Chutado borda fora


Sérgio de Almeida Correia,

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Quando há menos de um ano foi apontado como Chairman do Credit Suisse Group, poucos imaginariam que o percurso profissional de António Horta-Osório seria quebrado de uma forma que tem tanto de abrupta como de humilhante. Pelo que aconteceu, mas também pela repercussão internacional da sua saída (New York Times, WSJ, BBC, Reuters, Bloomberg…).

O banqueiro é um dos raros portugueses cujo trabalho, empenho e competência o projectaram para o topo da sua área profissional a nível mundial, o que lhe valeu múltiplos encómios, dentro e fora de casa. A relação dos prémios e condecorações que lhe foram conferidas é por isso mesmo impressionante, e até a honra de ter sido feito Cavaleiro da Ordem do Império Britânico, passando a ostentar o título de “Sir”, lhe foi outorgada pela Rainha Isabel II.

Tal só se compreende, ademais, porque os serviços prestados à sociedade foram de um nível de excepção e só ao alcance de muito poucos, sendo certo que o seu grau de exigência, cometimento para com a obtenção de resultados e sentido do dever o impulsionaram para tal.

Naturalmente que tudo isso foi obtido, para além do seu próprio esforço e aptidões, com o contributo de todos os outros que compuseram as suas equipas e o ajudaram a atingir tão elevado patamar. 

Tudo isso torna ainda mais incompreensível a forma como se deixou apanhar em pecadilhos, ou talvez sejam mais do que isso, que aqui e ali foram manchando o seu percurso, a sua credibilidade e a sua reputação. O que de bem, excelente e extraordinário por si foi conseguido, todavia, continuará registado.

Não obstante a sua actual dupla nacionalidade, é e foi o facto de ter saído de um país pequeno, remediado e periférico, e que por isso mesmo teve de enfrentar barreiras e preconceitos que pouparam muitos dos seus pares, que mais motivou a atenção dos outros e deu luz ao seu êxito.

Compreende-se por isso que quem tivesse lido a edição de ontem, 18 de Janeiro, do Financial Times não poderia deixar de ficar impressionado com o espaço que foi dado a Horta-Osório e à sua saída do Credit Suisse.

Com fotografia e chamada à primeira página, depois com uma coluna na página 5 (Horta Osório quits C Suisse over Covid rule breach, de Owen Walker), mais dois terços da página sete, ocupando toda a parte superior (“Torquemada”of Credit Suisse makes his fate, de Owen Walker e Stephen Morris), a que se juntam um artigo de opinião de Brooke Masters, na página 17 (Horta-Osório’s departure is the revenge of revenge of the rank and file), e uma nota na página 18, na secção Lex (C Suisse/Horta-Osório:Wimbledon test fail), a demissão do banqueiro tinha tudo para não passar despercebida.

Algumas das frases que se podem respigar da leitura dos textos que referi não deixam margem para dúvida sobre os erros que lhe são apontados, agravados pela forma como escolheu comportar-se aos olhos de terceiros – “Horta-Osório was known as Torquemada — after the Castilian friar who led the Spanish Inquisition — for the zeal with which he held people to account.”; “(…) he was imperious and self-satisfied, particularly after he was knighted over the summer for his work at Lloyds. Many at the bank were heartily sick of him even before the Covid revelations.”; “He is leaving his mark — in exactly the wrong way.”.

E tudo para quê? Para acabar pedindo desculpa, uma vez mais, saindo pela porta pequena, acusado de desrespeitar regras básicas, desvalorizando condutas próprias que a outros exigia, esquecendo-se de quem era e do que representava, deslustrando a confiança por tantos depositada e o respeito conquistado ao longo dos anos.

Se Horta-Osório fosse um bandalho ou um criminoso sem escrúpulos, como se revelaram alguns dos seus pares e muitos dos que nos governaram e governam, ou um tipo desprovido de educação, ética ou valores; se fosse alguém que não tivesse alcançado com mérito tudo o que obteve; que necessitasse de algo que impreterivelmente lhe fizesse falta, ou se padecesse de alguma tara, ainda poderia, embora com dificuldade, compreender certos comportamentos. Mas não foi o caso.

E é isso que a mim, simples mortal, que diariamente prossigo um combate cada vez mais solitário pela valorização pessoal, pela crença no outro, pela integridade, pela decência, pelo direito de todos ao mérito e ao sol, mais confusão me faz.

