Presidenciais (1)


Pedro Correia,

 

  

Debate Fernando Nobre-Francisco Lopes

 

Terminou há pouco, na RTP, o primeiro debate televisivo desta campanha presidencial. Entre dois estreantes nestas andanças: Fernando Nobre e Francisco Lopes. O primeiro ganhou vantagem desde a intervenção inicial, surgindo claramente ao ataque: separou águas, incluiu o candidato comunista entre os representantes do “sistema” que diz combater e afirmou-se como o único independente de todos quantos agora correm rumo ao palácio de Belém. Para ele, este não foi um debate menor nem condenado apenas a cumprir tempo de antena.

Francisco Lopes não estava, visivelmente, preparado para lhe dar resposta. Ainda insinuou por duas vezes uma ligação do médico a Mário Soares e acusou Nobre de ter apoiado o Orçamento do Estado para 2011, considerando-o o “orçamento possível”. O adversário chamou-lhe mentiroso: o verniz estalava logo nos primeiros minutos do frente-a-frente, para surpresa da própria moderadora, Judite Sousa.

Nobre esgrimiu a independência como virtude pessoal e a sua experiência internacional enquanto médico como principal carta de recomendação perante os eleitores, referindo-se depreciativamente à “retórica” do comunista. “Eu sou frontal e directo. Não tenho medo. Não é qualquer um que esteve em Beirute em 1982. O senhor esteve?”, questionou. Lopes aludiu à “falta de coerência e de clareza” do candidato rival. Mas, claramente, não estava ginasticado para um confronto deste género: o seu adversário é o Governo, o seu cavalo de batalha é a “política de direita“. Ora Nobre não integra o Governo e nesta altura do campeonato ninguém faz a menor ideia se é de esquerda ou de direita. Talvez nem ele próprio. Paradoxalmente, isto pode constituir um trunfo eleitoral. Como, de resto, se verá.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Lopes – Sou o único candidato presidencial que teve uma posição contrária quanto à aprovação do Orçamento do Estado.

Nobre – Está a dizer uma inverdade, para não dizer uma mentira. (…) Um Presidente da República deve ser independente, livre, suprapartidário. Eu não sou candidato porque um comité central de um partido decidiu.

Lopes – A minha candidatura é uma candidatura de verdade. Não recorre à mentira. Desde os 17 anos luto pela liberdade e pela democracia.

Nobre – Eu faço política internacional há 30 anos e nos cenários mais dramáticos. O senhor já viu a pobreza extrema? Já viu corpos esmagados à sua frente? Já viu uma criança com fome a correr atrás de uma galinha que levava um bocadito de pão na boca? Fala de coisas que desconhece. É pura retórica. O senhor, que fala tanto em desemprego, já criou algum emprego?

Lopes – Eu sou originário de uma terra do interior, testemunhei a pobreza no nosso país. Enfrentei os maiores obstáculos, a que Fernando Nobre nunca se sujeitou.

Nobre – Eu sou livre, não dependo de ninguém. Não tenho experiência partidária – e ainda bem que não tenho.

Lopes – A minha candidatura é a única que não tem compromisso com as políticas actuais.

Nobre – O senhor é funcionário de um partido político há 30 anos. O senhor pertence a um sistema político perverso, caduco, ultrapassado, retórico.

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A ‘gaffe’:

 

“Em mais de 30 décadas já dignifiquei o meu país em todo o mundo.”

Fernando Nobre

40 comentários em “Presidenciais (1)”

  1. Também me pareceu que a cassete com o discurso habitual do camarada em questão não estava preparada para alguém que não se coloca dentro do inimigo do costume.
    Mesmo afirmando ser uma candidatura dele, Francisco Lopes fala sempre no plural… nós achamos, nós acreditamos…

    1. Achei interessante este primeiro debate, Daniel. Nada monótono. Ao contrário do que alguns julgariam, não foram dois monólogos sobrepostos, cada qual a falar para seu canto. Mérito de Fernando Nobre, que puxou o rival para o centro do ringue. É isso que se espera de um debate político. Polémica em vez de chazinho com torradas.

  2. Mas Fernando Nobre candidata-se a Presidente da República ou ao prémio Nobel da paz?
    É que não consigo perceber a relevância do seu percurso na AMI, muito meritório sem dúvida alguma, para o cargo de mais alto magistrado da nação.
    Até dizem que é mesmo um cargo político e tudo.

    E aquela da criança a correr atrás da galinha para lhe tirar o bocado de pão do bico é de antologia…

    Mas se o Pedro Correia acha que foi ele que ganhou o debate, quem sou eu.

    1. Se Fernando Nobre se candidata ao Nobel da Paz, Francisco Lopes candidata-se à Medalha Lenine. Respeitando a sua opinião em contrário, acho preferível a primeira distinção. De longe.

      1. A questão é que se ajudar tanto os miseráveis e oprimidos por esse Mundo fora é qualificação para se ser Presidente da República (é esse o único argumento dele), então a Madre Teresa Calcutá devia ter-se candidatado a Secretário Geral da ONU.

        A medalha Lenine passa-me um bocado ao lado, não sou comunista e vou votar no Manuel Alegre (pela segunda vez).

        Já agora, acho mesmo que o Fernando Nobre podia ganhar o Nobel, porque não? A AMI tem estatuto internacional para isso.
        Agora se isso é argumento para esta eleição…

        1. Não imagino a Madre Teresa a encostar o candidato comunista às cordas, como Nobre fez. Bastou aquela pergunta: «O senhor, que fala tanto em desemprego, já criou algum emprego?»
          KO técnico.

          1. Se vamos por aí o Belmiro de Azevedo tinha 90% dos votos.

            Ramalho Eanes, Mario Soares, Jorge Sampaio criaram algum emprego?
            Cavaco Silva criou algum emprego?
            Manuel Alegre criou algum emprego?
            Só se for o Defensor de Moura que terá arranjado tachos a alguns boys lá da concelhia.

            Pensava que esta eleição seria uma luta política, mas se preferem discutir qual o que viu maior miséria e fez mais em prol da humanidade…

            Sem querer ofender ninguém, acho que Fernando Nobre tem tantas condições para ser PR como o Tiririca tem para ser deputado estadual ou lá que é.

          2. Essa agora. Então quem criou empregos e tem 30 anos de dedicação à causa pública não há-de pôr isso em confronto com um adversário que nada mais fez durante todo esse tempo do que ser funcionário de um partido? Se Nobre se orgulha do que fez para que há-de esconder o seu currículo? O tempo do temor reverencial perante os “únicos representantes da verdadeira esquerda” acabou há muito.

          3. “O tempo do temor reverencial perante os “únicos representantes da verdadeira esquerda” acabou há muito. “

            Outro KO Técnico…

            Excelente Post, obrigado!

        2. Pedro Almeida permita-me que lhe faça uma questão:
          Você sente-se de consciência tranquila em votar num homem que, numa entrevista voluntária ao expresso, disse que: “…iniciou a sua vida sexual com uma empregada de casa dele…” e quando foi questionado (lamentavelmente uma única vez), se ele achava uma “coisa” correcta ele respondeu “…que sim porque naquela altura era normal as pessoas assim fazerem…” (as pessoas da laia dele com certeza)
          Pelo nome vejo que é um homem mas presumo que tenha mãe, alguma irmã, mulher, filha… amigas… Nem por elas esta afirmação o enoja????

          1. Sim, sim, o gajo é um tarado sexual, faltou à tropa, traíu a pátria, escreve mal, é gordo e para cúmulo dos cúmulos cheira mal da boca.

            HAJA PACIÊNCIA!!!

  3. Não vi, mas, tendo em conta o que o Pedro aqui reproduz, teremos candidato? Alternativo ao branco? Veremos se usa da mesma acutilância para com os restantes candidatos. Um homem de tomates pode perder, é até o mais certo, mas terá o meu respeito e, talvez, o dos portugueses. Enoja-me esta paz podre, receosa dos “mercados”.

    1. A mim, meu caro, enjoam-me os comentadores sempre escandalizados com a «falta de ideias», implorando «debates». Quando os debates acontecem, e as ideias surgem, mudam de registo. Indignam-se com o «discurso utópico» e a «guerrilha verbal». Arrepiam-se com o confronto. E apelam ao «consenso» bem comportado. Como se uma campanha eleitoral se fizesse de consensos e fosse uma espécie de chá das vicentinas…

  4. Só me parece que Nobre lá para o fim já repetia demasiado o currículo e a frase “sou um homem livre e independente”. Mas não deu tréguas a Lopes, que enfiado no discurso gravado na cassete, não sabia improvisar. Aquela da sua marca ideológica ser uma garantia de “liberdade” é demais. E será que o PC não percebe que trabalhadores é um conceito muitíssimo mais amplo do que nos anos 30?

    1. Penso o mesmo. Gostei deste debate inaugural, sem paninhos quente nem conversa mole. Mérito de Nobre, que desmontou a cassete de Lopes, forçando-o a abandonar o guião. O PCP fala para um universo cada vez mais restrito e residual, sem fazer um esforço mínimo de adaptação a novos eleitores.

      1. “O PCP fala para um universo cada vez mais restrito e residual”

        Tem a certeza?

        Eu há trinta anos que ouço comentar que o universo de ouvintes e votantes do PCP tenderá inexoravelmente e rapidamente a esvaziar-se, mas ainda pouco vi nesse sentido.

        Quero dizer, o PCP nas primeiras eleições teve 12% de votos, hoje tem 8%, a diferença é assim tanta? Não me parece. Nem me parece que se possa descrever 8% dos eleitores como “universo restrito e residual”.

        1. Peder um terço do eleitorado em 30 anos não é pouco? Perder 70% dos deputados e dos autarcas que já teve não é pouco? Não vencer uma eleição nacional em 30 anos não é pouco? Não fazer parte de uma única solução governativa não é pouco?

