as pessoas sempre que possível , ao fim de 15 minutos já confirmei mais uma vez que 9 em cada 10 afinal são “só conversa” .

            Grande abraço

            (*) As “pessoas” – com as suas grandezas e misérias – e não o “povo” , o “povo” só é invocado por quem acha que está acima dele .

        2. Desonesto é pouco. Você truncou uma citação (em que aliás a ironia está bem presente) para fazer crer que Nicolau Santos defende algo que é o oposto da tese que ele desenvolve em seguida e no artigo completo. É a escola JRS, o tal que, diz você, dá “lições de jornalismo”, não é mesmo? Olhe, a pouca consideração que tinha por si esfumou-se agora por completo. Passar bem.

          1. Se fazer aqui duas extensas citações do mesmo autor, atribuindo-lhes local e data, basta para que você diga de mim, com esse ar tão enojado, que “desonesto é pouco”, imagine-se como me qualificaria se eu apresentasse a Portugal inteiro, com ar douto e grave, um ex-presidiário sem formação académica como putativo consultor das Nações Unidas especializado em economia à escala global.

          2. Ah, a falácia do argumentum ad hominem (ir ver o que é). Caramba, meu caro, não esperava algo tão primário da sua parte mas, talvez que o meu «ar (…) enjoado» lhe tenha causado uma vertigem cibernáutica, que você se tenha disposto a carpir toda a bílis possível para com uma pessoa que, no final de contas, é suposto ser seu colega de profissão; será inveja, ódio, o que é?…

  3. Em tempos, não longínquos, Nicolau Santos divulgou ao país um “economista, conselheiro da ONU” e, na apresentação, lamentou que o “Governo não houve este reputado especialista”.
    O problema não é o Governo não ouvir o economista. O problema é termos que ler Nicolau Santos.

      1. Meu caro Pedro.
        Se, nos últimos tempos, fizermos o “Deve” e o “Haver” dos escritos de NS, é provável que encontremos o lado para que tomba a balança. No entanto, o curioso das opiniões de NS, são as oscilações da “bússola” dos interesse da empresa.

  4. Vai já uns posts muito atrás tracei o cenário para o desenvolvimento desta pantominice, que resumo em breves pontos:

    1 – A troika mais a troika portuguesa (PSD-CDS-PS de Sócrates) iriam comprimir a economia a níveis abaixo dos países subdesenvolvidos, e depois deste período notar-se-ia uma ligeira “melhoria” com um rasto de miséria que os miseráveis que nos governam, habituados a fazer e enaltecer favelas, dariam pulos de alegria (aliás, esta ideia de sociedade é o modelo em que foram criados. E ninguém pode exigir que alguém dê o que não tem para dar);

    2 – Na realidade este desgoverno acaba por enaltecer a atitude do Tribunal Constitucional que na sua decisão de chumbar cortes contribuiu para o aumento do consumo interno e assim “alavancou” a economia;

    3 – Resulta do anteriormente exposto que a economia mexeu um pouco não por medidas (des)governamentais mas por actos juridico-administrativos.

    Mas neste regabobe miserável e não satisfeitos com a miséria semeada dizem preocupar-se com o desemprego que vão “criando” em seus êxtases psicadélicos, e neste mesmos êxtases justificam as descidas de inscritos nos centritos de desemprego, e lá arranjam maneira para em vez de negociarem as verbas canalizadas para a pseudo-formação oferecida nos centritos de desempregozito, no sentido de minorar o impacto da miséria que foram criando e da fome que vão causando em bom regime de fazedores de favelas, estourarem com milhões e milhões de euritos que provavelmente justificam com criação de emprego precário de alguns formadores e sem consequências práticas para a formação da nação (sim, voltei ao tema, sou teimoso).

    No estouro desta crise, onde ouvi e ouvi bem as declarações e as posições de grandes e iluminados patrões, economeses de altíssimo gabarito, endeusados banqueiros, servis para-banqueiros e etc e tal, cheguei mesmo a escrever que eles acabariam por beber o veneno que cuspiam; e eis que a profecia se materializa.

    Mas o surpreendente em torno desta campanhazita que agora se faz em torno das europeias é que lá vou ouvindo Rangel, lá para o lado das ilhas, a dizer que Passos Coelho corajosamente enfrentou Merkel na questão da união bancária. Pasma a minha alma que afinal constata que o argumento elevado para conquistar eleitores para tão elevada prole é falar como se inimigos fossem desta senhorita a quem eles serviram como mordomos.

