Cinco anos depois da primeira vitória eleitoral de José Sócrates, o PS volta a ter oposição.
O novo líder do PSD, saído das directas do passado dia 26, Pedro Passos Coelho, é o homem por quem muita gente aguardava. E não apenas dentro do seu próprio partido.
Agora, finalmente, o primeiro-ministro vai voltar a ter alguém com quem se confrontar, alguém que dispensa o histerismo fácil, o dichote fulminante, e que cultiva uma certa pose de estadista. Aquilo que servia para Menezes, Ferreira Leite ou Rangel não serve para Coelho. A receita vai ter de ser outra e o PS só tem a ganhar com a vitória de Passos Coelho já que isso o vai obrigar a reformular um discurso que começava a dar evidentes sinais de esclerosamento e pela necessidade de introduzir alguma inteligência e moderação na vida política. Impõe-se o regresso de alguma sensatez ao Parlamento.
Da verdadeira consistência dos argumentos de Coelho e da sua gente – um melting pot onde se encontram os melhores e os medíocres, lugar de alegre convívio entre o centralismo mais arreigado e o pior do regionalismo -, começaremos a ter notícia dentro de alguns dias, quando aquele apresentar no próximo congresso do seu partido as linhas com que irá marcar o caminho que quer trilhar.
À sua esquerda, há também quem prossiga uma cruzada em defesa do regime e da qualidade da nossa democracia. Cada dia que passa mostra que ele é um seguro do PS e do país. Não é, pois, de admirar, que tenha ido ao Clube de Política de Quarteira, pela mão do Miguel Freitas e da Jamila Madeira, alertar para o perigo dos partidos continuarem a não privilegiar as ideias e as propostas, transformando-se em meros exércitos eleitorais. Nada de mais oportuno, certeiro e clarividente quando o PSD profundo se prepara de novo para se transformar num exército eleitoral, e uma boa parte do PS, irrealisticamente, se prepara para ir na onda. Como se fosse por via das eleições que se afastassem as más políticas e a má moeda. Exemplos recentes mostram bem que não é assim.
A má moeda está arreigada. Tende a fixar-se nos partidos e nas instituições. E quando corre o risco de descolar, porque sabe que não pode sobreviver longe da rocha, como um fóssil, fixa-se ainda com mais brutalidade, move influências, conspira e lança a confusão, o boato, o rumor.
Para já, Passos Coelho desfez o tabu das presidenciais. O tempo e a situação económica correm a seu favor. E enquanto ele põe ordem na capoeira e varre as penas que ficaram a esvoaçar desde a última contenda interna, seria bom que José Sócrates e o PS aproveitassem este início titubeante da Primavera para prepararem os dias mais solarengos que hão-de chegar. Com a água que tem caído, e passado por baixo e por cima das pontes, não há razão para termos um Verão seco e triste.
Fundamental é que haja alguém que comece já a limpar a lama e os detritos acumulados com as enxurradas dos últimos meses. Não há nada como um partido com ideias e gente nova, limpo e de cara lavada perante o país e os seus eleitores antes de umas eleições presidenciais.

Dois partidos fortes é necessário.
A maior parte dos votantes em Portugal está no centro e centro-esquerda. Se é necessário haver alternância, então o PSD deve reconstruir a narrativa e deslizar suavemente da Escola de Chicago para Krugman .
O PSD, no seu impulso de se distinguir do PS, não pode referir-se ao Estado de forma sobranceira como se a evolução do país para o Portugal moderno não se devesse, em grande parte, às politicas e aos serviços públicos que as implementaram. Liberalices » e neoconservadorismo podem dar um ar modernaço ao discurso mas, a meu ver, não têm plateia nem votos.
Se não, então podemos vir a assistir ao predomínio partidário tão ao gosto da 1.ª República que o país não precisa . É necessário substituir a politica reles pelo confronto de projectos.
Bem visto, Sérgio.
Subscrevo. A começar pelo título.
Já dizia o cego:
“A ver vamos…”