Saber o que pode levar um homem com a inteligência, o brilho e o estatuto de Horta-Osório a falhar tão clamorosamente, em questões tão corriqueiras e que se teriam por adquiridas para qualquer cidadão, dando cabo de um passado notável no intervalo entre o riscar de um fósforo e o eclodir da chama, será sempre para mim motivo de reflexão e permanente interrogação.

24 comentários em “Chutado borda fora”

  1. Não é tão líquido assim. Teve pecadilhos é certo, (Covid e outros que não são para aqui chamados), mas parece-me que foi tramado, não por isso, mas por querer limpar o Credit Suisse, de imbróglio e de mal feitos em que se enredou e que na reestruturação e limpeza que estava a fazer, atingiram “Velhos do Restelo”, que se julgam intocáveis e que agora se vingarem com os deslizes extra-bancários do Sir e nosso compatriota.

  2. A mim parece-me ridículo, para não dizer inacreditável, que um banco despida o seu chefe (ou o force a despedir-se) por causa de regras Covid. Que diabo, o banco deve preocupar-se somente e acima de tudo com o seu dinheirinho, não com regras pandémicas!
    Portanto a minha ideia é que ele foi despedido, basicamente, por outros motivos. As regras Covid foram sobretudo a “desculpa” que o banco apresentou à sociedade para o despedir.
    Como se diz no artigo citado, Horta-Osório seria malquerido pelos seus subordinados por ser demasiadamente rigoroso e exigente. Talvez por isso eles tenham conspirado para o pôr fora.

  3. Portanto o homem era um crâneo na sua área, um orgulho para a plebe ignara tuga, um ser a quem deveríamos prestar vassalagem, um D. Sebastião das Finanças de um hipotético governo à direita mas, como desrespeitou umas regras sanitárias, lá teve de pedir desculpa e é agora um candidato a proscrito social.

    Há muito que não via a bipolaridade em todo o seu esplendor.

  4. Deve ser qualquer coisa no “animus” lusitano.
    De bestial a besta à distância de um clickbait.
    É um pouco off-topic, e por isso peço desculpa, mas fico abismado com o contraste entre o debate de ontem e a fraca qualidade da argumentação produzida – que tantas vezes só traz descrédito a coisas sérias.
    Por contraste aos lunáticos, acreditem ou não, observem as credenciais e a argumentação produzida pelo senhor que se segue:
    “Prof. Perronne at Luxembourg Parliament Hearing on Vaccinating Children”
    https://www.bitchute.com/video/zdCK75I5ujtR/
    Deviamos nós ter gente assim.

  5. Se “fosse um bandalho ou um criminoso sem escrúpulos […] ainda poderia […] compreender”. Mas como “alcanç[ou] com mérito tudo o que obteve”, com notáveis “trabalho, empenho e competência” e “serviços prestados à sociedade […] de um nível de excepção”, já é “incompreensível ” … ir a Wimbledon ver um jogo de ténis e outros pecados mortais do género.

    Um tratado.

  6. “Saber o que pode levar um homem com a inteligência, o brilho e o estatuto de Horta-Osório a falhar tão clamorosamente, em questões tão corriqueiras e que se teriam por adquiridas para qualquer cidadão, dando cabo de um passado notável no intervalo entre o riscar de um fósforo e o eclodir da chama, será sempre para mim motivo de reflexão e permanente interrogação.”
    A quantos dos “grandes gestores” já foram dedicadas frases dste tipo: Bava, Salgado, Mexia, etc. Espero que este ao menos não acabe preso.
    Há um padrão neste colocar nos pícaros os grandes das finanças. Passam de bestial a besta rapidamente quando as correlações de forças se alteram.

  7. Isto é o exemplo típico do tuga chungoso que, mal atinge uma posição de poder ou de prestígio, trata logo de começar a maltratar os mais fracos e indefesos (desde que não sejam em número superior a um…), convencido que é muito valente e superior.
    Deu-se mal porque não estava em Portugal (rima e é verdade), porque senão seria ovacionado de pé.
    BEM FEITA!

  8. Esta questão tão badalada sobre o seu afastamento, e sobre a quebra das regras básicas do covid 19, em minha opinião, nada tem a ver com essa situação, aquilo que não se vislumbra, que está por detrás das cortinas, prende-se com questões internas do banco que não podem, ou não devem ser reveladas, isso sim, e esta foi a explicação encontrada muito pouco credível para uma boa parte das pessoas que tem acompanhado a sua carreira de sucesso.

  9. Há pouco de Covid e muito de banquismo (e nacionalismo) por de trás do gesto que H-O achou por bem tomar. Não tenham pena pois o homem é crescidinho e sabe muito bem o que faz.
    No futebol, ao menos, esperam-se pelos resultados para avaliar o treinador….
    Não terá saído com as mãos a abanar. Como qualquer outro bom “Mister” não lhe vão faltar bons clubes para escolher e novas taças a ganhar. Boa sorte.

