Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (33)
Pedro Correia,
«Em última análise, cada sombra é também filha da luz. E só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.»
Stefan Zweig (1881-1942)
6 comentários em “Cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (33)”
Caro Pedro Correia, Provavelmente vou cometer a indelicadeza de me antecipar aos nomes desta sua interessantíssima iniciativa. Mas ao saber que logo, pelo cair da tarde, antes do futebol, Pedro Passos Coelho, vai dar a conhecer ao país, novas medidas de austeridade, lembrem-me do Miguel Torga, ele que, juntamente com outros autores portugueses, (Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Sophia Melllo Breyner, Vergílio Ferreira, António Ramos Rosa, ainda não se referia José Saramago), chegou a ser proposto para o Nobel.
MIGUEL TORGA
(1907-1995)
“Estamos irremediavelmente perdidos. E já ninguém o ignora e cala. É um clamor uníssono que vai do Minho ao Algarve. Um dobre a finados de uma pátria sem esperança, que o poder não houve, ou finge não ouvir, a fazer-lhe discursos e a descerrar lápides, num desprezo olímpico pelo povo que em má hora o elegeu. Um povo que já foi senhor da sua vontade e dos seus actos, mas que muitos anos de obscurantismo, de inquisição e ditadura degradaram e perverteram, e agora, de novo tiranizado, insofrido e impotente, geme. Oiço este gemido insistente e generalizado, e fico transido. Dói-me em todos os recessos da alma acabar os dias com ele a ressoar-me nos ouvidos atentos e solidários, confrangido de apenas poder registar o desalento de uma colectividade que se deixa sistematicamente iludir, e beija agradecida a mão de quem cinicamente, nas horas eleitorais, lhe promete o paraíso e argamassa sem pejo em cada localidade a primeira pedra de uma escola, centro de cultura ou saúde, que nunca serão realidade. E que, depois de ser mais uma vez ludibriada, barafusta, perde a cabeça, corta as estradas e interrompe o trânsito, até que, a bastonadas paternais, recolhe a casa pacificamente, numa indignação envergonhada e vencida”
Sammy, fez bem em trazer aqui a excelente prosa do grande Torga. Alguns dos escritores que menciona farão parte da minha lista – não todos, para não ultrapassar a promessa de me ficar pelos cem de várias línguas e vários continentes.
Caro Pedro Correia,
Provavelmente vou cometer a indelicadeza de me antecipar aos nomes desta sua interessantíssima iniciativa.
Mas ao saber que logo, pelo cair da tarde, antes do futebol, Pedro Passos Coelho, vai dar a conhecer ao país, novas medidas de austeridade, lembrem-me do Miguel Torga, ele que, juntamente com outros autores portugueses, (Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Sophia Melllo Breyner, Vergílio Ferreira, António Ramos Rosa, ainda não se referia José Saramago), chegou a ser proposto para o Nobel.
MIGUEL TORGA
(1907-1995)
“Estamos irremediavelmente perdidos. E já ninguém o ignora e cala. É um clamor uníssono que vai do Minho ao Algarve. Um dobre a finados de uma pátria sem esperança, que o poder não houve, ou finge não ouvir, a fazer-lhe discursos e a descerrar lápides, num desprezo olímpico pelo povo que em má hora o elegeu. Um povo que já foi senhor da sua vontade e dos seus actos, mas que muitos anos de obscurantismo, de inquisição e ditadura degradaram e perverteram, e agora, de novo tiranizado, insofrido e impotente, geme. Oiço este gemido insistente e generalizado, e fico transido. Dói-me em todos os recessos da alma acabar os dias com ele a ressoar-me nos ouvidos atentos e solidários, confrangido de apenas poder registar o desalento de uma colectividade que se deixa sistematicamente iludir, e beija agradecida a mão de quem cinicamente, nas horas eleitorais, lhe promete o paraíso e argamassa sem pejo em cada localidade a primeira pedra de uma escola, centro de cultura ou saúde, que nunca serão realidade. E que, depois de ser mais uma vez ludibriada, barafusta, perde a cabeça, corta as estradas e interrompe o trânsito, até que, a bastonadas paternais, recolhe a casa pacificamente, numa indignação envergonhada e vencida”
Em “Diário”, Volume XVI.
Sammy, fez bem em trazer aqui a excelente prosa do grande Torga. Alguns dos escritores que menciona farão parte da minha lista – não todos, para não ultrapassar a promessa de me ficar pelos cem de várias línguas e vários continentes.
Lembrem-me é capaz de ser acordês!…
Torga era alérgico ao acordês. Como os mais prestigiados escritores portugueses, aliás.
“O Mundo de Ontem”, da Assírio, … uma boa meditação para os dias de hoje.
Boa escolha sim senhor!
Uma obra-prima. Um dos livros fundamentais para entendermos o século XX – o mais fascinante e terrível século da História humana.