Diálogos pós-festivos


Pedro Correia,

 

Ele – Já estás a almoçar?

Ela – Já. Sandes de queijo.

Ele – Isso não é almoço! E o que tencionas jantar?

Ela – Linguado grelhado. É para compensar os doces que tive de comer no Natal.

Ele – Não tens nada que compensar!

Ela – No Verão tenho de caber dentro do biquini.

Ele – Mas que disparate!

Ela – Disparate é ter de comprar um biquini um número acima.

Ele – Qual é o problema de comprares um número acima? Tens de passar a comer o que eu disser.

Ela – Tu de dieta não percebes nada.

Ele – Mas dieta para quê?! Estás magra!!

Ela – Tenho barriga. E coxas para abater.

Ele – Isso é para manter!

Ela – Gajos não percebem nada de estética. Só se forem gays.

Ele – Gajos percebem de gajas.

Ela – Gajos são volátis nas avaliações estéticas. Dizem gostar de banhas mas babam-se com manequins.

Ele – Que disparate! Para que queres tu competir com manequins? Pretendes abrir alguma boutique na Rua dos Fanqueiros?

Ela – Pensando bem, hoje não me apetece linguado. Tens algo a propor?

Ele – Claro que sim. Vamos jantar ao nepalês. Achas bem?

Ela – Hum… acho. Esta conversa acabou por abrir-me o apetite.

Na festa


Teresa Ribeiro,

– Já reparaste como ela acha gracinha a tudo o que o marido diz?

– Vê-se que é feliz com ele.

– Até porque nem se preocupa em mostrá-lo.

– Quem é feliz não precisa.

– Nem quer.

– Pois, a verdadeira felicidade não se exibe.

– Às vezes até se esconde, à cause des mouches.

– E é tranquila.

– Tão tranquila.

– Deve ser por isso que ela nem rugas tem.

– É a feliz do grupo.

Diálogos literários


Pedro Correia,

 

Ela – Hoje estás tão sisudo…

Ele – Não admira, ando a ler A Peste.

Ela – Nunca leste?

Ele – Li há uns anos. Mas apeteceu-me reler.

Ela – Também li. Aliás tive a minha fase Camus, na adolescência. E O Estrangeiro é um dos livros da minha vida.

Ele – Todos os livros dele são da minha vida: O Estrangeiro, O Mito de Sísifo, A Queda, O Exílio e o Reino, O Homem Revoltado…

Ela – Só li O Estrangeiro, A Peste e O Homem Revoltado.

Ele – São livros mais para menino do que para menina.

Ela – Não. Camus é unissexo.

Ele – Recomendo-te antes a Condessa de Ségur. Que não é unissexo.

Ela – Eu a ti recomendo o Batman. Tem muitos bonecos, pouco texto e muita acção. Ideal para qualquer menino.

Ele – Não precisas de recomendar. Leio desde os oito anos. Batman, Fantasma, Mandrake. Só para meninos.

Ela – Como o Clube do Bolinha?

Ele – Isso mesmo, Luluzinha. Menina não entra.

Diálogos ideológicos


Pedro Correia,

 

Ela – Como foi o teu dia?

Ele – Menos mal. O pior é ter de aturar a brigada politicamente correcta: preciso de duplicar as minhas habituais doses de paciência.

Ela – Falas de quem?

Ele – De algumas amigas tuas. Vegetarianas. Devotas das lagartixas e das abóboras. Esquerdistas em geral e ambientalistas em particular.

Ela – Fica sabendo que se não houvesse esquerdistas, amigos dos animais e ambientalistas, o mundo seria muito pior.

Ele – Faltou-me ainda mencionar as esquimós frustradas, sempre com afrontamentos perante o “aquecimento global”.

Ela – A direita só se preocupa com dinheiro. A esquerda preocupa-se com as pessoas, os animais, o ambiente… Enfim, essas pieguices que tu tanto desprezas.

Ele – A direita preocupa-se com o dinheiro, sem o qual não se pagaria nenhuma pieguice da esquerda.

Ela – Deixa-te desses chavões e convida-me para jantar. Eu escolho um restaurante “piegas”.

Ele – Qual restaurante?

Ela – Qualquer um. Desde que seja vegetariano. Com produtos naturais.

Ele – E quem paga é aqui o cavalheiro?

Ela – Naturalmente.

Recapitulação


Bandeira,

O inspector dobrou a gabardina, poisou-a cuidadosamente sobre as costas da cadeira, encheu o peito de ar e disse, ao mesmo tempo que expirava:

«Foi o Marcelo.»

«O Marcelo, inspector…?», escandalizou-se o guarda Caetano.

«O Marcelo, Caetano.»

Tomás entrou de rompante no gabinete, corado ainda do opíparo almoço.

«Viva, inspector! Viva, Caetano!»

«O Américo, Tomás?», perguntou o inspector.

«Pensei que estava consigo.»

«Comigo? Não o vejo desde ontem. Preciso que você vá com ele e com o Caetano.»

«Fazer o quê, inspector?»

«Buscar o Marcelo», suspirou o guarda. Tomás voltou a sua incredulidade para o cívico:

«O Marcelo, Caetano?»

Subsídio independência


Teresa Ribeiro,

– Já leste isto? Metade das vagas que são oferecidas nos centros de emprego ficam por preencher.

– Sim, mas diz aqui que são empregos em que se fica a ganhar menos do que se recebe de subsídio de desemprego.

– Estás a ver? É a subsídiodependência no seu melhor.

– Subsídiodependência, nada. As pessoas recusam estes empregos porque com o que ganham ficam abaixo do limiar de pobreza.

– E achas que não conseguem viver com isso?

– Tu, conseguias?

– Eu, não. Mas essas pessoas, se quiserem, conseguem.