

Dizia alguém que somos escravos das nossas frases e donos do nosso silêncio. Aníbal Cavaco Silva bebeu desta sabedoria: evita desgastar-se em alocuções diárias, sabendo de antemão que será mais escutado nas raras ocasiões em que decide intervir no espaço público.
Voltou a acontecer há dias, num serão televisivo. Cavaco não decepcionou aqueles que o ouviram na entrevista exclusiva à CNN Portugal. Falou de forma clara e acutilante, sem rodriguinhos nem entretantos. Mostrando ao seu partido de sempre, o PSD, como se deve fazer oposição. A ocasião escolhida para prestar estas declarações não surgiu por acaso, coincidindo com o final do mandato de quatro anos de Rui Rio à frente dos sociais-democratas e a eleição, ainda sem tomada de posse, do novo líder, Luís Montenegro.
É o momento propício para lançar avisos à navegação. Cavaco não mandou recados por “fontes próximas”, ao contrário do que costumam fazer outras ilustres figuras do palco político: falou em discurso directo, o que confere valor reforçado às suas palavras.
Furo jornalístico, sem sombra de dúvida. Ciente disso, a CNNP apressou-se a exibir em oráculo, logo a abrir: «Cavaco arrasa Rio.» Recorrendo a um dos verbos mais desgastados da comunicação social portuguesa. E pecando por precipitação: o telespectador ainda nada ouvira.
Mas, de facto, o homem que ocupou durante 20 anos o poder em Portugal – uma década como primeiro-ministro, outra como Presidente da República – não foi meigo com o líder cessante do PSD. Disse, no fundo, aquilo que quase todos os tradicionais eleitores sociais-democratas pensam destes quatro anos de eclipse laranja. Naquele seu jeito de comunicar em linha recta, sem procurar atalhos nem esbanjar vocábulos.
«O PSD não foi vencedor em nenhum concelho a sul de Alcobaça. Os eleitores não viram o PSD como um partido verdadeiramente nacional, como alternativa ao PS. Quase parecia um partido regional. Muitos eleitores viam um PSD que era suporte do PS e às vezes era humilhado em debates na Assembleia da República pelo PS.»
Bastaram quatro frases para demolir o desastroso legado de Rio, que sai de cena como o maior derrotado de que há memória na já vasta galeria de presidentes da agremiação política fundada em 1974 por Francisco Sá Carneiro. António Costa bem pode agradecer-lhe a maioria absoluta que o PS agora ostenta.

Ficou a sensação de que a entrevistadora, Maria João Avillez, poderia ter permitido maior intervenção ao entrevistado. Algumas das suas perguntas continham considerações diversas, tornando-se mais extensas do que as respostas. E houve desnecessárias interrupções ao fio discursivo do economista de Boliqueime, que falava no seu habitual gabinete de trabalho. Numa das paredes, exibe-se uma gravura em grande dimensão com a imagem do próprio Cavaco Silva, ainda jovem, daquele tempo em que conquistou duas maiorias absolutas em São Bento. Meta inimaginável para o PSD de hoje.
Detecta-se ali um traço de nostalgia, que a realização soube destacar também com faro jornalístico. Em política, cada pormenor conta. Em televisão também.
Texto publicado no semanário Novo.

Não foi Rui Rio que foi responsável pela maioria absoluta do PS, foi o medo do regresso das políticas do Passos Coelho.
Passos Coelho cometeu um dos maiores erros da sua governação quando mexeu nas reformas. A sua base de apoio não lhe perdoou, e dificilmente se irá esquecer.
O Cavaco bem pode dar as entrevistas que quiser mas ele não se pode esquecer que foi no tempo dele que pagavam aos agricultores para não trabalhar as terras. A ele se deve a morte da agricultura.
E também não se pode esquecer que foi responsável pela desvalorização do escudo.
É que vir uma série de anos depois criticar o trabalho dos outros, com condições completamente distintas, e não falar das más opções do seu passado, das duas uma; ou as reformas são curtas e precisa do dinheiro das entrevistas ou então está com princípios de Alzheimer.
o país escassa aptidão agrícola, mesmo com chuva.
a maior parte do solo alentejano dava 3-5 sementes só os barros de Beja podiam competir com a UE cerealífera com as suas 50 sementes.
agora plantam canabis na zona do Alqueva.
tive agro-pecuária que terminou em 1980 por falta de trabalhadores e porque o meu bolso emagreceu.
É muito dificil os portugueses terem a noção do que é o seu país tal o populismo politico-jornalista.
Não fica nada bem um ex-Presidente, ou um ex-Primeiro Ministro, comentar a acção do actual titular. Mesmo que em tom de aprovação.
Tarde de mais para avisar Mário Soares disso, pois já faleceu.
Não fez outra coisa desde que cessou funções no Palácio de Belém.
> economista de Boliqueime
Frase interessante. Não particularmente original, o que também é interessante.