
Uma deslocação a Cuba, para um leitor fiel de Ernest Hemingway, fica incompleta sem a visita à antiga propriedade do escritor, a Finca Vigía, 18km a sueste da capital, na aldeia de San Francisco de Paula. Hemingway viveu aqui mais de 20 anos, entre 1939 e 1960: nenhuma habitação o cativou tanto como este casarão inspirado na arquitectura colonial espanhola, no alto de uma colina verdejante.
O escritor já conhecia Cuba desde 1928. Mas só se deixou fascinar pela Finca onze anos mais tarde, quando escrevia o romance Por Quem os Sinos Dobram no quarto 511 do hotel Ambos Mundos, no coração da velha Havana. Ele e a terceira mulher, Martha Gellhorn, alugaram-na por cem dólares mensais a um industrial americano estabelecido na ilha. Em Dezembro de 1940, tornou-se proprietário da Finca: os primeiros direitos de autor que lhe rendeu Por Quem os Sinos Dobram, um dos romances de maior sucesso da década, permitiram-lhe dar este passo.

Hemingway era feliz em Cuba, onde escreveu a obra que lhe deu acesso directo ao Pulitzer e ao Nobel, além de lhe consolidar a fama: O Velho e o Mar. Quando não estava na Finca ou no Floridita, o seu bar favorito, encontrava-se a bordo do seu iate Pilar, em épicas jornadas de pescaria ao largo de Cuba. O Pilar está hoje nos jardim da elegante residência, junto à piscina onde Ava Gardner gostava de nadar nua. A casa, de piso térreo, contém os livros, as revistas e até as bebidas do escritor. Dir-se-ia que ele e Mary, a quarta mulher, saíram para um fim de semana prolongado. Na parede do WC, também repleto de livros, vêem-se anotações nítidas, a lápis: são as flutuações diárias do peso registadas meticulosamente por um Hemingway preocupado com a linha. Há um edifício anexo, construído posteriormente, onde pernoitaram Marlene Dietrich, Ingrid Bergman, Spencer Tracy, Gary Cooper e Sartre, entre outros convidados. E uma torre de três pisos, que Mary mandou construir para o marido poder escrever com tranquilidade. Do alto, avista-se um panorama soberbo de Havana e do mar das Caraíbas.
Esta propriedade pertence hoje ao Estado cubano, que a transformou em casa-museu. Foi confiscada poucos dias após o suicídio do escritor, em Julho de 1961. Às ordens de Fidel Castro.
Hemingway e Fidel encontraram-se uma única vez, durante um concurso de pesca. Foi em Maio de 1959, antes de o dirigente cubano se proclamar comunista. Castro ganhou o concurso e o escritor acedeu a entregar-lhe o troféu. O conjunto de fotos que registaram esse encontro está hoje em destaque no melhor restaurante de Cojímar, a aldeia piscatória onde Hemingway costumava atracar o seu barco. Fidel confessaria mais tarde que lia Por Quem os Sinos Dobram na Sierra Maestra: “Ensinou-nos muito sobre a táctica de guerrilha.”
Os biógrafos do autor de Adeus às Armas garantem que a crescente hostilidade do regime comunista cubano apressou a deterioração do estado de saúde de Hemingway, que se vira forçado a abandonar a Finca no Verão de 1960, ano e meio após a subida de Castro ao poder. Ainda assim, para os seus habituais padrões, o ditador foi generoso com a viúva:
deixou-a levar jóias, roupas, 25 livros que o casal mais estimava, alguns quadros (A Quinta, de Miró, Monumento ao Trabalho, de Paul Klee, O Guitarrista e O Toureiro, de Juan Gris) e todos os manuscritos de Hemingway depositados num cofre-forte de um banco de Havana. Para trás ficaram a casa, o iate e mais de dez mil livros, tornados ‘propriedade’ do Estado cubano.
Amarga ironia: o autor simpatizara com a causa comunista na Guerra Civil de Espanha e saudara efusivamente o derrube da ditadura de Fulgencio Batista em Cuba sem imaginar que viria a ser esbulhado pelo castrismo. Do mal o menos: 48 anos depois, a Finca Vigía está bem conservada. De muito poucos edifícios na ilha se pode dizer o mesmo.
Há quem considere Hemingway politicamente ingénuo. A sua relação com a Cuba castrista é um exemplo disso. Dez meses após a tomada do poder por Castro, em Novembro de 1959, declarou aos jornalistas, no aeroporto de Havana, que a revolução fora o melhor acontecimento de sempre em Cuba. E em Fevereiro de 1960 recebeu na Quinta Vigía, durante duas horas, o ministro soviético do Comércio, Anastas Mikoyan, que lhe ofereceu alguns dos seus livros editados em russo (sem pagamento dos direitos de autor). Factos que lhe valeram o corte de relações com vários amigos cubanos ferozmente anticastristas. Nem isso lhe facilitou a permanência em Cuba: em Julho de 1960 partiu discretamente, sem nunca mais regressar. Não voltaria a falar de Fidel em público.
Havana e Washington cortaram relações diplomáticas seis meses depois. Até hoje.
Fotos:
1. A residência da Quinta Vigía, onde Hemingway viveu entre 1939 e 1960. Confiscada por Fidel Castro em Julho de 1961, é hoje uma casa-museu, propriedade do Estado cubano.
2. Hemingway na varanda da sua casa cubana.
3. Único encontro entre o escritor e Castro, em Maio de 1959.
4. Capa da Life (1952), com o escritor em Cojímar, onde tinha ancorado o seu iate, Pilar, e que serviu de cenário para O Velho e o Mar.
5. A sala de estar da mansão. Os objectos foram cuidadosamente preservados. Como se Ernest e a mulher, Mary, tivessem saído só por uns dias.