Os socialistas não escondiam ontem a satisfação pelo discurso do PSD no encerramento do debate do Orçamento na generalidade. Nada mais natural: esse discurso esteve a cargo de Manuela Ferreira Leite. Com o talento político que a caracteriza, a antecessora de Passos Coelho conseguiu argumentar a favor do péssimo Orçamento do Estado para 2011 com mais convicção do que o próprio ministro das Finanças, suscitando comentários apreciativos dos socialistas e um expressivo sorriso do primeiro-ministro.
Fiel ao seu estilo de sempre, a antiga líder social-democrata justificou a terapia de choque do PS e pretendeu até prolongá-la ainda mais do que os socialistas: “É preciso dizer às pessoas que este tratamento não é de um ano, nem de dois. O Governo dá a entender que em 2013 já estaremos todos bem e não vamos estar todos bem.”
E que mais disse a ex-ministra das Finanças? Não só que este orçamento é “inevitável” mas também que é “o único caminho”. Imagine-se a alegria que deu a José Sócrates e a Teixeira dos Santos com estas palavras, que no actual contexto soam a prémio político. Palavras que a partir de agora vão ser utilizadas até à exaustão pelos socialistas, debate após debate, no confronto político com o PSD.
“É o orçamento de que o País precisa no sentido em que corresponde ao que nos é exigido por terceiros”, declarou Ferreira Leite. Bastou uma frase para resumir o pensamento do ministro das Finanças e dissipar qualquer dúvida que pudesse existir até na bancada socialista sobre o Orçamento do Estado. A ex-ministra, que viabilizou o orçamento para 2010 e o PEC1 – documentos que continham previsões macro-económicas incorrectas, ilusórias e enganadoras, como rapidamente se percebeu, e em nada contribuíram para estancar a crise – foi ainda mais longe na defesa deste instrumento essencial da governação socialista: “Não há outra solução. Pode haver umas medidas melhores, outras piores, mas temos de percorrer este caminho”, que “não pode ser desperdiçado com manobras políticas”. Até porque “quem paga é quem manda”.
Percebe-se agora por que motivo Ferreira Leite quis que o PSD viabilizasse o péssimo documento, logo de início, sem lhe introduzir qualquer correcção ou melhoria.
Extraordinário, sendo as coisas o que são, não é que este discurso tenha sido proferido. Nem que corresponda, no essencial, ao pensamento político de Cavaco Silva, que Ferreira Leite tão bem exprimiu no hemiciclo de São Bento. Extraordinário é que tenha sido aplaudido de pé pela bancada social-democrata, a partir da última fila até à primeira, como uma ‘onda’ de claque num estádio de futebol.
Os socialistas, naturalmente, exultaram. “Manuela Ferreira Leite adquiriu um estatuto especial na vida política portuguesa”, elogiou o líder parlamentar, Francisco Assis. Afonso Candal, também da direcção da bancada do PS, disse rever-se “em grande parte ou na íntegra” do discurso de Ferreira Leite, a quem agradeceu, sem ironia, “o apoio e o estímulo” que deu ao Governo. E Sócrates, naturalmente, foi o primeiro a agradecer: “Finalmente, fui ouvido. Portugal precisa deste orçamento, que tem medidas corajosas para fazer face à situação do País.”
Apetece perguntar aos deputados do PSD: afinal aplaudiram o quê?


Aqui está mais um caso em que seria interessante saber quantas reformas tem, como foram conseguidas e com que idade, ou seja, quanto contribui pessoalmente para o défice (além do que contribui, digamos assim, politicamente, por via da sua actuação como governante, pelo que fez mas sobretudo pelo que deixou de fazer).
“Cavaco na voz de Ferreira Leite”
Há quanto tempo Cavaco andava a falar da crise que os Xuxas e os Jornalistas nos ofereceram
Música para os ouvidos de Sócrates. Em estereofonia soa melhor.
Retirar do contexto meia duzia de frases do discurso de MFLeite, não me parece muito curial, porque ela disse muito mais do que isso: chamou incompetentes e aldrabões ao 1º ministro e ao ministro das finanças e responsabilizou-os totalmente pelo actual estado de coisas.
Se eles se sentem confortaveis com isso, é problema deles, e como já escrevi antes, tambem há quem leve porrada e goste.
Se Socrates quis aproveitar politicamente meia duzia de frases de um discurso onde foi vergastado pessoal e politicamente, e socialistas como o Afonso Candal dizem que se reveem no discurso de MFL , então é porque lá no PS as coisas vão piores do que se imagina.
Nada retirado do contexto. Ouvi a declaração da senhora do princípio ao fim. O que se retém, do que ela disse, foram as frases que transcrevi – não por acaso, todos os jornais destacaram também isto. Além de ter feito a apologia do ‘fingimento’, logo ela, que tanto falava da ‘política de verdade’.