  10. O SAC em sua posta peca de forma grave ao pretender juntar-se às vozes da idolatria.

    O caso ou descaso em apreço só revela que um simples, malicioso e mal engendrado puritanismo sanitário foi o suficiente para mostrar a inutilidade de alguém que só foi útil para limpar situações que outros não seriam capaz ou não queriam envolver-se. Assim, como o valor de alguém parece depender de valores que outros lhe atribuem, o valor de hoje será o desvalor de amanhã. O cavaleiro de hoje será cavalo amanhã.

    Salomão no livro do Eclesiastes inicia com esta afirmação: “… vaidade de vaidades! Tudo é vaidade,” (v.2)
    Neste contexto a palavra vaidade significa inutilidade.

    No livro citado também é utilizada a frase “debaixo do sol”, para indicar o que é limitado pelo tempo e que não perdura.

  11. O sucesso traz a inveja e esta traz a maledicência. Não cumprir as regras do covid só mostra que ouviu os investigadores, em vários casos com prémios Nobel, experientes em epidemias e que não se guia pela cabeça dos políticos. O que é mais uma prova da sua inteligência. Quanto ao resto, é pouco para justificar o afastamento de quem já deu as provas que ele deu. Onde há grandes interesses, querem-se “yesmen”.

  12. Sempre me fez confusão chamar banqueiro a um empregado bancário, neste caso um quadro dirigente. Então banqueiro não é aquele que é dono de um banco ou um dos seus principais accionistas? Ou então o Horta-Osório para ser banqueiro teria de ser acionista do Credit Suisse , por isso como é que podia ser despedido (despido?) ?
    Ser administrador de um banco sem ser grande accionista do mesmo, provavelmente ou de certeza, passará a ter (oferta)uma carteira de acções sem nunca chegar para evitar ser (despido?) despedido.

  13. Ja há bastantes meses que as más linguas rezam que este banco está com “serios problemas”. Como infelizmente não tenho fortuna lá escondida, pouco ou nada me importa o que por lá se passa e muito menos com a vida de terceiros como a desta pessoa. Não deixa de ser patético a quantidade de gente que corre a destilar invejas travestidas de alguém que deve conhecer tão bem como o papa.

  14. Conforme o ditado diz e bem, “quanto mais se soube, pior é a queda”, a sabedoria popular nunca se engana!

    Mas o que me fez perder tempo a escrever este comentário, é a tristeza com que vejo a mentalidade tuga em todo o seu esplendor, nos vários comentários aqui feitos, resumindo quase todos eles a que, HO era o D. Sebastião das Finanças, o super-sumo, o super-herói, o maior de todos e de tudo, e que chega e resolve todos e quaisquer problemas, será que a nossa mentalidade triste e incompreensível, nunca mais vai mudar? Lamentavelmente, penso que não…

    Não há super-heróis, não há super-sumos, há pessoas que poderão ser 1 pouco mais perspicazes do que outras, mas eu, não acredito nestes “seres heróicos”, porque heróis, somos todos nós, e é por estas e por outras, que o país, e continua, nunca irá sair da cepa torta, porque continuamos a achar certas pessoas como “misters”, quando na realidade, são iguais a nós, e basta ver o que aconteceu a HO, que terá ou não se esquivado aos procedimentos da COVID-19, para se perceber que e afinal, ele não é nenhum super-sumo, mas continuem assim, que mais tarde se vão arrepender, pode ser que a desilusão grande que possam ter, vos limpe de vez a vossa mentalidade de pensarem que há super-heróis no nosso país, mas que e afinal, são iguais a nós todos!

  15. Deixo-lhe 2 pistas e uma questão sobre este caso;
    Pista 1 – Não foi erro foi uma forma de sair sem dar outras explicações.
    Pista 2 – Não sendo erro, das duas uma ou a situação no CS é muito grave e não tem resolução ou, para resolver, seria preciso (ao contrário do que foi feito nos outros bancos, em que bastou reduzir despesa via despedimentos e acordos de saída de funcionário) fazer rolar cabeças importantes no meio financeiro e ou político suíço.
    Questão-Tendo as escapadelas acontecido em países (normalmente idolatrados pelos portugueses como extremamente cumpridores e zeladores das regras) como foi possível o cidadão Horta Osório viajar quando deveria estar em isolamento. O que não se diria por cá se tivesso acontecido no nosso país.

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