Cavaco e as causas do eclipse laranja


Pedro Correia,

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Dizia alguém que somos escravos das nossas frases e donos do nosso silêncio. Aníbal Cavaco Silva bebeu desta sabedoria: evita desgastar-se em alocuções diárias, sabendo de antemão que será mais escutado nas raras ocasiões em que decide intervir no espaço público.

Voltou a acontecer há dias, num serão televisivo. Cavaco não decepcionou aqueles que o ouviram na entrevista exclusiva à CNN Portugal. Falou de forma clara e acutilante, sem rodriguinhos nem entretantos. Mostrando ao seu partido de sempre, o PSD, como se deve fazer oposição. A ocasião escolhida para prestar estas declarações não surgiu por acaso, coincidindo com o final do mandato de quatro anos de Rui Rio à frente dos sociais-democratas e a eleição, ainda sem tomada de posse, do novo líder, Luís Montenegro.

É o momento propício para lançar avisos à navegação. Cavaco não mandou recados por “fontes próximas”, ao contrário do que costumam fazer outras ilustres figuras do palco político: falou em discurso directo, o que confere valor reforçado às suas palavras.

 

Furo jornalístico, sem sombra de dúvida. Ciente disso, a CNNP apressou-se a exibir em oráculo, logo a abrir: «Cavaco arrasa Rio.» Recorrendo a um dos verbos mais desgastados da comunicação social portuguesa. E pecando por precipitação: o telespectador ainda nada ouvira.

Mas, de facto, o homem que ocupou durante 20 anos o poder em Portugal – uma década como primeiro-ministro, outra como Presidente da República – não foi meigo com o líder cessante do PSD. Disse, no fundo, aquilo que quase todos os tradicionais eleitores sociais-democratas pensam destes quatro anos de eclipse laranja. Naquele seu jeito de comunicar em linha recta, sem procurar atalhos nem esbanjar vocábulos.

«O PSD não foi vencedor em nenhum concelho a sul de Alcobaça. Os eleitores não viram o PSD como um partido verdadeiramente nacional, como alternativa ao PS. Quase parecia um partido regional. Muitos eleitores viam um PSD que era suporte do PS e às vezes era humilhado em debates na Assembleia da República pelo PS.»

Bastaram quatro frases para demolir o desastroso legado de Rio, que sai de cena como o maior derrotado de que há memória na já vasta galeria de presidentes da agremiação política fundada em 1974 por Francisco Sá Carneiro. António Costa bem pode agradecer-lhe a maioria absoluta que o PS agora ostenta.

 

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Ficou a sensação de que a entrevistadora, Maria João Avillez, poderia ter permitido maior intervenção ao entrevistado. Algumas das suas perguntas continham considerações diversas, tornando-se mais extensas do que as respostas. E houve desnecessárias interrupções ao fio discursivo do economista de Boliqueime, que falava no seu habitual gabinete de trabalho. Numa das paredes, exibe-se uma gravura em grande dimensão com a imagem do próprio Cavaco Silva, ainda jovem, daquele tempo em que conquistou duas maiorias absolutas em São Bento. Meta inimaginável para o PSD de hoje.

Detecta-se ali um traço de nostalgia, que a realização soube destacar também com faro jornalístico. Em política, cada pormenor conta. Em televisão também.        

 

Texto publicado no semanário Novo.

6 comentários em “Cavaco e as causas do eclipse laranja”

  1. Não foi Rui Rio que foi responsável pela maioria absoluta do PS, foi o medo do regresso das políticas do Passos Coelho.
    Passos Coelho cometeu um dos maiores erros da sua governação quando mexeu nas reformas. A sua base de apoio não lhe perdoou, e dificilmente se irá esquecer.
    O Cavaco bem pode dar as entrevistas que quiser mas ele não se pode esquecer que foi no tempo dele que pagavam aos agricultores para não trabalhar as terras. A ele se deve a morte da agricultura.
    E também não se pode esquecer que foi responsável pela desvalorização do escudo.
    É que vir uma série de anos depois criticar o trabalho dos outros, com condições completamente distintas, e não falar das más opções do seu passado, das duas uma; ou as reformas são curtas e precisa do dinheiro das entrevistas ou então está com princípios de Alzheimer.

    1. o país escassa aptidão agrícola, mesmo com chuva.
      a maior parte do solo alentejano dava 3-5 sementes só os barros de Beja podiam competir com a UE cerealífera com as suas 50 sementes.
      agora plantam canabis na zona do Alqueva.
      tive agro-pecuária que terminou em 1980 por falta de trabalhadores e porque o meu bolso emagreceu.

  2. Não fica nada bem um ex-Presidente, ou um ex-Primeiro Ministro, comentar a acção do actual titular. Mesmo que em tom de aprovação.

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