Heróis e Afinadores de Piano


lauraramos,

Ninguém no seu juízo perfeito prefere um Político a um Homem Bom.

 

Mas ainda que a desconfiança pelos profissionais da res publica nos roa, todos precisamos de poder avaliar o potencial político concreto de um candidato: o que fez; como fez; que valores defendeu no terreno, na hora H; como se posicionou nos momentos cruciais e nas pequenas ou grandes querelas nacionais.

 

Em cada round das presidenciais temos este fenómeno: cai-nos do céu um romântico empedernido, um poeta do verbo ou um poeta de causas, como se o topo do Estado fosse um espaço não qualificado, um porto franco, uma superação de si próprio.

Desta vez, desgraçadamente, foi o missionário que acordou um dia e, em mais um arroubo de altruísmo,  resolveu passar a considerar Portugal a sua próxima obra humanitária. Ai de nós…

 

Nisto, não há que hesitar. Há as possibilidades. E as probabilidades eleitorais.

Falamos de coisas diferentes, porque o cálculo de probabilidade convoca já a ideia de acção, de moção viável (apenas nos fixamos na avaliação do lance).

Mas o cálculo da possibilidade remete-nos para um estado anterior, que é – ainda- o da mera aptidão para agir, para mover. Para, politicamente, ser.

 

Na sua indiscutível vocação universal, Fernando Nobre confunde tudo. Não tem cultura política. Define metas que não estão ao alcance de um Presidente da República. Ilude-se a si próprio e ao eleitorado quando faz do cargo a que se candidata aquilo que não pode ser. Quando acredita que o Estado português é um permanente estado de emergência, onde a legitimidade substitui a legalidade e a salvação se pratica por imperativo ético, num irreprimível exercício de heroicidade.

Quando diz, indignado, que «ainda vivemos nessa coisa do século passado», a propósito da sua não definição entre direita ou esquerda, o candidato devia lembrar-se que esta coisa dos destinos políticos espontâneos e impreparados é que, é –  sim, justamente -, um fenómeno atávico e do século passado.

 

Portugal não convoca heróis para a Presidência. Convoca, sim, um afinador de pianos.

 

Nada a fazer…

 

– You’re impossible, Mr. Nobre!

Presidenciais (6)


Pedro Correia,

 

  

Debate Fernando Nobre-Manuel Alegre

 

Manuel Alegre tem uma notória dificuldade nesta campanha presidencial: os valores da “cidadania” que lhe serviram de bandeira na corrida a Belém de 2006 estão a ser hoje levantados pelo candidato que notoriamente mais o irrita. Fernando Nobre, que Alegre defrontou esta noite pela primeira vez, num frente-a-frente na TVI, faz lembrar muito o Alegre de há cinco anos: procura captar votos em vários terrenos ideológicos, proclama aos quatro ventos a “independência” como valor político supremo e assume um discurso antipoder que entra como faca em manteiga num país que vive a maior crise económica dos últimos 30 anos.

Alegre é político profissional desde 1974. Mas hoje Nobre – o amador – ultrapassou-o em profissionalismo na forma como arquitectou o debate, sem dúvida o mais interessante de todos quantos ocorreram nesta campanha. Foi contundente sem se tornar impertinente, roubou a Alegre o habitual discurso em defesa dos mais desfavorecidos e teve ainda a subtileza de citar perante o poeta que se orgulha de ter cátedra em Parma dois outros grande vultos da nossa poesia, Sophia e Torga.

“Tenho dificuldade em entender Manuel Alegre. Em 2006, dizia que Francisco Louçã é um Cavaco do avesso. Em 2007, dizia que o Governo do PS estava a destruir o estado social.” Frases de Nobre, que obrigaram Alegre a abandonar a atitude de bonomia com que se apresentou em estúdio: “Não gosto de pessoas que se apresentam com uma pretensa superioridade moral.” Ambos invocaram – significativamente – o nome de Mário Soares. Nobre caiu no erro de recordar novamente que testemunhou a tragédia de Beirute em 1982: as repetições soam mal nestes debates. Melhor andou Alegre ao deixar um rasgado elogio à “excelente prestação” de Francisco Lopes, que na véspera vencera Cavaco Silva num debate igualmente moderado por Constança Cunha e Sá na TVI. O candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não ignora que podem fazer-lhe falta os votos comunistas.