    Por último, serve tudo isto para dizer que se de toda esta pantominice não se tirar lições para que nos levantemos todos os dias pela manhã e ao olharmos para a nossa imagem ao espelho consigamos nutrir algum respeito por aquilo que vemos, então mais vale continuar a ajudar os fabricantes de favelas.
    E se esta mesma pantominice não nos ajudar a ser um povo de carácter e verticalidade nas nossas relações laborais e profissionais, nas comunidades de vizinhos, no meio familiar e em tudo quanto vise promover a dignidade de todos e cada um então não vale a pena existir como nação e aceitemos que nos promovam ao estatuto de errantes, aquilo que nos tem sido oferecido. Com isto quero dizer que o que temos é reflexo de muito do que somos e muitas vezes do que desejariamos ser.

    1. Tudo isto para dizer que é sempre bom viver com 10% de défice e que nunca o precisemos de pagar.
      Do que fica escrito a implicação de termos 5% de défice parece que não tem consequências. Nem o facto de o crescimento ser inferior ao défice.

      1. E para abater o défice vamos continuar a incorporar fundos de pensões no estado, neste caso serão os fundos de saúde do CTT na ADSE. O ano passado foi o valor da concessão da ANA.
        Bem, já que está tão preocupadp com a despesa o melhor é começar a fazer campanha contra esta integração. Afinal serão despesas postecipadas. No entanto os critérios contabílisticos parecem mudar em Setembro e não permitirão abater esse valor ao défice.

        Mas não conseguiu responder ao meu argumento. Foi ou não foi bom o chumbo dos cortes no constitucional? Permitiram ou não permitiram que a economia mechesse?

        E continua a falar contra si: se a economia cresce abaixo do défice e do valor dos juros mais uma razão para renegociar a dívida e não carregar nos cortes e nos impostos. É algo que qualquer pessoa compreende, sabendo-se que não existiu nunca nenhuma economia deficitária que fosse capaz de sobreviver sem investimento público e endividamento. Se conhecer alguma, apresente argumentos.

        Quanto ao pagar, está visto que os credores receberão sempre essa importância emprestada através dos juros. A dívida, que não será paga, está aí para garantir a renda futura.
        Ou o lucky é ingénuo ou quer fazer das pessoas burras.

        Quanto ao défice, meu caro, já me referi a ele noutros posts. E isto de andar a movimentar o alvo para que a seta pareça acertar é uma especialidade dos criteriosos compressores da despesa, mas que só revelam que é através da receita de impostos e das receitas sociais que lá vão conseguindo mascarar uma falsa vitória.

        1. “Continuo a falar contra mim?”

          Não , você continua a confundir as coisas. Deve achar que defendo este Governo.
          Este Governo só tem uma coisa boa, pelo menos está em contacto com um minímo de realidade.
          O resto são lunáticos, populistas que estariam bem numa qualquer republica das bananas.
          Este Governo por isso é só o mais socialista que Portugal já teve nos últimos 30 anos.
          Pois faz os portgueses pagar por esse socialismo, ou você julga que socialismo é défice e consequente endividamento?

          “Mas não conseguiu responder ao meu argumento. Foi ou não foi bom o chumbo dos cortes no constitucional? Permitiram ou não permitiram que a economia mechesse?”

          Não foi bom por razões morais e por razões económicas.
          E pelos vistos a realidade do passado recente não lhe ensina coisa alguma. Os 90 mil milhões de euros injectados pelo Governo Sócrates na economia deram quanto de crescimento?

          1. Ó meu caro lucky, a mim pouco me importa a quem você defende. O lucky está no seu direito de ter as ideias que quiser e optar pelo que entender ser-lhe mais benéfico. É você que apresenta suas ideias com balizas, eu limito-me a comentar sobre o que entendo oportuno e ponto final.

            Não me leve a mal o que digo, mas de quando em vez o lucky faz que eu dê umas gargalhadas com seus comentários. Mas quero que compreenda que a gargalhada não tem qualquer intuito de desprezo ou tentativa para ridicularizar seus comentários. O lucky devia mudar de pseudónimo, porque faz-me lembrar em simultâneo aquelas duas figuras da Branca de Neve e dos sete anões: o zangado e o atchim. O lucky passa a vida a reclamar e a mostrar alergias a tudo e todos. Homem, relaxe, relaxe.

            Vamos lá recapitular, não se esqueça que este socialismo já vem do antigo regime, parece-me que o lucky quer inventar uma nova teoria política e não consegue apontar as linhas fundamentais.
            O que eu disse foi que para sairmos da SITUAÇÃO DEFICITÁRIA necessitamos de INVESTIMENTO PÚBLICO E ENDIVIDAMENTO. Certamente a par do investimento privado que até agora não existiu. Venderam-se umas merditas jeitosas e mais nada. E dessas empresas vendidas perdeu-se receita para o estado superior a 7 mil milhões, e eu não contabilizo todas (isto é um cálculo aproximado). E depois disso, ou ao mesmo tempo, incorporaram fundos de pensões e criaram ainda mais despesa para o estado (todos nós).

