Táctica + Estratégia = Agora é que é!


Paulo Sousa,

A aterragem do paraquedista António Costa da Silva no nosso espaço público foi o mais parecido com o envio dos dois astronautas para a Estação Espacial Internacional que o nosso governo nos conseguiu oferecer.

Dizem que o senhor é que vai delinear a estratégia do país. Agora é que vai ser! Se calhar o que tínhamos até agora era apenas uma táctica, o que no fundo é a estratégia dos pobres.

Um bêbado letrado da minha terra dizia que a táctica era delineada com vinho branco e a estratégia com vinho tinto e, vendo bem, essa lógica pode explicar os ziguezaguiantes sucessos do nosso país.

Depois existem aquelas tretas chamadas formalidades democráticas. Para se ser ministro não é necessário ser-se eleito, mas é necessário ir ao palácio do PR tomar posse e assinar uns papéis.

O António Costa II O Estratego, que foi convidado pelo António Costa I O Táctico, foi dispensado de tudo isso porque o nosso regime não prevê ter estratégia alguma. Por omissão então aceita-se sem sobressaltos que o PM angarie alguém, sem esclarecer quem lhe remunera as horas gastas, se há acumulação de funções ou conflito de interesses.

E isto é normal, porque estamos em Portugal.

Seis Dias que abalaram o Médio Oriente*


João Pedro Pimenta,

Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

 

Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscado, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.

A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel cumpria o velho sonho de se reapoderar da sua capital histórica, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes muito superiores em número – formando um cerco que parecia inquebrável – e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. A Jordânia ficou na prática confinada à Transjordânia. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia continuam na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.

 

* Agradeço a inspiração à crónica da Antena 1 com o mesmo nome e sobre o mesmo assunto

A táctica e a individualidade


joaomsandre,

Ontem teve lugar o jogo que eu mais desejava ver desde meados de Janeiro. Fora nessa altura que, depois de meia época a trocar jogadores, posições e a tentar acertar agulhas com o seu melhor jogador, Luis Enrique finalmente colocou o Barcelona a jogar como parecia ser a sua intenção desde sempre e Messi voltou ao nível de melhor jogador do mundo* (de sempre).

 

Infelizmente o jogo começou logo com um problema: o Bayern jogava sem diversos jogadores essenciais. Não ter Alaba, Ribéry, Robben, Martinez ou Badstuber seria o mesmo que o Barcelona alinhar sem Alba, Neymar, Messi, Busquets ou Mascherano. Além disso tinham em Lewandovski a principal alternativa ao jogo pelos flancos consideravelmente condicionada.

 

Ignoremos para já a narrativa do regresso de Guardiola. É fascinante em si mesma, mas o meu interesse estava no jogo em si. Aquilo que não podemos ignorar é o profundo conhecimento que Guardiola tem da equipa do Barcelona (e vice-versa, inclusive pela parte do seu amigo Luis Enrique) e as suas palavras antes do jogo: se jogar ao seu melhor nível, não é possível parar Messi.

 

 

Sabendo isso Guardiola parece ter optado por tentar evitar que Messi (e Neymar e Suarez) recebesse(m) a bola. Colocou apenas três defesas para os três atacantes do Barcelona e deixou uma muralha no meio-campo para evitar que a bola espanhola chegasse ao ataque e para a manter uma vez recuperada. Era uma solução profundamente “guardiolista” a um problema insolúvel e poderia ser a resposta a um uma pergunta com rasteira: como parar um ataque imparável? Não o deixar ter a bola.

 

A solução teria possivelmente funcionado contra o Barcelona de Guardiola, mas o de Luis Enrique está confortável com bolas mais longas enviadas para as costas da defesa. Neste período inicial Neuer foi a salvação do Bayern, com algumas defesas excelentes e uma ou outra saída digna dos melhores líberos. Ao fim de 15 minutos, no entanto, O Bayern reverteu a uma defesa de quatro com tanto à-vontade, sem aparente reorientação dos jogadores que deu a impressão de ter sido essa a intenção de Guardiola desde o início.

 

Interessante para mim foi a posição inicial de Rakitić no campo. Normalmente aparece no lado direito do triângulo do Barcelona (com Iniesta na esquerda e Busquets no centro, mais recuado) mas aqui surgiu quase como médio direito, muito encostado à linha. Em contrapartida, Messi aparecia mais no centro que o normal, quase em posição de “número 10”, numa óbvia tentativa de fugir a Rafinha e pressionar Alonso.

 

Com quatro jogadores na defesa do Bayern, o jogo tornou-se mais equilibrado e dependeu mais das individualidades. Messi voltou à direita e baixou um pouco o ritmo (o que, com ele, é sempre relativo) enquanto que Luis Enrique decidiu fazer avançar os laterais, Dani Alves e Jordi Alba, para dar largura ao jogo e sobrecarregar os laterais do Bayern. A resposta de Guardiola foi a de colocar Lewandovski e Müller nas alas, para restringir esses movimentos. Foi devido a esse movimento que Müller conseguiu cruzar para um Lewandovski falhar isolado a emenda em frente a Ter Stegen após os centrais do Barcelona se terem movimentado para compensar o buraco na esquerda da sua defesa.

 

Por esta altura já Rakitić tinha voltado mais para o meio e Messi procurado a liberdade do flanco. Luis Enrique reconhecia que não era possível manter o ritmo frenético dos primeiros 20 minutos e tentava controlar as operações. Era no entanto o Bayern quem parecia exercer o maior controlo, algo que se tornou ainda mais aparente no início da segunda parte. Nesta altura o Bayern aparecia mais pressionante e mais em cima do Barcelona. Havia no entanto sempre alguma coisa que falhava: ou os passes eram demasiado lentos, ou os jogadores não aceleravam para o espaço ou acabava por faltar alguém no centro, com Lewandovski e Müller a descaírem para as alas. As alas funcionavam para além disso mal porque sem extremos dignos desse nome, Bernat e Rafinha deveriam oferecer largura ao Bayern. Mas com Messi e Neymar em campo não o podiam fazer.

 

De certa forma as tácticas reflectiam-se mutuamente. O Bayern colocava avançados na ala para controlar os laterais adversários e o Barcelona fazia o mesmo (embora neste caso seja o caso habitual). A maior diferença estava no “terceiro elemento”. Em Suarez o Barcelona tinha uma presença constante no centro. Já o Bayern optava por colocar o seu no meio campo para aumentar o controlo e melhorar a circulação de bola. E aqui residiu o maior problema para o Bayern: se a táctica em si era sã, sem jogadores capazes de vir detrás e chegar à área em condições e finalizar jogadas (como Thiago fez no primeiro golo contro o FC Porto) o Bayern controlava mas não ameaçava. Com este Barcelona versão Enrique capaz de defender melhor as bolas paradas e a oferecer perigo no contra-ataque, havia a sensação que o Bayern só marcaria de forma fortuita.

 

Quando chegou o golo dava no entanto a sensação que o Barcelona estava a perder as forças. Seria normal: a batalha travava-se no meio-campo e era de 3 contra 4. Só que entretanto surgiram dois dados: Bernat provou que (ainda) não é jogador para estas andanças e perdeu a bola infantilmente e… bom, aconteceu Messi.

 

Não faz muito sentido descrever os golos em detalhe, apenas basta dizer que ofereceram o vislumbre daquilo que Messi oferece: um tiro de pé esquerdo perfeitamente colocado; um drible perfeito e um chapéu – de pé direito! – perfeito; e um timing impecável para libertar Neymar. Note-se que no segundo golo Messi deixou o melhor defesa alemão no último mundial de cu no chão e fez um chapéu aos cento e noventa e três centimetros do melhor guarda-redes do mundo.

 

Perante os dois primeiros golos Guardiola não tinha resposta. Não havia quem ele pudesse lançar de forma efectiva. Götze anda apático e os restantes jogadores eram ou demasiado jovens ou estão lesionados. Já Luis Enrique refrescou o meio-campo e defesa e geriu o jogo. O terceiro golo provavelmente terá matado o Bayern. Tendo que marcar pelo menos 3 em Munique abrir-se-à aos contra-ataques e, com Messi nesta forma, estará a pedir para ser demolido.

 

A minha expectativa para o jogo era essencialmente para ver como o jogo táctico se desenrolaria. Não fiquei desiludido. Numa partida que, no entanto, foi decidida por brilhantismo individual, fiquei com pena que as do Bayern não estivessem presentes. Agora fico com esperanças que a Juventus chegue a Berlim para ver o que Allegri, outro excelente estratega, poderá fazer para conter os espanhóis.

 

* – sim, considero Messi o melhor jogador do mundo. Esta avaliação não é dependente de forma ou anos, antes daquilo que ele oferece à equipa. Cristiano Ronaldo é excepcional mas não está ao mesmo nível, apesar de ser notório que é o único que pode ser invocado naquele universo. A conversão de ambos é também fascinante – Ronaldo em ponta de lança quase clássico e Messi em organizador de jogo (a partir da direita). Há pretendentes aos tronos, mas ainda demorará muito até que estes monstros os deixem à espera de quem lhes suceda.

 

Análises tácticas (1)


joaomsandre,

Manchester City – Barcelona: primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões

 

Ontem teve lugar um dos jogos que mais interesse me suscitava nesta edição da Liga dos Campeões: Manchester City – Barcelona. Tínhamos frente a frente duas equipas que gostam de ter a bola nos pés, que atacam imenso (as mais concretizadoras desta edição da LdC) e com o extra de a equipa inglesa seguir os planos do Barcelona, com três espanhóis e um ex-Barcelona no onze inicial, além de uma estrutura do futebol decalcada do Barcelona, incluindo dois directores que ajudaram a criar o actual sistema do Camp Nou. Estavam, além disso, dois treinadores interessantes nos bancos: Manuel Pellegrini, que soube levar algum do perfume do tiki-taka para Inglaterra, e Gerardo “Tata” Martino, que tentou introduzir um jogo algo mais directo no futebol do Barcelona.

 

O Barcelona apresentou-se no sistema esperado: a defesa habitual, três médios para o carrossel do meio-campo, dois homens nas alas e Messi em todo o lado. Claro que isto era o desenho no papel, a dinâmica era diferente. Iniesta descia do flanco esquerdo para o meio campo para ajudar na circulação de bola, deixando Jordi Alba subir. Na direita Alexis Sánchez corria frequentemente na direcção da baliza, criando espaço na direita para onde flectia Messi ou ocupando os laterais deixando o mesmo Messi cair para mais perto do meio-campo. Teoricamente Dani Alves também subiria no flanco para ocupar os espaços vazios.

 

O Manchester City, que costuma apresentar-se em 4-4-2 com os médios laterais a flectir para o centro, apresentou-se antes em 4-2-3-1, com David Silva mais no centro, Juan Navas a prender Alba e Kolarov a ajudar Clichy contra Alves. No meio, Fernandinho ia-se posicionando para cortar linhas de passe e Touré pressionava o jogador que estivesse mais próximo. Na defesa Kompany fazia as dobras  e Demichelis subia com Messi, tentando antecipar os passes e evitando que este se virasse na direcção da baliza. Depois havia a tentativa de usar a força (e forma) de Álvaro Negredo para criar problemas à defesa do Barcelona.

 

Na primeira parte o sistema funcionou muito bem. O Man City soube conter o Barcelona e foi ocasionalmente criando dificuldades à defesa do Barcelona. A principal dificuldade esteve em David Silva, que esteve algo perdido, caindo frequentemente nas alas em busca de alguém com quem trocar a bola ou ficando isolado entre o meio campo e o ataque. O Barcelona, não arriscando fazer avançar os laterais devido ao risco de ficarem expostos contra jogadores rápidos e energéticos, ficava sem largura e via os espaços reduzidos. Apenas Iniesta parecia saber desembaraçar-se.

 

A segunda parte começou da mesma maneira, mas uma perda de bola do Manchester City deixou Messi a correr em direcção à baliza e Demichelis acabou por o ceifar. A falta foi indiscutível, o cartão vermelho também, já o penalti poderia não ter sido dado (a falta terá sido feita ainda antes da linha), mas as regras são para beneficiar o atacante em caso de dúvida.

 

Depois do vermelho as trocas tácticas de Pellegrini eram óbvias: mudou para um 4-4-1 com Silva e Nasri nas alas e a flectir para o centro. Precisava de controlar o jogo quando em posse da bola e necessitava de criatividade no ataque. O problema é que o Barcelona decidiu ir congelando o jogo (um golo fora vale muito) e ao retirar dois alas passou a deixar Alves e Alba subir à vontade no terreno, deixando o Barcelona, em posse de bola, a jogar numa espécie de 3-5-2, com Iniesta mais médio que ala e Messi e Sánchez a jogar como avançados.

 

Verdade seja dita que o Man City não se ressentiu demasiado, mas o Barcelona também não os testou em excesso. Só com a entrada de Neymar, um jogador muito dinâmico e com instintos mais atacantes que controladores, o Barcelona passou a criar espaços, especialmente como para o segundo golo, onde se viu a falta de alguém para apoiar Clichy, que ficou desamparado e acabou por deixar Alves ficar na cara de Hart.

 

Ainda que seja difícil imaginar o Barcelona a perder a eliminatória, a segunda mão não será fácil. O Man City irá certamente apresentar-se muito atacante e a jogar um futebol mais físico. Se tiverem um árbitro que goste de deixar jogar e conseguirem marcar um golo nos primeiros 20 minutos, o jogo pode tornar-se altamente interessante. O risco será naturalmente que abram espaços na defesa mas, depois do jogo de ontem, não terão muito a perder.

 

Nota para um comentário na TVI: a certa altura o comentador diz que o Barcelona se vê reduzido a passes longos, algo muito pouco típico. Este comentário demonstrou o pouco que o comentador sabia do futebol do Barcelona deste ano. Martino tem pedido aos seus jogadores, especialmente Piqué, para fazerem passes longos para as alas, como forma de variarem o jogo e evitarem o estilo de pressão com que o Bayern os sufocou nas meias-finais do ano passado. Não é preciso saber muito de futebol, basta ver um jogo ou outro.