Ora aí está, preto no branco, sem subterfúgios, todo o vosso ‘programa’!
Sublinho: “não por acaso, todos os jornais destacaram também isto”.
Obrigado Pedro Correia, mas não era preciso tanto para confirmar o que está em causa há larguíssimos meses.
O ‘quarto poder’ convenceu-se que pode ser o ‘primeiro’, ou pelo menos mandar nele.
Acabarão os dois na mesma lama.
O que me será soberanamente indiferente, desde que não arrastem toda a sociedade para o mesmo lodaçal.
Que paleio mais disparatado. Você fica assim só no Outono ou dá-lhe em todas as estações do ano?
É não é, Pedro Correia?
É chato quando somos confrontados com evidências… evidentes.
Ficamos mesmo sem capacidade de resposta… Só nos resta desconversar.
Tenho aprendido imenso consigo nessa ‘arte’ particular. Nisso e em não prescindir da última palavra.
É tão humilde e tolerante…
Incrível, de facto. será que os deputados do PSD tinham noção daquilo que estavam a aplaudir? Mas de MFL já nada me surpreende. Depois da “suspensão da democracia por 6 meses”, vem agora o “quem paga é quem manda”. Arrepiante…
“Quem paga é quem manda.” Uma declaração que diz tudo sobre o calibre político da pessoa que a proferiu.
Não percebo o seu espanto:
em primeiro lugar, convém não nos esquecermos que o grupo parlamentar do PSD foi escolhido pela MFL;
depois, apesar de tudo, a actual liderança do PSD sabe que o país entende agora bem melhor MFL e atribui-lhe, apesar de tudo, uma credibilidade para falar nestes assuntos, que não atribui a mais ninguém naquela bancada. Quantos e quantos comentadores, jornalistas ou cidadãos não ouve agora dizer “a velha afinal é que sabia e bem tentou avisar”;
só mostra “esperteza política” tentar capitalizar este trunfo, apesar do discurso não ser totalmente coincidente com a actual liderança do partido;
apesar de tudo, não deixa de ser curioso que apenas um ano depois de ter sofrido uma das principais derrotas eleitorais do partido, veja a quase totalidade do hemiciclo (PCP e BE não contam) a elogiar a sua postura, o seu discurso, a sua frontalidade, o seu sentido de Estado, enfim, basicamente o que quase todos eles ridicularizavam há apenas 1 ano atrás… como diria o outro, it’s politics, stupid…
Vi, sobretudo, as palavras de concordância do primeiro-ministro e a forma entusiástica como o ministro das Finanças dava o seu assentimento, acenando com a cabeça. E ouvi os deputados socialistas dizerem que subscreviam a declaração desta senhora, que considera o orçamento não só necessário como imprescindível.
Por largos minutos pareceu-me uma deputada do PS, não do PSD.
… o que ilustra bem o ambiente de absoluta esquizofrenia política que impera pela Assembleia…
“É preciso dizer às pessoas que este tratamento não é de um ano, nem de dois. O Governo dá a entender que em 2013 já estaremos todos bem e não vamos estar todos bem.”
Haja alguém que o diga, já que do governo nunca ouviremos semelhante declaração. Que Sócrates tire dividendos deste discurso frontal e contra-corrente (na oposição), não me espanta. Não é Manuela Ferreira Leite que lhe dá trunfos com o seu discurso, é ele que o distorce a seu favor. Como sempre, aliás. Depois do que disse de MFL, a falta de vergonha e de dignidade política deste primeiro-ministro vai ficar na história do país.
Sócrates está em vias de se tornar um sem-abrigo político. O naufrágio já começou e, em breve, dará por si (por ele) a atravessar um longo deserto. Consigo (com ele) levará apenas algumas indefectíveis garrafas de vinho marado produzido na Adega Corporativa que, mais que tirar-lhe a sede, lhe entorpecerão o passo. Este deserto, como qualquer outro, terá pouca coisa, se não contarmos com os cartazes do Wall Street Institute em que ZéZé Camarinha, com total solidariedade idiomática, lhe gritará: you´re done ao beef , Joseph . Sócrates começou agora a sussurrar uma ladainha. As primeiras estrofes formulam, em surdina, um último pedido. Cavaco tem ouvido de tísico e aprecia o baile mandado. Tendo limitações de dicção, é mestre em ventriloquismo. Cavaco mexe os músculos do estômago e Ferreira Leite twiteia . Dirão que a tábua de salvação está algo carcomida, mas um náufrago agarra-se a qualquer coisa. Sócrates, Cavaco e Ferreira Leite são os protagonistas improváveis de uma ménage atroz e sem pudor. Ele há coisas do Arco da Velha! É certo que a um condenado que se apresta para enfrentar o pelotão de fuzilamento eleitoral não se recusa um último desejo. E, vendo bem, uma meia de Leite e um Pastel de Belém não são nada por aí além. Mas também é verdade que não se ganha nada em prender um moribundo a uma vida que já não lhe pertence. Mantivesse a bancada do PSD o silêncio respeitador que o nojo impõe e já todos teríamos percebido que Sócrates está a entoar o canto negro do cisne. O que, não sendo mais do que uma promessa, já nos aliviaria.
