No 5 Dias, há quem suspire por medalhas olímpicas para a Coreia do Norte – esse paraíso da livre opinião, sem sombra de censura.
No 5 Dias, há quem suspire por medalhas olímpicas para a Coreia do Norte – esse paraíso da livre opinião, sem sombra de censura.
Actores da grupo norte-coreano Morangbong, fantasiados de personagens da Disney como Mickey Mouse, Minnie, Ursinho Pooh, Branca de Neve, Dumbo, a Bela ou o Monstro, dançaram para a cúpula do regime num grande teatro. Ao que parece, o espectáculo insere-se num plano grandioso (podia lá ser outra coisa) de Kim Jong-un para fazer uma alteração profunda no campo das artes e da literatura. A notícia deixa-me sentimentos contraditórios. A última revolução cultural de que me lembro teve as consequências que se conhecem. Por outro lado, se tudo correr pelo melhor, pode ser que ainda vejamos o camarada Bernardino Soares vestido de Pateta.
Concebo que um jornal tenha uma agenda política. Concebo que um jornal transforme as palavras em arma de arremesso ideológica. Concebo até que um jornal abdique esporadicamente do rigor da escrita em função de simpatias declaradas ou aversões indisfarçáveis. Mas entendo muito mal que o faça de forma tão ostensiva que possa levar alguns leitores a confundir esse preconceito com pura incompetência. Confesso: foi nesta hipótese que cheguei a pensar ao ler hoje as páginas 28 e 30 do Público, ambas pertencentes à secção Mundo, ambas redigidas sob critérios jornalísticos antagónicos.
Título da página 26: «Kim Jong-un, o ‘Grande Sucessor’, já é o líder supremo da Coreia do Norte». Destaque de entrada da peça: «No último dia de luto nacional por Kim Jong-il, o ‘número dois’ da hierarquia veio discursar perante milhares de pessoas para dizer que o país vai ‘transformar o pesar em força’». Reparem nos vocábulos utilizados, todos com conotação positiva ou neutra: «líder»; «supremo»; «grande», «hierarquia»; «sucessor». A notícia refere-se à Coreia do Norte, a mais feroz tirania do planeta, onde segundo informações veiculadas por organismos internacionais credíveis pelo menos um quinto da população passa fome e cerca de 200 mil pessoas estão internadas em “campos de reeducação”, privadas dos direitos fundamentais. A liberdade de expressão é inexistente neste país submetido desde a década de 40 ao totalitarismo comunista. De liberdade de imprensa nem vale a pena falar.
Ditadura? Claro que sim. Mas o termo é cuidadosamente evitado nesta página. Fica reservado para outra notícia, a que surge duas páginas adiante: «Mais 15 anos de prisão para o último ditador argentino». É uma peça curta, de apenas quatro parágrafos. Mas onde surgem três vezes as palavras «ditadura» ou «ditador». Nem faltam nela referências concretas a «crimes contra a humanidade», «tortura», «detenções» e «assassinatos» cometidos entre 1976 e 1983 na Argentina. Palavras que, por assinalável contraste, estão omitidas nos 12 parágrafos sobre a Coreia do Norte. Dois pesos, duas medidas: quem leia o longo texto sobre o “Grande Sucessor” fica apenas a saber que a Coreia do Norte “atravessa uma grave crise alimentar”, eufemismo para evitar a palavra fome.
Um ditador devia ser sempre apelidado de ditador. Mas se for um ditador de esquerda é legítimo que receba um indulto jornalístico? Deixo a pergunta à consideração de quem quiser pronunciar-se. A resposta, para mim, é óbvia.

Mais um “milagre” do Photoshop ao serviço dos ditadores: à esquerda, a foto do funeral de Kim que um free-lancer registou; à direita, a foto do mesmo momento e que as autoridades norte-coreanas distribuíram às agências noticiosas internacionais, depois de “restabelecida a ordem” por via do computador.
O processo é velho e conhecido, desde a era pré-Photoshop na União Soviética ao regime egípcio recentemente deposto. Estes retoques têm todos uma coisa em comum: são tiques que só lembram aos ditadores, que gostam sempre de experimentar se o poder os deixa apagar ou modificar a História.
Não tenho a certeza, mas parece que esta foto não é do funeral do querido ditador norte-coreano. Se fosse, aquele ciclista refractário que acabou de fugir da coluna já estaria, no momento da foto, a ser mortalmente alvejado por um agente da autoridade em julgamento supersumário feito a olho.
Ainda assim, vou falar com o camarada Bernardino Soares para tirar dúvidas.
Enquanto a natureza continua a chorar a morte de Kim Jong-il (convém recordar aqui os episódios da ave branca maior do que uma pomba que limpou a neve de uma estátua do Querido Líder, do grou que voou três vezes em redor de uma outra, das pombas que choraram meia-hora ou do ruído ensurdecedor do quebrar do gelo no monte Baekdu), coisa que aliás não é surpreendente se tivermos em conta que o nascimento do agora defunto foi anunciado por um arco-íris duplo e por uma nova estrela no firmamento junto ao monte Paektu, o dito cujo foi transportado para a derradeira morada numa americaníssima limusina Lincoln. Caso para dizer: so long, buddy!
Há blogues para todos os gostos. Há até um blogue sobre Kim Jong-il a olhar para não importa o quê. Agora que o torcionário fechou os olhos vale a pena dar-lhe uma espreitadela. Ao blogue, não à múmia.
A palavra ditador parece ter caído definitivamente em desuso em Portugal. Só isto explica que a SIC Notícias tenha hoje revelado ao País que “morreu o líder da Coreia do Norte”. E no entanto não conheço nenhum outro dirigente mundial, na actualidade, que merecesse tanto o epíteto de ditador como Kim Jong-il, herdeiro da mais longa dinastia comunista do planeta. Nem conheço nenhum país que ostente um nome oficial tão desfasado da realidade como a chamada República Democrática Popular da Coreia. Um país que nada tem de republicano, pois o poder transita ali dentro do mesmo ramo familiar, como era costume na corte absolutista de Versalhes: o tirano agora falecido herdara o ceptro do pai, Kim Il-sung, e o seu indigitado sucessor será o filho mais novo, Kim Jong-un. Um país que nada tem de democrático: a transmissão do comando supremo ocorre em Pyongyang por simples decreto emanado da cúpula do partido único, enquanto os direitos mais elementares são ferozmente espezinhados. Um país que nada tem de popular: os norte-coreanos continuam a fugir para o exterior, com risco da própria vida, para escapar às tenebrosas condições proporcionadas pelo regime estalinista implantado em 1948. Um regime que condena a sua própria população à miséria e à fome, em flagrante contraste com a vizinha Coreia do Sul.
Morto o ditador, quem se apressou a endereçar condolências ao “povo coreano”? Naturalmente o PCP, que em vez de se insurgir contra a tirania prefere lançar farpas aos Estados Unidos. Omitindo a prática de tortura, as frequentes execuções públicas e a existência de dezenas de milhares de presos políticos na monarquia vermelha.
Nada que nos deva espantar: nas teses ao XVIII congresso do partido, em 2008, os estrategos da Soeiro Pereira Gomes elogiaram o regime de Pyongyang nestes termos inequívocos: “Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à ‘nova ordem’ imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” (destaques a negro das próprias teses). Um facto que mereceu críticas de alguns dos mais prestigiados militantes do PCP, como o ex-líder parlamentar Octávio Teixeira.
O que seria de esperar de um partido que, nas páginas do seu jornal oficial, considera a Rússia estalinista “a mais brilhante conquista da história da humanidade”?
ADENDA: O Estado de São Paulo chama ditador a Kim Jong-il. E o New York Times também. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o JN e o Público. É reconfortante saber que na grande imprensa internacional ainda há quem chame as coisas pelo seu nome. Porque um ditador continua a ser um ditador. Tenha a cor política que tiver.
Há duas presenças esmagadoras na vida dos habitantes da Coreia do Norte. Uma diz respeito ao amor inquestionável pelo Querído Líder. No sentido de que esse amor não pode ser questionado. A outra é a da fome. De acordo com o Programa Alimentar Mundial, 6 milhões de coreanos estão à beira da morte devido a carências alimentares básicas. Entretanto, o regime mantém-se focado em salvaguardar alguns objectivos essenciais. Os militares devem continuar a alimentar-se adequadamente e à mesa do Querido Líder não podem faltar as habituais iguarias, nem o vinho da melhor qualidade. Morrer por amor é, na Coreia do Norte, uma expressão plena de significado.