→ Ainda há pouco tempo se viam aqui pelas redondezas os restos de um cartaz da campanha autárquica com a inspiradíssima frase-chave do candidato: Conta Comigo.
→ Chega-me uma mensagem da TMN para contratar um produto qualquer que me desafia assim: Adere já.
→ Vou à caixa de correio e encontro um envelope onde se destaca uma palavra em letra bem forte: Ganhaste!
— Folheio o jornal e esbarro com um quadrado em que leio o seguinte: Queres mudar de vida?
→ Olho para a televisão e vejo um anúncio que começa deste modo: Tens problemas?
→ Volto ao jornal e vejo isto num canto emoldurado: O teu futuro pode estar aqui.
→ Miro de novo a televisão e dou com a publicidade da Vodafone a perguntar: O que é que precisas?
Não, não é a minha popularidade e não, quem adquire produtos e serviços não é só a canalha. Então, quando é que lhes dei confiança? Afinal, quando é que todos nós começámos a ser assim?
Se acham que não vale a pena voltar aos bons costumes, ainda acabo por alinhar da próxima vez que a menina do call center da Meo voltar a ligar-me: Ó filha, não me trates mais por Senhor João. Trata-me por tu, carago.

João
Gostei desta lista. Está exacta. Acrescentaria: “Tens de carregar o teu tag se queres continuar a falar à borla para outras tags.”
Passámos a fazer parte de uma sociedade de adolescentes, é o que é.
E esta é apenas a ponte comunicacional, em breve nem perceberemos metade dos seus códigos linguísticos, da sua gramática. (E já agora, da sua pronúncia…)
O mais curioso, Ana, é que é tudo da e para a canalha… e Portugal é um país envelhecido e a envelhecer.
“Senhor João: Parece-me que já está a abusar e a querer tomar-se de intimidades a mais com a menina do call center. Veja lá como se comporta, Senhor João!”
Olhe, Senhor Luís, fique sabendo que nos ‘call centers’ são todos putos… e meninas. ‘Call girls’ não sei.
O anúncio da Vodafone, além do irritante tratamento por tu, tem um flagrante erro de sintaxe que ainda consegue ser mais irritante. Cheira-me que foi isso o que deixou you assim tão… irritado. Certo?
Certíssimo! Tipo Pacheco Pereira: «O que eu não li, não vi e não ouvi não falarei.»
Nem mais. DO que te havias de lembrar…
Vocês não são capazes de deixar o Pacheco Pereira em paz!
Pois não. Ele é também não. Mas V. fica incomodado?
Olha! Este voltou. Há tanto tempo que não aparecia…
Também eu tenho uma supina alergia a essas intimidades de baixo recorte… E também eu preferia que não me tratassem por senhora x e me tratassem, ao menos, só pelo nome (isso aconteceu-me uma única vez, num telefonema para uma linha de esclarecimentos das finanças).
Já disse muitas vezes que em tempos de uso e abuso do termo «boas práticas» nos manuais de gestão (a moda pegou) deviam logo começar por este: um guia básico de boas maneiras.
Porque isto do senhor José e da senhora Maria é assim em todo o lado: ouço dizer que até nos hospitais.
Quanto à televisão, é a torto e a direito.
Pelos vistos a escola está instalada ( à excepção, talvez, do forum tsf).
Nos hospitais é ainda pior, Chloé: usam diminutivos patetas, como se as pessoas ficassem retardadas pelo facto de estarem doentes. Admito que não seja por mal, mas não há nada mais irritante.
– E a senhora deu entrada por causa de quê?
– Caí na rua e parece-me que desloquei este braço…
– Sente aí uma dorzinha? Vai ter de esperar um bocadinho, minha linda, está bem? Pode ficar com esta senhazinha que eu já a chamo, sim? Pode ficar ali sentadinha. Tenha calma, santinha, que já vamos ver esse bracinho, sim?…
Ora aí está, é isso mesmo. Razão mais do que suficiente para lhe deixar um bracinho deslocado também…
Hehehe…
É tal e qual assim, João! Tal e qual!
(Se eu morrer a rir, já sabem quem são os principais suspeitos: os Delitos!!!)
Livre-se, que a gente não passa sem si.
Oh, João, que fofinho. Obrigada.
Afinal não é só mauzinho, também é fofinho.
Maufinho?
Sim, é isso mesmo! Maufinho!
É verdade, Ana! E se pensam que assim animam as pessoas… estão muito equivocados…
(Esta sua lembrança provocou-me um ataque de riso! Um dia destes…)
Ai, Ana… olhe que eu não quero responsabilidades por asfixias! Vou passar a dizer só coisas sérias, com um ar circunspecto., está decidido. 😉
Nem pensar, Ana!
Rir é fundamental na minha vida!
É certo que pouca coisa hoje em dia me desperta o riso… por isso é que os Delituosos já se tornaram indispensáveis.
Também já tinha reparado nisso e pelos vistos não sou o único a não achar muita piada. Há abuso na publicidade. Compulsiva, massacrante e agora também mal educada.
É de ficar furioso.
Herr João
Wie geht es Ihnen?
Acabada de chegar de uma terra onde essa distinção é muito valorizada, este texto teve ainda mais piada…
:))
Sim, Maria. Correu tudo bem consigo? Melhor? Já estava com saudades.
Já aqui chamei a atenção para o “you” estupidamente traduzido por “tu” em tudo quanto é sítio. Até nos livros da Agatha Christie, passados na primeira metade dos século XX, quase sempre em ambientes muitos formais, cheios de salamaleques, toda a gente se trata por “tu” nas mais recentes e “modernaças” traduções portuguesas. É uma festa. Só falta chamarem-se ‘meu’ e dizer ‘bué’. Tudo jóia, bué da fixe.
Tásse. Não sejas cota.
Agatha Christie traduzida e editada pela Europa-América?
Lembram-se do “tutear” do Miguel Esteves Cardoso n’ A Causa das Coisas?
“Tutear”… Bem lembrado.
Bom, isso pode ser desagradável para os portugueses, mas é coisa normal em muitos outros países. Na Holanda basta as duas pessoas trocarem dois e-mails e a seguir já se tratam por tu. O mesmo numa reunião. O próprio primeiro-ministro é tratado por tu pelos entrevistadores.
Nestas coisas parece-me que o melhor exemplo é o alemão: oferecem com alguma facilidade o tu, mas sempre que haja dúvida mantêm o “Sie” (você). Mantêm esse tratamento deferencial até quando falam de uma terceira pessoa e sabem que todos os intervenientes na conversa a tratam por tu. Parece-me equilibrado.
Já em Portugal, parece-me que isto vai ser cena de cotas que já não sabem viver meu. Tásse mêmo a ver isso.
Tásse mêmo, Senhor João.