O elo perdido das epístolas socráticas


Rui Rocha,

Com tanta carta, artigo, entrevista escrita e depoimento, já houve mais do que oportunidade para informar quanto é que o amigão emprestou. Seiscentos mil? Um milhão? Dez milhões? Vinte? É mesmo uma pena, para não dizer que tem um óbvio significado sobre a consistência da linha de defesa que adoptou, que no intervalo dos protestos de inocência, dos ataques à investigação e da prosápia sobre a intenção política do processo, Sócrates ainda não tenha encontrado duas linhas para esclarecer isto. 

A mulher de Sócrates


Rui Rocha,

Não é surpresa para ninguém. A mulher de Sócrates sempre foi conhecida pela sua natureza verborreica, irascível, desabrida e despeitada. Conta-se que, em determinada ocasião, o casal terá mantido mais uma violenta discussão.  Sócrates, cansado, terá decidido sentar-se nos degraus exteriores da casa que partilhavam. Logo de seguida, a sua consorte, que ainda não desabafara tudo, despejou-lhe em cima uma bacia de água suja perante o espanto da vizinhança e dos transeuntes. Perante tal ofensa, Sócrates manteve, todavia, uma calma surpreendente e terá comentado: depois de tanta trovoada, é natural que chova. Convém aqui esclarecer, não vá provocar-se algum mal-entendido, que este episódio conjugal diz respeito ao casal constituído por Sócrates e Xantipa e ocorreu na Grécia há milhares de anos. Que a ex-mulher de outro Sócrates revele por estes dias idêntico mau feitio só prova que Marx estava certo: a história repete-se como farsa. E o acto de contrição desta Xantipa lusitana só vem reforçar a linha de fina ironia de toda a situação. Ela penitencia-se. Ele mantém-se penitenciário.

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