Este discurso teve o condão de nos lembrar que o PSD jamais ultrapassaria o patamar dos 29% se mantivesse MFL como líder.
Já com o Passos vai ter aí uns 92%…
Para ter mais nem era preciso o Passos: o Rato Mickey bastava.
A bancada social-democrata só podia aplaudir MFL; as listas dos deputados têm a sua autoria.
Penso que o seu discurso foi essencialmente dirigido a Passos Coelho, sobretudo quando é evocada a inevitabilidade do orçamento, facto que tanto agradou à bancada socialista.
A mesma oradora, no entanto, escreveu em 27 de Agosto no ‘Expresso’:
«Não se percebe um recente receio do Governo de que a Assembleia da República não venha a aprovar o Orçamento do Estado para 2011.
Com efeito, a nossa Constituição não estabelece que este facto implique a queda do Governo, mas pelo contrário, apresenta uma solução: em caso de não aprovação do Orçamento, entrará em vigor, por duodécimos, o Orçamento do ano anterior.
Assim, o Governo pode continuar a governar, apenas limitado ao facto de não poder aumentar a despesa em relação a este ano.
Quereríamos nós, cidadãos, ter melhor notícia?»
(aeiou.expresso.pt/manuela-ferreira-leit e=s23497)
Trata-se de uma declaração revestida de puro cinismo que o Pedro Correia pelos vistos subscreve. A dívida externa – amortizações contratualizadas, juros, pagamento do submarino fornecido, etc., etc. -, seria negligenciada; pura e simplesmente o termo “compromisso” deixaria de fazer parte do nosso vocabulário!
Olhem do que o PSD se livrou…!
Só me faltava agora, depois de tudo quanto tenho escrito nos últimos dois anos, vir alguém dizer-me que subscrevo as posições de MFL. Quando o que procurei nesta mesma caixa de comentários foi pôr em contraste o que a senhora escrevia há dois meses, quando admitia o chumbo do orçamento e o País a viver com duodécimos em 2011, e o que disse agora no Parlamento, considerando “indispensável” o mesmíssimo orçamento.
Saber ler é, de facto, uma grande virtude.
Peço-lhe imensa desculpa. Já me tinha apercebido da “gaffe” e ia mandar-lhe um outro comentário esta manhã, a desdizer-me.
Não tem que pedir desculpa, Fernanda. Pode acontecer a qualquer de nós, acontece-me também a mim quando leio um texto um pouco mais à pressa.
Oh Pedro, seja honesto… Não aconteceu nada de “novo” entre esse texto e a posição de MFL de deixar passar o OE? Eu lembro-me, por exemplo, de que surgiu, uns tempos depois, a própria da proposta de OE do Governo, que, penso eu, ninguém pensou que fosse tão longe. Daqui se conclui, facilmente, que, perante estes cortes draconianos” (como está na moda dizer-se), não seria possível um simples governo em regime de duodécimos. Esta é a diferença.
Ou seja: em dois meses o mundo muda. Uma peculiar “política de verdade”, que afinal advoga o “fingimento”. A escola socrática no seu esplendor.
O “nosso”, quer queira, quer não, mudou… se assim não fosse não seria necessário entrar numa gincana de PEC’s em tão pouco tempo… e, aparentemente, vai continuar… hoje vamos em 6,7%… e amanhã?
Mas também não compreendo os seus dramas… O que é que procura num político? Alguém que defenda sempre o mesmo? sem nuances? sem ajustamentos às realidades? sem se conseguir adaptar às diferentes circunstâncias? Alguém cheio de convicções ideológicas? É que vejo-o a “bater” em tudo o que é político mas gostaria de perceber, por exemplo, se se identifica com algum político ou pensamento em particular… Estará o Pedro a aguardar o próximo homem providencial?
Nada de homens providenciais. Nem mulheres.
Não é a primeira vez que ela dá voz ao PR.
E aproveita para encostar Passos Coelho à parede.
Pela voz desta senhora ficamos a saber o que verdadeiramente pensa a figura esfíngica do Presidente da República.