Um ditador é um ditador


Pedro Correia,

 

A palavra ditador parece ter caído definitivamente em desuso em Portugal. Só isto explica que a SIC Notícias tenha hoje revelado ao País que “morreu o líder da Coreia do Norte”. E no entanto não conheço nenhum outro dirigente mundial, na actualidade, que merecesse tanto o epíteto de ditador como Kim Jong-il, herdeiro da mais longa dinastia comunista do planeta. Nem conheço nenhum país que ostente um nome oficial tão desfasado da realidade como a chamada República Democrática Popular da Coreia. Um país que nada tem de republicano, pois o poder transita ali dentro do mesmo ramo familiar, como era costume na corte absolutista de Versalhes: o tirano agora falecido herdara o ceptro do pai, Kim Il-sung, e o seu indigitado sucessor será o filho mais novo, Kim Jong-un. Um país que nada tem de democrático: a transmissão do comando supremo ocorre em Pyongyang por simples decreto emanado da cúpula do partido único, enquanto os direitos mais elementares são ferozmente espezinhados. Um país que nada tem de popular: os norte-coreanos continuam a fugir para o exterior, com risco da própria vida, para escapar às tenebrosas condições proporcionadas pelo regime estalinista implantado em 1948. Um regime que condena a sua própria população à miséria e à fome, em flagrante contraste com a vizinha Coreia do Sul.

Morto o ditador, quem se apressou a endereçar condolências ao “povo coreano”? Naturalmente o PCP, que em vez de se insurgir contra a tirania prefere lançar farpas aos Estados Unidos. Omitindo a prática de tortura, as frequentes execuções públicas e a existência de dezenas de milhares de presos políticos na monarquia vermelha.

Nada que nos deva espantar: nas teses ao XVIII congresso do partido, em 2008, os estrategos da Soeiro Pereira Gomes elogiaram o regime de Pyongyang nestes termos inequívocos: “Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à ‘nova ordem’ imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia” (destaques a negro das próprias teses). Um facto que mereceu críticas de alguns dos mais prestigiados militantes do PCP, como o ex-líder parlamentar Octávio Teixeira.

O que seria de esperar de um partido que, nas páginas do seu jornal oficial, considera a Rússia estalinista “a mais brilhante conquista da história da humanidade”?  

 

ADENDA: O Estado de São Paulo chama ditador a Kim Jong-il. E o New York Times também. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o JN e o Público. É reconfortante saber que na grande imprensa internacional ainda há quem chame as coisas pelo seu nome. Porque um ditador continua a ser um ditador. Tenha a cor política que tiver.

24 comentários em “Um ditador é um ditador”

  1. Não sei bem o que entende por «corte absolutista de Versailles». Se se refere à monarquia francesa, esta era, de jure, electiva.
    Enquanto Versailles foi a residência dos monarcas franceses nenhum filho do rei lhe sucedeu no trono.

  2. O meu comentário aqando dessa mesma notícia – “finalmente”, deus me perdoe::)) ´Também reparei que disseram líder (na RTP pelo menos), estranha-se e não se entranha. Pior foi ver a jornalista de serviço lá na tv estatal (não haverá outra, certaamente) a derramar lágrimas ensaiadas – que náusea, deus me perdoe 2. E depois continuaram as lágrimas, quase em convulsão. Nunca compreendi os fenómenos de idolatria (e forçada) fora da adolescência, muito menos que se admirem ditadores. O poder passou automaticamente para o filho. O que há de novo? A leste, nada.

  3. Sugestão : pesquisar os seguintes nomes, Salazar, Franco, Pinochet, Videla, na “imprensa” e no telelixo noticioso televisivo.
    A “surpresa” que (não) vai ter…

    1. Claro. O Salazar era ditador, mas o Brejnev era “líder”. O Franco era ditador, mas o Honecker era “líder”. O Pinochet era ditador, mas os irmãos Castro são “líderes”. O Videla era ditador, mas o Kadhafi era líder.
      Nada de novo debaixo do sol.

  4. Tem toda a razão Pedro um ditador deve ser chamado pelo nome e não há branqueamento ideológico possível. Infelizmente não deposito nenhuma esperança no Kim que segue ( que terá sido operado, segundo a Der Spiegel, de forma a tornar-se o retrato fiel do avo). A alguma esquerda faria bem uma visitinha aos campos de reeducação norte-coreanos ou pelo menos ler os relatos dos que fugiram do \" paraíso\" coreano.
    Que o PCP e quejandos se queiram cobrir de ridículo ou demonstrar um total desrespeito pela dignidade e direitos humanos indigna-me, agora que colegas jornalistas chamem lider a um torcionario, assassino, perigossimo autista sentado num arsenal nuclear doi-me muito. O deadline nao pode servir de desculpa para tudo.

    Ps-escrito num teclado de telemóvel

    1. Octávio Teixeira e alguns outros (muito poucos) salvaram a honra do partido contestando com firmeza a colagem do PCP ao regime totalitário da Coreia do Norte. Mas é uma vergonha continuar a assistir ao modo como a direcção comunista subscreve as acções ditatoriais dos países governados por países “irmãos”. Fechando os olhos ao sofrimento de todas as Catarinas Eufémias e todos os Josés Dias Coelhos desses países.

  5. Por instantes pensei tratar-se de um filme de “A Quinta Dimensão” ao ver o pranto dos norte-coreanos perante a morte de Kim Jong-il. As minha primeiras impressões, nauseadas, chegaram a uma conclusão – o medo, as décadas de isolamento, da ausência da realidade e a repressão provocavam aquele histerismo. Aquele a que estranhamente chamam de “Querido líder” foi responsável pela morte indirecta de milhares cidadãos através da fome, da tortura, da miséria, sacrificados pelo culto imbecil do narcisismo e do apetrecho nuclear que o legado soviético não foi capaz de satisfazer. Esta emulsão de comunismo com o socialismo tem muitos adeptos, por isso proponho que esses visionários passem uns dias nos calorosos campos de concentração norte-coreanos exercitando-se em trabalhos forçados, higienizados com lavagens cerebrais.

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