Cebolagate


Paulo Sousa,

Há dias chegou-me à mão a publicação “Ecos do Século XX – Distrito de Leiria” editada pelo Jornal de Leiria. É um documento de grande importância histórica e que já vai sendo difícil de encontrar. Foi publicado em fascículos, um por cada década, ao longo do ano 2000.

A sua elaboração foi o resultado do trabalho do jornalista Damião Leonel, desaparecido há pouco tempo, e que foi ele próprio uma personagem invulgar e merecedora de ser lembrada.

Numa das páginas, dedicadas ao ano 1919, surge a seguinte nota:

Scanner_20230311.jpg

Em tempos de crise, a inflação e o açambarcamento de víveres, com ou sem falcatruas de variada ordem, são fenómenos antigos. O estado, na notícia corporizado pela Câmara Municipal, intervém para salvaguardar o interesse público e limitar os prevaricadores. O público concorda e revê-se nas medidas contra os abusos. É também para isso que o Estado existe e, sim senhor, fizeram muito bem.

Regressando à actualidade, soubemos pelas notícias que as fiscalizações da ASAE detectaram, por exemplo na cebola, margens de lucro superiores a 50%. Perante tal ignomínia, dei por mim a questionar-me sobre os valores que estavam em causa.

Olhando para os preços praticados por um distribuidor de referência, calculei um preço médio de venda ao público da cebola de 2,40€/kg.

O primeiro valor de média que obtive era bem superior e por isso excluí do cálculo as referências mais caras, por estimar que tenham menor peso no consumo global. Só por aqui já se poderia classificar o método a que recorri de diversas formas, mas nenhuma onde a palavra “rigor” pudesse fazer parte. Mas, adiante.

Ora:

Quando falamos num preço de venda do público (PVP) de 2,40€, estamos a falar em 2,264€ de mercadoria, acrescido de 6% de IVA.

Se 2,264€ é o PVP sem iva e se este valor resulta de uma margem comercial do 50%, podemos calcular que o custo de aquisição da cebola para o supermercado é de 1,509€.

Não nos podemos esquecer que, tal como acontece em todos os produtos hortícolas, a cebola é um produto perecível, e por isso os quilogramas adquiridos pelos supermercados não são exactamente os mesmos quilogramas vendidos. Existe desperdício e isso tem de ser considerado.

Então qual seria a margem de lucro aceitável para a distribuição? Considerando o já referido desperdício e assegurando o normal funcionamento do estabelecimento, arrisco que uma margem razoável ronde os 30%.

Existe quem não aceite que possa haver lucro, quem pense que os supermercados não têm de pagar salários, electricidade, água, seguros, limpeza e higiene, não têm de cumprir as exigência imposta pelas normas HCCP, não têm de dar formação obrigatória aos funcionários, não têm de disponibilizar equipamentos individuais de protecção, de pagar taxas e licenças variadas (i.e. licença paga à SPAutores pela música ambiente), de suportar manutenção de equipamentos de frio, de elevadores, de equipamentos de carga, todo isto acrescido de impostos vários e derrama. Esta não é uma lista exaustiva pois estou certamente a deixar para trás muitas parcelas de despesas operacionais de um supermercado.

Para os mais desligados destes cálculos, os naïfs que por ignorância e alienação acham que a abundância nas prateleiras resulta de uma ordem sobrenatural inabalável, para esses, e com uma risada de escárnio, designarei estes 30% com Margem Moral Máxima – MMM. É uma boa sigla que merecia passar a constar nos manuais de micro-economia.

Assim temos:

Preço de custo da cebola: 1,509€/Kg

Preço MMM: 1,962€/Kg

Preço verificado: 2,264€

E assim chegamos a uma diferença entre o preço moralmente aceitável e a realidade de 0,302€/Kg.

Consideremos então os dados divulgados pelo COTHN – Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional, o consumo médio anual de cebola em Portugal é de 13Kg/per capita.

Assim teremos:

13kg/per capita x 10 milhões habitantes = 130 000 000 kg

Valor do escândalo do preço da cebola, o cebolagate = 39,26 M€.