            Se o lucky tiver uma empresa ou um património que lhe é rentável e for vendê-lo(a) o lucky não só perde o rendimento que daí tira como também o património. Se entende ser um bom negócio, faça-o, mas faça-o por sua conta. O que estes tipos andam a fazer é alienar o que não lhes pertence, convencidos que são donos do mundo. Estes tipos em nada são diferentes de Sócrates, eles só mostram que são capaz de fazer pior. E fazem-no. Eu gostava de os poder aplaudir, porque seria sinal que as políticas estavam a resultar. Mas não, eles aldrabam, aldrabam, aldrabam e aproveitam-se de conjunturas que lhes escapa para afirmar que é graças a eles que isto está a melhorar. E eu não tolero petulantes, soberbos e gente falsa.
            A DESPESA não baixou, baixou o DÉFICE por viA das receitas.

            Quanto ao resto, meu caro, eu terei muito gosto em dialogar consigo mas com bases sólidas e palpáveis. Se me fala em questões morais e económicas tem de me dizer quais são essas questões, porque assim parece ser um tiro que dá no escuro para ver se acerta em alguma coisa.

            Meu caro, os investimentos devem ser feitos em áreas específicas. Sócrates não fez investimento: estourou dinheiro. E COMO ELE todos os anteriores, mas eles estavam obrigados a agir assim por força das políticas europeias. Investir é originar rendimento e não despesa. E eu não me vou alongar mais para descrever as especificidades da economia portuguesa e da promiscuidade em torno desta falsa economia que existiu desde os tempos dos reis para beneficiar famílias à conta de uma nação, incluindo os republicanos. E quando falo sobre isto eu não quero que pense que estou a perseguir pessoas, estou somente a dizer que estes só tiveram mérito fruto de uma política promíscua consentida por governantes abusadores e pouco respeitadores. E só espero que todos eles sejam suficientemente humildes para baixar a crista e beijarem as mãos a quem lhes tem dado o pão (todos nós) com suor e miséria.

  5. Se reparar bem os artigos não se contradizem. A realidade cinco meses depois não é a esperada e o discurso muda.
    Estranho seria se o autor mantivesse o discurso sobre a saída após a queda das taxas de juro.
    Também não é honesto dizer que ele devia ter antecipado a queda nas taxas, os especialistas ainda andam a discutir porque é que estas baixaram.
    Analisar parágrafos isolados de artigos também leva a análises enviesadas, do seu post quase que se concluí que o Nicolau Santos agora apoia a política económica do governo.

    1. Pois, os artigos “não se contradizem”: a realidade é que mudou imenso em cinco meses.
      Razão tinha aquele cavalheiro dos futebóis: o que hoje é verdade amanhã é mentira.
      Apesar de a realidade ser tão volátil, a um especialista em economia, julgo eu, exige-se que saiba captar os sinais e antecipar tendências antes do cidadão comum. Caso contrário não é especialista. Qualquer um acerta no totobola à segunda-feira.
      Facto: um especialista em economia, que não escreve sobre mais nada, garantia há cinco meses que Portugal não conseguiria acompanhar a Irlanda na chamada “saída limpa” porque tínhamos então uma taxa de juro a dez anos dois pontos acima da irlandesa. A realidade encarregou-se de desmentir essa tese, como é agora forçado a reconhecer.
      Se “não é honesto” dizer que o especialista devia ter antecipado a queda nas taxas, o que não diria você se eu apresentasse a Portugal inteiro um ex-presidiário sem formação académica como putativo consultor das Nações Unidas especializado em economia à escala global e o entrevistasse em directo na televisão…
      Talvez me chamasse honesto.

      1. Se os economistas soubessem prever teriam de ser emitidos mandatos de captura em nome da malta da “troika” e do memorando, sem esquecer os nossos ministros.
        Falharam todas as previsões: desemprego, montante da dívida, crescimento, défice, etc…
        No entanto continuam a ser consideradas sumidades no seu campo e a dizer que agora é que estão certos, agora é que vai ser.
        Preocupam-me muito mais as idiotices que os nossos governantes têm dito do que as dum comentador.

          1. em 5 meses muita mudança pode acontecer … No tempo de Sócrates o mundo mudava em 15 dias … há é que acompanhá-lo, como vento que passa …

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *