O PCP podia ter escolhido Manuel Carvalho da Silva como candidato à Presidência da República: nada melhor do que o secretário-geral da CGTP para representar um partido que se proclama “dos trabalhadores” na corrida a Belém. Mas dir-se-á: Carvalho da Silva – militante de base do PCP – é demasiado heterodoxo.
Também podia ter escolhido Mário Nogueira: poucas personalidades, nos últimos anos, estiveram tão em foco como ele no combate político ao Governo socialista. O secretário-geral da Fenprof, militante comunista de pergaminhos firmados, chegou a ser mandatário da candidatura presidencial de Jerónimo de Sousa. Mas dir-se-á: Mário Nogueira tem uma personalidade demasiado vincada num partido que privilegia o “colectivo”.
Também podia ter escolhido Ilda Figueiredo, que já foi representante comunista na Assembleia da República e hoje lidera a bancada do PCP no Parlamento Europeu, onde é uma das deputadas com melhor folha de serviço – além de uma ortodoxia acima de qualquer suspeita. Mas dir-se-á: Ilda Figueiredo é mulher e o PCP continua um partido misógino.
Também podia ter escolhido Bernardino Soares, presidente do grupo parlamentar do PCP em São Bento. É, pelo menos, um dos dirigentes comunistas mais conhecidos – e pela sua idade poderia atrair alguns eleitores jovens. Mas dir-se-á: Bernardino Soares peca precisamente por ser jovem num partido cheio de eleitores envelhecidos.
Escolheu-se portanto aquele que menos ameaça perturbar a tranquila caminhada de Cavaco Silva rumo a um segundo mandato em Belém: o “camarada Chico Lopes” , como anunciou o secretário-geral Jerónimo de Sousa. Quem é? Um deputado tão obscuro que integra apenas, como suplente, as comissões parlamentares de Trabalho e de Obras Públicas. Um funcionário puro e duro do partido, incapaz de estabelecer pontes com a sociedade civil, totalmente desconhecido da opinião pública portuguesa. Um homem que não aparece, que não dá entrevistas, que não intervém fora do bunker da Soeiro Pereira Gomes. E que hoje mesmo leu umas palavras decalcadas do comunicado do Comité Central, sem autorizar qualquer pergunta dos jornalistas, como se noticia aqui.
Ter “Chico” Lopes como rival é uma excelente notícia para o actual Presidente da República. O PCP, após meses de “reflexão”, encontrou enfim o seu Defensor Moura: alguém totalmente irrelevante. Na prática, esta escolha constitui um brinde a Cavaco. Suponho que a esta hora Jerónimo de Sousa já terá recebido um telefonema de agradecimento de Belém. Não merece menos que isso.


Pedro, é tudo tão aflitivamente denunciado que é uma tristeza…
Denunciado mesmo, Ariel. Há uns dias percebeu-se que seria ele o “eleito” quando surgiu em lugar de destaque ao lado do secretário-geral no funeral do Dias Lourenço. Ao jeito do que sucedia no Kremlin soviético. Uma tristeza.
Na verdade, esta é uma jogada de mestre do PCP. Porque toda a gente conhece o Chico, e gosta do Chico. Claro que não é o Chico em causa, mas tal não interessa para nada.
Em minha casa, no fim do Telejornal, já todos comentávamos que o Chico ia a votos e queria ser presidente. Maior eficácia de marketing é impossível.
Isto parece um remake, com um ligeiro twist, daquele filme com o Eddie Murphy, The Distinguished Gentleman: “Vote for Jeff Johnson, the name you know”.
E agora voltou-me à memória esse divertido filme. Bela analogia!
(nunca tinha ouvido falar do “Chico”; pensei que talvez o mal fosse mesmo meu, que sou distraído, mas talvez não seja…)
Boa comparação.
Ai que medo!
Brrrrrrrrrrrrrr…
Ó Chico… Chico… Chico…
Ta-tão… Ta-tão… Ta-tão…
Então o Chico não era famoso?!
Sabe que lembrei-me exactamente do mesmo?
— Ó Chico!… Chico!…
Eheh…
Quem será a Tatão deste Chico?
«Chico» Lopes é tipo «Bill» Clinton.
Tal e qual. E “tipo” Jimmy Carter e Tony Blair também. Tudo muito próximo do povo.