Importa referir que no ponto de vista da AT existe ainda outra diferença:

Iva arrecadado aplicando a MMM: 15,3 M€

Iva arrecadado com o preço verificado: 17,66 M€ (= receita fiscal adicional de 2,36 M€)

Total desembolsado a mais pelos consumidores = 39,26 M€ + 2,36 M€ = 41,62 M€. (4,162 €/per capita)

Termino assim comparando estes escandalosos e inaceitáveis valores com um “aceitável investimento”.

– O escândalo da cebola custa a cada português 4,162 €.

– O “investimento estratégico” “não reembolsável” na companhia das caravelas portuguesas do século XXI custa a cada português 340€.

Os responsáveis pelo referido “investimento estratégico”, muito se alegrarão que o cebolagate tenha o máximo de atenção possível.

Adenda:

Entretanto, e a partir dos relatórios de contas da Sonae (Modelo e Continente) e da Jerónimo Martins (Pingo Doce e Recheio), divulgados numa notícia do Jornal Eco, podemos observar que estes dois operadores do mercado de distribuição alimentar reduziram as suas margens de lucro nos últimos anos.

margem lucro.png

Gráfico: Jornal Eco

Destaco ainda o seguinte excerto:

“Fica apenas a faltar nesta equação o Estado, que atua no mercado através da carga fiscal que aplica sobre os bens de consumo através do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). E de todos os intervenientes na cadeia de valor, o Estado foi o único que não fez qualquer alteração na sua margem de lucro:não baixou nem reviu o IVA sobre os bens alimentares básicos, como fez Espanha, nem parece ter intenção de o fazer. E o resultado da inação por parte do Estado é bem visível nas suas contas.”

Ainda sobre este assunto, termino com a recomendação do programa Conta-Corrente, que mereceu o título: “ASAE não foi fiscalizar preços, foi fazer política”.

29 comentários em “Cebolagate”

  1. a republiqueta entregue a funcionariozinhos públicos ignorantes e pomposos
    que se dirigem aos contribuintes «em que posso atrapalhar?»

  2. Não é totalmente legítimo fazer a média sobre todos os portugueses. Para os pobres, que praticamente não pagam impostos a não ser o IVA, o preço da cebola faz a mesma diferença que para os ricos, mas o preço da TAP faz bastante menos.

    1. Como é que o preço da TAP faz menos diferença para os pobres? Só se for por terem mais dinheiro e por isso os 350€ lhes façam menos falta do que aos ricos…

  3. O que mais me repugna nesta história é o governo, mais os seus papagaios comentadeiros, fazerem tal escarcéu por causa das “margens de lucro” que a pouca gente sensata não consegue, no meio da barulheira, explicar que aquilo é lucro bruto e não lucro líquido. E depois ainda há quem se admire de grassar tão imenso analfabetismo financeiro e matemático no povo.

    1. António Costa garantiu que a inflação seria passageira. Enganou-se… mais uma vez.
      Agora, misturam-se números, usa-se a palavra maldita (lucro) e traz-se para a praça pública o “grande capital” para ser o mau-da-fita. E enquanto se olha para aquilo, não se vê outra coisa.
      E assim vamos vivendo habitualmente.

  4. “O impacto maior sobre a subida dos preços dos bens alimentares é causado pela elevada carga fiscal.
    https://eco.sapo.pt/2023/03/13/quem-esta-a-ganhar-com-a-subida-dos-precos/

    “Fica apenas a faltar nesta equação o Estado, que atua no mercado através da carga fiscal que aplica sobre os bens de consumo através do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). E de todos os intervenientes na cadeia de valor, o Estado foi o único que não fez qualquer alteração na sua margem de lucro: não baixou nem reviu o IVA sobre os bens alimentares básicos, como fez Espanha, nem parece ter intenção de o fazer. E o resultado da inação por parte do Estado é bem visível nas suas contas. (…)
    Apesar de no último ano o consumo privado ter aumento 5,9%, a receita do Estado arrecadada com a cobrança do principal imposto sobre bens de consumo (IVA) aumentou a um ritmo três vezes superior, disparando 18,5%.”

  5. O que importa verificar é que a margem percentual de lucro aumentou quando os preços aumentam, ou seja, o aumento das margens não é uma consequência mas uma causa da inflação. Isto quando se limitam os aumentos de salários a valores abaixo da inflação.
    Já vi várias justificações desvairadas dos aumentos dos bens alimentares, utilizar a TAP ganha a palma. Já estou a ver o chico mãozinhas no tribunal: “Ó sôr juiz, agamei 500 € dumas carteiras mas a TAP é um roubo muito maior”, talvez faça jurisprudência.

  6. “Existe quem não aceite que possa haver lucro,….” Isto é populismo
    E na relação das despesas de uma empresa, aquela popularucha da música ambiente, só falta incluir o que aparece no verso da factura de um conhecido restaurante ‘no preço está incluído…….. e a quota para o sindicato’, como se fosse uma despesa do patrão.
    Parece é que existe quem não aceite que possa haver lucro com a inflacção, visto que de uma maneira geral serem praticados baixos salários em Portugal.

  7. Temos saúde publica gratuita, escola publica gratuita, vamos ter habitação gratuita ….por favor que não se lembrem de supermercados gratuitos…..

    1. Fez-me lembrar um amigo venezuelano que me disse que no dia em que o abastecimento de água passou a ser gratuito, teve uma ruptura à porta de casa, e nunca mais teve água da rede pública.

  8. Será que o problema é o Kilo da cebola ter aumentado 0,20, 0,30, ou 1 €uro?.
    Quem nem sequer cozinha em casa notará a diferença?. E quem cozinha?. Enquanto houver alguém que compre cebolas o preço, da cebola, será sempre oferta vs procura.
    Quem está a mesmo preocupado com o “descontrolado” aumento do preço tem bom remédio. E ter um governo a “mexer” na distribuição só vai descontrolar ainda mais…para quem compra cebolas.

  9. cebola , mercadona , espanha..1.89 euros..
    .cebola , froiz , espanha 1.79 euros
    em portugal fazer cebolas fica caríssimo
    ninguém quer alugar uma camioneta a meias comigo para irmos de 2 em 2 meses ás compras a valência de alcantara ? é um saltinho.

  10. com o iva de 6% português ficavam a uns 2 .03 euros , as cebolas do mercadona. , as do froiz nem a 2 euros chegavam.

      1. eu penso que a explicação está nisto…
        governo dixit : ( a taxa é de 33%)

        Porquê aplicar uma contribuição solidária sobre lucros excedentários?

        “A atual crise, provocada pela guerra, gerou uma escalada dos preços da energia e dos bens alimentares. Importa acautelar que os consumidores não são indevidamente penalizados por um crescimento excessivo das margens nestes produtos. Esses aumentos são particularmente penalizadores para as empresas e as famílias mais vulneráveis. “

        esses 33 % ou perto , estão a ser incluídos no preço .quem paga a tal taxa somos os consumidores.

      2. e com esta me vou .
        merceeiros com moral. vão investir o que ganharam a mais em 22 na redução de preços ao consumidor em 23.. não precisaram de taxinhas governamentais , de destino duvidosos após a colecta. digamos que a “taxa” reverte directamente para o consumidor :

        Eroski abre una guerra de precios entre supermercados con su cesta de la compra con más de 1.000 productos a precios bajos

        https://www.20minutos.es/noticia/5109276/0/eroski-abre-una-guerra-de-precios-entre-supermercados-con-su-cesta-de-la-compra-con-mas-de-1-000-productos-a-precios-bajos/

      1. eu vivo nas Caldas e vou à praça …compro cebolas a preço espanhol. por exemplo , a diferença no preço das uvas era tremenda na época delas , 2 euros na praça , 4 , 5 , e até 6 euros nos hipers como o pingo doce. endoidaram , só pode.

      2. e não vou ouvir o Camilo neste caso porque o liberalismo não é uma mezinha que cura tudo. a fixação , não de preços , mas de margens de lucro , tendo em conta todos os custos de produção desde matéria prima a pessoal , e que estão contabilizados, deveria ser estendida a tudo o que é vendido. viver à conta é feio. e uma margem entre os 30 e 35% já dá para ganhar muito.
        é desejável liberdade de acção , que o estado deixe de regulamentar tudo e mais um par de botas, que deixe de interferir nos contratos entre privados , que deixe de traçar o caminho que o cidadão há-de seguir desde o berço ao caixão . mas tudo o que cheire a usura e abuso não pode acontecer.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *