Cessação de vigência


Rui Rocha,

Há momentos em que sinto, caríssimo leitor, um vazio, uma angústia, uma incredulidade, um desconforto e até uma certa raiva ou azedume. Até ontem, não conhecia a designação adequada a esta moléstia. Sei agora que lhe posso chamar cessação de vigência. Imaginará o leitor que lhe falo da circunstância de uma simpática escritora de novelas juvenis inspirada por Enid Blyton exercer como Ministra da Educação deste país à beira do FMI plantado. É verdade que disso lhe falo também. Como lhe poderia falar da estreitíssima, porém profunda, linha que separa a inspiração do plágio. Fique sabendo, leitor, que de  inspiração se fala quando aquilo que se expira não poderia existir sem a inspiração, mas constitui, apesar disso, algo radicalmente original. Isto é, ali onde tinha entrado oxigénio sai, por via de transformação criativa, dióxido de carbono. Já no plágio, o que sai é igual ao que entra. É como se, entrando oxigénio no sistema respiratório, oxigénio voltasse a sair. Inspiração disse. E mantenho. Pois se até o nome do cão é diferente! E o mesmo sucede, Tim Tim por Tim Tim, a cada nova aventura. Esclarecido este ponto, com proveito evidente para o leitor ao qual, ademais, não cobro um cêntimo pelo serviço, continuo dizendo que esta cessação de vigência que me atormenta tem evidente relação com o facto de a original e cândida Ministra (sim, porque sinistra era a outra) defender com unhas tratadas e dentes escovados a reorganização curricular. Não pelo seu mérito intrínseco, mas pela enxurrada de milhões que permitiria poupar ao Teixeira dos Santos. Esse pobre que tem, coitado, os bolsos em pior estado do que a integridade física de um jogador do Nacional depois de uma aparição do Jesus. Mas, cessação de vigência sinto também quando a oposição se une para chumbar (em se tratando de educação melhor diria reter, não vá a reorganização curricular ficar com algum trauma para toda a vida) uma lei que permitiria acabar com aventuras em casas assombradas pelo eduquês mais vernáculo. Ficaremos então com as três da vida airada (Área de Projecto, Estudo Acompanhado e os dois professores de Evêtê). E à necessária diminuição do número de alunos por turma, ao encerramento de escolas a eito interior fora (ou dentro), à evidente necessidade de separar os átomos da Química dos da Física, atribuindo-lhes a importância que realmente merecem, a tudo isto diremos nada? Sim, leitor, sinto uma profunda e desesperada cessação de vigência que é inclusiva nas suas causas. Encontro-as na Ministra da Educação e na sua (dela) oposição. E também no canastrão deslumbrado que foi a Berlim certificar-nos a evidência de que já só a dívida é soberana.

8 comentários em “Cessação de vigência”

  1. Lá está… afinal o amigo Rui Rocha também acaba por ficar contaminado pelo canastrão que nunca tem culpa de nada (mundo é que mudou), acha o Nacional perdeu porque o Jesus não deixou o Luís Alberto agredir o um das dezenas de amigos de Carlos Gardel que o Benfica lá tem.
    Não há duvida que Sócrates faz escola, até no futebol

    1. É, isto entranha-se, Carlos Alberto. Lembro-me que até o meu amigo já fez tirocínio para Abrantes, embora tenha desistido por falta de requisitos.

    1. Um homem não é de ferro, José. E quando o clube da nossa simpatia tem seis candidatos à Presidência, não sei quantos directores e uma catorzada de treinadores, convence-se que está na hora de começar a dar umas mordidelas na águia.

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