Não há decisão racional que justifique o voto em Sócrates


Rui Rocha,

Há eleitores que são contra o regime, o sistema ou a generalidade dos partidos, ou que consideram todas estas questões indiferentes. Para estes, a escolha racional é a abstenção. Um outro grupo não está nestas circunstâncias mas, conjunturalmente, não encontra resposta nas propostas eleitorais. Nesta caso, a decisão racional é o voto branco ou nulo. Para que esta escolha seja esclarecida, é preciso que os eleitores saibam que o sistema trata indistintamente estas duas situações e que nenhuma delas conta para o apuramento do resultado eleitoral. A partir daqui, a eleição de domingo apresenta uma característica especial. Para os eleitores que pretendem que o voto conte para o apuramento do resultado eleitoral, existe uma única pergunta fundamental que deve ser respondida: deve Portugal cumprir ou não o acordo assumido com a troika? Tudo o resto, nas actuais circunstâncias, deve ser esclarecido depois. Para os que entendem que não, a decisão racional exclui três partidos: PS, PSD e CDS. Para os que entendem que sim, resta optar por um deles (deixo de fora da análise os partidos sem representação parlamentar pois que tal não prejudica a defesa da tese). Ora, esta opção deve fazer-se a partir de uma avaliação do passado e de uma posição sobre o futuro. No que diz respeito ao passado, o aspecto fundamental a considerar é a governação de Sócrates. Dispenso-me de comentários relativamente a tudo aquilo que pode ser traduzido em números (dívida, desemprego…). Eles falam por si. Foco-me, por isso, em aspectos qualitativos. Neste particular, a governação de Sócrates, baseada na mentira, na ocultação, na manipulação estatística, no adiamento de decisões urgentes, em promessas feitas para nunca serem cumpridas, no facilitismo e na elisão da responsabilidade, representou um retrocesso civilizacional para o país. Tal bastaria para eliminar este PS do âmbito das decisões racionais. Deixemos, todavia, que seja ainda submetido ao teste do futuro. A pergunta será então qual destes três partidos está em melhores condições para cumprir aquilo a que se vinculou. E, mais uma vez, as posições de José Sócrates ao longo da campanha deixam-no na pior posição. Quem assina um compromisso de redução substancial da TSU e vem depois dizer que tem dúvidas sobre o assunto não merece qualquer credibilidade. Existem, assim, várias soluções e caminhos ao dispor dos eleitores. Nenhum deles leva, racionalmente, ao voto em José Sócrates. Por isso, a única forma de decidir pelo PS é prescindir de toda e qualquer racionalidade.

O meu voto.


vidabreve,

Podemos convidar a ruína e elevar o cinismo a uma arte menor, mas só um país com uma doença moral profunda reelegerá Sócrates. Isto é importante, porque é a minha única certeza.

 

Como o meu campo ideológico natural corresponde à direita do PS, e como esse campo foi sequestrado pelo primeiro-ministro — um primeiro-ministro que traiu quase tudo em que acredito — restar-me-ia, em condições normais, votar no Bloco de Esquerda ou no PSD. Não vai acontecer.

 

Não votarei no Bloco, porque foi um aliado objectivo dos socialistas. Em momento algum o partido de Louçã denunciou o endividamento galopante ou o delírio das obras do regime — pelo contrário, apoiou-o muito para além do bom senso. Ainda hoje, em campanha, o BE dirige tantos ataques à direita como ao partido que durante seis anos nos conduziu à miséria. Eis uma estranha forma de responsabilização.

 

Não votarei no PSD porque há um excesso de alegria entre os social-democratas. A alegria de quem vendeu a alma por uns patacos e agora rejubila perante a perspectiva, auspiciosa, de criar dois ou três milhões de pobres. Este PSD despreza os mais fracos, os mais velhos e os que não se safaram. Um partido assim não merece o meu voto.

 

De resto: preferiria vestir calças vermelhas e calçar sapatos com berloques a eleger Paulo Portas. A demagogia deve ser limitada pelo pudor, o pudor deve subordinar-se a princípios e os princípios não são uma merda que um tipo enrole ao pescoço para exibir com aisance entre retratos de peixeiras e coquetéis no Estoril. A direita que tenha juízo.

 

Sobra o PCP? Não, não sobra. Mas respeito a devoção autêntica dos comunistas à gente humilde, e terão o meu apoio nas autarquias.

 

Em 2011, o ano em que eu mais queria que o meu voto contasse, vou votar em branco. É assim desde 2005, e já estou muito, muito farto.

O debate e a cassete


discutindoopinioes,

Passos Coelho ganhou o debate de ontem. O lado surpreendente disto, eu não o explico com as virtudes que atribuo a um bom discurso político, virtudes como a argumentação coerente e a clareza. Passos Coelho, tendo sido eficaz na enumeração dos factos que os argumentos do adversário pretendiam negar, ganhou porque já todos sabíamos como Sócrates iria responder às acusações. Não houve nada de novo. Todos conhecemos de cor a narrativa que inclui a crise internacional, o mau momento para o chumbo do PEC, a falta de responsabilidade atribuída aos outros partidos e o comovente eu dei o meu melhor. Por outro lado, não deixa de ser estranho que, neste e noutros debates, o líder do PSD mostrasse alguma dificuldade em defender certos pontos do seu programa. Fica a sensação de que Passos Coelho está desconfortável quando lhe é exigido que entre na discussão ideológica. É pena.

Já vai sendo tempo de aprender


eventhorizon,

É também por isto – e para ver se o povo português mete na cabeça, de uma vez por todas, que nas Legislativas não vota no Sócrates, no Passos Coelho ou noutro tipo qualquer, mas nos deputados que o vão representar na Assembleia da República – que seria muito interessante que o PS até fosse o partido mais votado a 5 de Junho, mas que fosse empossado um governo maioritário PSD+CDS. 
Evidentemente que, dado o que foram os seis anos de Sócrates, o PSD de Passos Coelho tinha a obrigação de sozinho conseguir maioria absoluta, mas isso seria pedir demasiado à actual direcção do partido.