O poeta orgulha-se de conciliar hoje apoiantes do Governo e da oposição: “É bom conseguir unir dois partidos que parecem inconciliáveis.” E advertiu o seu antagonista: “Ninguém é proprietário da cidadania.” Mas foi ambíguo em questões como o apoio à recente greve geral e em momento algum do debate pareceu o Alegre dos melhores tempos – aquele que enfrentou com eficácia Mário Soares no decisivo frente-a-frente da campanha eleitoral anterior, por exemplo. Nobre mostrou-se superior ao dirigir-se a segmentos muito significativos do eleitorado que vão sofrer os efeitos do Orçamento do Estado. “Não há maior falência da nossa democracia do que a fome instalada entre nós, do que a pobreza, do que haver 300 mil idosos com reformas inferiores a 300 euros”, sublinhou.

Há cinco anos, seria Alegre a dizer isto. Nobre é o Alegre de 2011.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Alegre – Ninguém tem o monopólio da cidadania.

Nobre – Não sou pessoa para me deixar condicionar ou empurrar seja por quem for.

Alegre – Não misturemos uma candidatura presidencial com percursos de vida.

Nobre – Há cinco anos [Alegre] candidatou-se contra o candidato do seu partido. São estas incoerências que tenho dificuldade em entender.

Alegre – Conhece mal essa história. É estranho. [Nobre] parece que é mais do PS do que os próprios dirigentes do PS.

Nobre – Sou apenas dono do meu voto. Sou casado há mais de duas décadas e nem sei em quem vota a minha mulher. O voto é livre e secreto.

Alegre – Fernando Nobre entrou no sistema. É candidato, é político. Penso que não está aqui para derrubar o sistema. (…) É muito perigoso fazer o discurso antipartidos.

Nobre – Perigoso para a democracia é termos chegado à situação social a que chegámos.

Alegre– [Nobre] não tem o exclusivo da preocupação.

Nobre – Manuel Alegre sabe quanto custa um litro de leite? Sabe quanto custa um pão? Sabe quanto custa um ticket da Carris em Lisboa?

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A ‘gaffe’:

 

“Vasco Gonçalves contribuiu para a construção da nossa democracia.”

Fernando Nobre

Presidenciais (3)


Pedro Correia,

    

 

Debate Cavaco Silva-Fernando Nobre

 

Vivemos hoje melhor ou pior do que em 2006? Esta é uma pergunta crucial que os eleitores devem fazer no próximo dia 23 de Janeiro. Uma pergunta a que Fernando Nobre respondeu esta noite, no frente-a-frente que manteve na SIC com Aníbal Cavaco Silva. “A competência reconhecida do professor Cavaco Silva na economia e finanças não impediu que estejamos muito pior do que há cinco anos. O desemprego quase duplicou. A paz social está explosiva”, denunciou o médico independente que concorre a Belém, socorrendo-se para o efeito do diagnóstico elaborado pelo cardeal-patriarca de Lisboa. Uma piscadela de olho óbvia ao eleitorado católico por parte de quem não tem dúvidas: “O orçamento para 2011 é mau.”

Cavaco Silva, muito na defensiva, quase parecia o Presidente escolhido por José Sócrates. Justificou o Orçamento do Estado e algumas das políticas governamentais, disse apostar no sector da exportação e na “inovação tecnológica” (bandeiras do Governo socialista) e sobretudo aproveitou este debate bem conduzido por Clara de Sousa para recordar aos portugueses quais são os poderes do Chefe do Estado previstos na Constituição da República – numa óptica restritiva, aliás em consonância com o seu mandato. O problema, para ele, é que praticamente não conseguiu ir além disto.