  5. Excelente análise de um debate que valeu bem a pena, por causa de Fernande Nobre. Votei em Manuel Alegre há cinco anos (curiosamente quando ainda ocupava um dos lugares para que na minha terra fui eleito em listas do PSD), mas agora tudo parece muito diferente. Para 23 de Janeiro já pensei em ir votar em branco (ou nulo, escrevendo qualquer coisa à frente do nome do Cavaco), mas quase de certeza que votarei em Fernando Nobre.

  6. Acho pura maldade abrirem os debates com o camarada Chico Lopes a enfrentar Fernando Nobre.
    A inteligência, a cultura, a mundividência, a experiência, de um lado.
    Do outro, …portanto…..a luta, portanto,…..o grande capital, portanto, ….a política de direita, portanto,….portanto.
    Não se faz isto a um pobre inocente!!

    1. Nobre entrou bem junto do eleitorado habitual da CDU, no fundo aquele a quem se destinava em primeiro lugar este debate. Mostrou-se acima das expectativas. Lopes foi igual a si próprio. Dele é de esperar isto que revelou – e só isto.

  7. «O senhor é funcionário de um partido político há 30 anos. O senhor pertence a um sistema político perverso, caduco, ultrapassado, retórico»

    Tenho curiosidade em saber o que na prática representaria a tradução desta opinião…

      1. Se Fernando Nobre não tivesse “alargado intenções de voto” com o candidato comunista, mais valia desistir já da sua candidatura… Mas não, por todo o trabalho desenvolvido para com as causas sociais, o destino reserva-lhe um honroso terceiro lugar.

  8. Também vi o debate como o Pedro. Claro que o Fernando Nobre não é o D. Sebastião mas portou-se muito bem (gaffes e erros de português à parte) e atacou o “funcionário” por onde devia.

    A pergunta sobre a criação de emprego, que ninguém antes fez a este pessoal dos partidos, foi linda.

    Não que seja importante, mas vale talvez a pena notar que diante da pobreza absoluta que Nobre já viu, meninos que iam à escola sem sapatos não se comparam.

    E, já agora, Lopes tinha 18 anos no 25 de Abril. Que gloriosa luta anti-fascista foi a dele?

  9. Caro Pedro Correia,

    não vi o debate em directo, gravei-o e vi hoje de manhã. Mas antes, sabendo que já estaria aqui no blogue, vim ler o seu texto. Depois de ver o debate só posso concluir que não vimos o mesmo debate. Costumo concordar consigo na análise de debates mas neste não acho que Nobre tenha ganho. E explico.

    Nobre teve uma atitude demasiado altiva e arrogante, não foi capaz de responder às contradições do seu discurso na pré-campanha apontadas por Lopes. Como não está muito habituado a isto, atacou demasiado pessoalmente e não politicamente, a sua posição anti-sistema é uma táctica mas é a única arma. A forma como desvalorizou o combate político foi, a meu ver, um erro.

    Já Francisco Lopes ganhou o debate porque soube atacar Nobre politicamente em questões concretas e deixou sem resposta o adversário em todas as perguntas – Nobre não quis (porque será?) responder se é de esquerda ou de direita. Apesar de não ser um candidato forte, de ter um discurso muito preso ao que seria de esperar, não comprometeu e saiu-se razoavelmente bem. Contra adversários políticos terá, a meu ver, mais dificuldade.

    Estranho não haver referência no texto à determinação de Francisco Lopes no final do debate exigindo o seu minuto.

    1. Meu caro,
      De facto, vimos debates diferentes. Naquele que eu vi, quem começou por jogar ao ataque e assim se manteve até ao fim foi Nobre, não Lopes. Aquele que jogou uma cartada importante perante eleitores desiludidos com a política – a cartada da independência e da equidistância face aos estados-maiores partidários – foi Nobre, não Lopes. O candidato comunista foi rotineiro e previsível, mal se afastou do guião e falou apenas para aqueles que já estão conquistados pelo PCP. Nobre surpreendeu: não estamos habituados a esta linguagem “transversal” nos debates políticos. Ou muito me engano ou Nobre representará na eleição de 2011 algo semelhante ao que Alegre representou na de 2006.
      A nota final constituiu uma falha clamorosa da moderação do debate. Lopes foi firme e esteve bem. Mas não quero ser exaustivo na análise destes debates para evitar que os textos fiquem demasiado longos: prefiro concentrar-me nos candidatos do que em quem modera, mal ou bem.

    1. Desta vez não estamos de acordo, Pedro. Só depois podemos dizer se os debates tinham ou não interesse. Não antes. Seria muito pior se não houvesse debates e os portugueses fossem votar dia 23 de Janeiro sem terem oportunidade de ouvirem os candidatos confrontarem opiniões sobre os mais diversos temas.

  10. Digam o que disseram os comunistas, faço a simples pergunta: quem vai votar num indivíduo que assenta a sua ideologia política numa ditadura?
    Não vale a pena perder tempo com esses senhores, é dar-lhes publicidade gratuita.

    1. A resposta à sua pergunta é simples, Singularis: vota num candidato que assenta a sua ideologia política numa ditadura quem é adepto desse sistema. Em 23 de Janeiro veremos quantos são.

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