Porém, ainda não tive nenhum amigo crente a responder cabalmente ao inverso: “Se só existirem ateus, será que os deuses existem (ou em termos mais latos, será o divino existe)”.
Atente-se à seguinte circunstância teórica: se numa ilha só existirem ateus, existe a possibilidade de manifestação do divino e/ou ocorrência de aparições marianas?
Por analogia aos métodos matemáticos de demonstração por redução ao absurdo, cabe ao crente demonstrar a existência de deus e não ao ateu demonstrar a sua não-existência, até porque é manifestamente inexistente aquilo que não é comprovável e/ou dedutível.
Já agora como é que se demonstra a fé ou a falta dela?
“se numa ilha só existirem ateus, existe a possibilidade de manifestação do divino…?” Sempre podem olhar os lírios do campo que não trabalham nem fiam e mesmo assim nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles.
A citação parece-me ligeiramente tongue in cheek. Há outra de Chesterton que prefiro: “Quem não acredita em nada arrisca-se a acreditar em tudo.” O aviso não me dissuade de descrer mas alerta-me para os perigos da descrença.
Essa frase que aqui traz, o que lhe agradeço, traduz muito do espírito de Chesterton – como aliás a que eu reproduzi. A veia polémica, sarcástica, mordaz é uma constante dos seus escritos. Isso contribui para que continue a ter uma legião de leitores fiéis – e não só no Reino Unido.
Se não existisse carne, não existiam vegetarianos, and so on. Espero melhores frases do Chesterton. Essa não lhe chega para ganhar uma menção honrosa nos jogos florais de torres vedras, quanto mais o nobel.
Como é óbvio, considero que os escritores que aqui menciono mereciam o Nobel não por causa de uma frase que eu aqui destaque mas pelo conjunto da obra literária que nos legaram. É uma evidência que até putativos candidatos aos jogos florais de Venda das Raparigas deviam saber.
Se o Chesterton não existisse, a minha vida seria muito mais chata, isso sim.
Enquanto escritor que me faz rir, imaginar e pensar, não tem muitos rivais. Faz pena que alguns se deixem incomodar pelas crenças religiosas dele. Apesar disso ele era um grande inimigo da estupidez e do mau uso da razão. Basta dizer que, quando iluminados como o H.G. Wells e o G.B. Shaw ainda andavam a apregoar a eugenia, o Chesterton já andava a atacá-la. Apesar de convertido ao Cristianismo, a sua obra não é proselitária. Ele claramente preocupava-se com a dimensão ética, mas não andava a tentar converter ninguém.
O Chesterton foi um homem estranho, que conseguiu reconciliar ideias tanto da direita como da esquerda. Tinha ideias bastante socialistas para algumas coisas, e noutras era um típico conservador na tradição inglesa, sensível à interferência do estado na esfera privada.
Acima de tudo, foi um exímio escritor de contos policiais, e quem apenas conhece o Father Brown está a perder muitos dos melhores do século XX. Também foi um óptimo cronista, capaz de tornar o objecto ou a situação quotidianos em coisas fabulosas, mágicas.
Caro Pedro Correia,
Entende-se o gosto pela frase (que é bem conseguida). Contudo, também se entende facilmente a falácia nela encerrada.
Cump.,
A. F.
De facto, a tirada é claramente falaciosa.
Porém, ainda não tive nenhum amigo crente a responder cabalmente ao inverso: “Se só existirem ateus, será que os deuses existem (ou em termos mais latos, será o divino existe)”.
Atente-se à seguinte circunstância teórica: se numa ilha só existirem ateus, existe a possibilidade de manifestação do divino e/ou ocorrência de aparições marianas?
Por analogia aos métodos matemáticos de demonstração por redução ao absurdo, cabe ao crente demonstrar a existência de deus e não ao ateu demonstrar a sua não-existência, até porque é manifestamente inexistente aquilo que não é comprovável e/ou dedutível.
Já agora como é que se demonstra a fé ou a falta dela?
“se numa ilha só existirem ateus, existe a possibilidade de manifestação do divino…?”
Sempre podem olhar os lírios do campo que não trabalham nem fiam e mesmo assim nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles.
O facto de, tantos anos depois, esta frase continuar a suscitar polémica basta para justificar o destaque que lhe dei.
A citação parece-me ligeiramente tongue in cheek. Há outra de Chesterton que prefiro: “Quem não acredita em nada arrisca-se a acreditar em tudo.” O aviso não me dissuade de descrer mas alerta-me para os perigos da descrença.
Essa frase que aqui traz, o que lhe agradeço, traduz muito do espírito de Chesterton – como aliás a que eu reproduzi. A veia polémica, sarcástica, mordaz é uma constante dos seus escritos. Isso contribui para que continue a ter uma legião de leitores fiéis – e não só no Reino Unido.
Se não existisse carne, não existiam vegetarianos, and so on. Espero melhores frases do Chesterton. Essa não lhe chega para ganhar uma menção honrosa nos jogos florais de torres vedras, quanto mais o nobel.
Como é óbvio, considero que os escritores que aqui menciono mereciam o Nobel não por causa de uma frase que eu aqui destaque mas pelo conjunto da obra literária que nos legaram. É uma evidência que até putativos candidatos aos jogos florais de Venda das Raparigas deviam saber.
Que argumento mais patético! Então o fato de você não acreditar em Papai Noel é a prova da existência deste? Pff…
Se o Chesterton não existisse, a minha vida seria muito mais chata, isso sim.
Enquanto escritor que me faz rir, imaginar e pensar, não tem muitos rivais. Faz pena que alguns se deixem incomodar pelas crenças religiosas dele. Apesar disso ele era um grande inimigo da estupidez e do mau uso da razão. Basta dizer que, quando iluminados como o H.G. Wells e o G.B. Shaw ainda andavam a apregoar a eugenia, o Chesterton já andava a atacá-la. Apesar de convertido ao Cristianismo, a sua obra não é proselitária. Ele claramente preocupava-se com a dimensão ética, mas não andava a tentar converter ninguém.
O Chesterton foi um homem estranho, que conseguiu reconciliar ideias tanto da direita como da esquerda. Tinha ideias bastante socialistas para algumas coisas, e noutras era um típico conservador na tradição inglesa, sensível à interferência do estado na esfera privada.
Acima de tudo, foi um exímio escritor de contos policiais, e quem apenas conhece o Father Brown está a perder muitos dos melhores do século XX. Também foi um óptimo cronista, capaz de tornar o objecto ou a situação quotidianos em coisas fabulosas, mágicas.