Nobre foi claro, incisivo, objectivo e tão contundente quanto é de esperar de um candidato que defronta o favorito numa corrida presidencial: nunca é de mais lembrar a certos “analistas” que uma campanha eleitoral não se compara ao chá das cinco nas vicentinas. “O Presidente da República não é um mero adorno. Não se vai para Presidente da República para se ser um vaso de flores”, afirmou o médico, por quem Cavaco afirmou duas vezes ter “todo o respeito”. O actual Chefe do Estado criticou o “pessimismo” de Nobre. Mas reconheceu haver “dois grandes problemas na sociedade portuguesa: o flagelo do desemprego e o elevado endividamento externo”. Conclusão do rival: “as competências tecnico-científicas” de Cavaco Silva não foram escutadas.

A multidão de desempregados em Portugal reviu-se certamente nas palavras de Nobre, que comparou o ministro das Finanças a um médico que chegasse a um doente em estado grave e lhe dissesse: “O senhor está com essa maleita. Vou dar-lhe um medicamento que não o vai curar, pode agravar o seu estado e até pode matá-lo. Mas tem que o tomar.”

Referia-se ao Orçamento de Estado para 2011. O de Sócrates. E o de Cavaco também. No final, dei por mim a perguntar: se houvesse apenas estes dois candidatos na corrida a Belém, em qual deles o actual primeiro-ministro votaria? Não tenho a menor dúvida na resposta.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Nobre – Cavaco Silva não enviou mensagens específicas à Assembleia da República sobre o cenário dramático para que estamos a caminhar.

Cavaco – É preciso esclarecer qual é o papel do Presidente da República nos termos da Constituição.

Nobre – Este orçamento penaliza de forma trágica centenas de milhares de portugueses ao congelar as reformas sociais, ao cortar no rendimento social de inserção e no complemento social para idosos.

Cavaco – Empenhei-me muito para que fosse aprovado o Orçamento para 2011.

Nobre – Este Orçamento do Estado não interessa aos desempregados de Espinho e de Santo Tirso ou à velha senhora de 80 anos que encontrei no mercado de Ferreira do Zêzere com uma reforma de 60 euros.

Cavaco – Eu sou um presidente muito transparente. Basta ir à página da Internet para ver tudo quanto eu digo e tudo quanto eu faço.

Nobre – Eu conheço o mundo. Neste momento da globalização, precisamos de um presidente que conheça o mundo.

Cavaco – Jurar a Constituição, para mim, é mesmo jurar.

 

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A ‘gaffe’:

 

“Se não existisse o Orçamento, Portugal encontrava-se hoje numa situação de descalabro económico e financeiro. (…) Eu nunca disse que concordava com este orçamento.”

Cavaco Silva

Presidenciais (1)


Pedro Correia,

 

  

Debate Fernando Nobre-Francisco Lopes

 

Terminou há pouco, na RTP, o primeiro debate televisivo desta campanha presidencial. Entre dois estreantes nestas andanças: Fernando Nobre e Francisco Lopes. O primeiro ganhou vantagem desde a intervenção inicial, surgindo claramente ao ataque: separou águas, incluiu o candidato comunista entre os representantes do “sistema” que diz combater e afirmou-se como o único independente de todos quantos agora correm rumo ao palácio de Belém. Para ele, este não foi um debate menor nem condenado apenas a cumprir tempo de antena.

Francisco Lopes não estava, visivelmente, preparado para lhe dar resposta. Ainda insinuou por duas vezes uma ligação do médico a Mário Soares e acusou Nobre de ter apoiado o Orçamento do Estado para 2011, considerando-o o “orçamento possível”. O adversário chamou-lhe mentiroso: o verniz estalava logo nos primeiros minutos do frente-a-frente, para surpresa da própria moderadora, Judite Sousa.

Nobre esgrimiu a independência como virtude pessoal e a sua experiência internacional enquanto médico como principal carta de recomendação perante os eleitores, referindo-se depreciativamente à “retórica” do comunista. “Eu sou frontal e directo. Não tenho medo. Não é qualquer um que esteve em Beirute em 1982. O senhor esteve?”, questionou. Lopes aludiu à “falta de coerência e de clareza” do candidato rival. Mas, claramente, não estava ginasticado para um confronto deste género: o seu adversário é o Governo, o seu cavalo de batalha é a “política de direita“. Ora Nobre não integra o Governo e nesta altura do campeonato ninguém faz a menor ideia se é de esquerda ou de direita. Talvez nem ele próprio. Paradoxalmente, isto pode constituir um trunfo eleitoral. Como, de resto, se verá.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Lopes – Sou o único candidato presidencial que teve uma posição contrária quanto à aprovação do Orçamento do Estado.

Nobre – Está a dizer uma inverdade, para não dizer uma mentira. (…) Um Presidente da República deve ser independente, livre, suprapartidário. Eu não sou candidato porque um comité central de um partido decidiu.

Lopes – A minha candidatura é uma candidatura de verdade. Não recorre à mentira. Desde os 17 anos luto pela liberdade e pela democracia.

Nobre – Eu faço política internacional há 30 anos e nos cenários mais dramáticos. O senhor já viu a pobreza extrema? Já viu corpos esmagados à sua frente? Já viu uma criança com fome a correr atrás de uma galinha que levava um bocadito de pão na boca? Fala de coisas que desconhece. É pura retórica. O senhor, que fala tanto em desemprego, já criou algum emprego?

Lopes – Eu sou originário de uma terra do interior, testemunhei a pobreza no nosso país. Enfrentei os maiores obstáculos, a que Fernando Nobre nunca se sujeitou.

Nobre – Eu sou livre, não dependo de ninguém. Não tenho experiência partidária – e ainda bem que não tenho.

Lopes – A minha candidatura é a única que não tem compromisso com as políticas actuais.

Nobre – O senhor é funcionário de um partido político há 30 anos. O senhor pertence a um sistema político perverso, caduco, ultrapassado, retórico.

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A ‘gaffe’:

 

“Em mais de 30 décadas já dignifiquei o meu país em todo o mundo.”

Fernando Nobre

Nada mais esclarecedor


Pedro Correia,

 

Li atentamente a entrevista de Fernando Nobre ao Expresso e tive de imediato a sensação que algo não batia certo. Diz ele que decidiu concorrer ao Palácio de Belém depois de ouvir durante "dois ou três meses" várias personalidades, entre elas os ex-presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares. "Falei com toda a gente, não houve nenhum sector da política portuguesa que eu não tenha abordado", diz o presidente da Assistência Médica Internacional.

Ora aqui está o que não bate certo: para quem falou com dezenas de pessoas, do CDS ao Bloco de Esquerda, é estranho ter deixado de fora Manuel Alegre. Nem sequer teve curiosidade de saber se o poeta tencionaria recandidatar-se à presidência.

Não por acaso, e com uma evidência exemplar, Alegre é praticamente o único alvo de críticas nesta entrevista. De Cavaco Silva, afirma Fernando Nobre que é "uma pessoa digna e séria, responsável",  acentuando que o "roteiro da inclusão" foi "um ponto muito positivo" do seu mandato.

Nada mais esclarecedor para início de conversa.

 

ADENDA: Leio a entrevista de Fernando Nobre à edição de hoje do i . Repete-se o padrão: elogios a Cavaco ("um homem digno, responsável e crente nas pessoas") e críticas a Alegre. Desta vez com requintes de linguagem: "Picadelas de mosquito não me importunam. Eu só reagirei se for mordido por um crocodilo." Para mais tarde recordar.