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Leio nas “redes sociais”, enviam-me por WhatsApp, anda na imprensa, múltiplos resmungos e sarcasmos porque o escritor Chagas Freitas foi recomendado para uma selecção de leituras europeias pelo pessoal da REPER. Nunca li, recuso-me a contestar – até porque amigos me desafiam a isso – alguém que nunca li (lembro-me dos “jovens turcos” liberalóides que sobre Saramago escreviam, orgulhosos de serem imbecis, “não li e não gosto”).
Até porque a questão, se é que esta existe, é bem diferente. E ninguém a põe, claro. E até é simples: até que ponto é curial que o pessoal técnico-diplomático possa usar as suas funções estatais para recomendar agentes culturais portugueses segundo os critérios dos seus gostos? Seja Saramago seja Chagas Freitas. Mas discutir isso é muito mais complicado do que a auto-encenação da erudição própria, avessa ao que o cânone não reconhece.
(Será de ler este artigo de José Riço Direitinho – pois nele constam duas coisas necessárias: como evitar estas coisas. E, ainda mais importante, pontapeia o insuportável “Principezinho”, unanimemente aclamado e com o qual Chagas Freitas foi comparado).

Algum padrinho amparou um afilhado prejudicando outros padrinhos e outros afilhados. Enfim, estas coisas de poetas laureados (no caso parece que é prosa) valem o que valem.
até que ponto é curial que o pessoal técnico-diplomático possa usar as suas funções estatais para recomendar agentes culturais portugueses segundo os critérios dos seus gostos?
Não é curial mas, aparentemente, é isso mesmo que algumas instâncias europeias lhes pedem para fazer.
E, se lhes é pedido que o façam, eles fazem-no, mesmo não sendo curial. Se não o fizessem ficariam mal vistos.
Nos tempos que correm o “gosto” não se define por motivos de estética literária: é se o escritor for gay. Portanto estes problemas valem tanto como chupar um gelado.
“não li e não gosto”
Exacto. Jornalismo e literatura quase nunca resultou. São desejos que não vêm do mesmo lado — e presumir o contrário é um equívoco com a parafernália.
Nunca comunguei das ideias de Saramago, apesar disso, li muito da obra dele. Retrata nuns livros muito do real e noutros o virtual (imaginação). Foi um escritor fantástico.
Na minha op, Saramago era uma excepção, é um escritor fantástico — mas também é enganador pensar que as suas ideias não estão lá: que existia uma dissociação entre aquela pessoa, o seu pensamento político e o seu pensamento literário.
E também nem todas as obras dele têm as mesmas circunstâncias, houve umas marcadamente políticas e outras não tanto, mas as preocupações centrais dele estão lá sempre. É preciso ter isso em conta. Daí que afirmar uma coisa do género “não gosto dele (das ideias dele) mas gosto dos livros” é de certa forma algo arriscado
Mas percebemos o sentido.
Sim, sim. E até diria, com diz o outro, que todos os livros do Saramago têm as ideias dele.
Qualquer obra d’arte tem de querer dizer alguma coisa. Os quadros de retratos do Medina são muito bem pintados e parecidos com o retratado, mas são apenas simples retratos pintados em vez de fotografados.
O “Ensaio sobre a cegueira” não é apenas uma estória de um momento para outro, como de uma epidemia, toda a gente ficasse cega.
Os livros onde Saramago meteu ideologia são obras menores, assim de repente a Caverna ou Caim são medíocres.
Saramago meteu ideologia em todos os livros que escreveu.
Basta compreender o que ele quer dizer em cada obra.
Isso é porque quando somos mais categóricos e demonstrativos estamos a ser mais básicos. Menos refinados. Já quando ocorre o contrário, quando somos menos evangelizadores, somos mais cativantes. O Memorial do Convento, é muito engraçado e está muito bem escrito, mas não deixa de ser uma “desconstrução” e uma espécie de revisionismo bem-humorado, bem ao gosto das esquerdas.