Comissão de Serviço III


modosdever,

UM PRETO EM OSSO

 

O carro simplesmente bateu e seguiu o seu caminho, sem um chiar de travões, direito aos bairros brancos.

Na esplanada, cheia de militares, a uns quinze metros, se tanto, ninguém deu por nada, nem por um baque surdo, de chapa, contra algo mole, ou pela queda de um corpo – sons que se conhecem, enfim, de ouvido.

Quer dizer, a bisca lambida pode causar surdez.

Na estrada, deitado, um homem contorcia-se, aos aaaaaaaais, sentando-se às vezes para olhar para a perna, de onde saía, vermelho, da pele negra, um osso, caindo depois outra vez.

– Aaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Ninguém acudiu, muito menos o criado – a designação que na altura equivalia a um psssssssssst –, também preto, mas este de jaqueta branca, que parara entre as mesas, e as biscas, e os aaaais, com os olhos na rua e a bandeja de cervejas – a aquecerem.

– SERVE, PÁ! Tás a dormir? – mandou um sargento de garganta seca. E estava, há muitos anos. Mas a acordar.

Na rua, o preto, inexistente, deixou de gritar. Levaram-no meia hora depois.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço II


modosdever,

TIROS AOS PÁSSAROS

 

O inferno não tinha que ser, afinal, um buraco em chamas, com corpos aos estalidos – ai Dante, Dante! Podia ser uma parada com uma bola de fogo suspensa a dez metros da cabeça de cem homens semi-nus, de peitos cruzados por fitas de balas e com cinturas de granadas, acabados de sair da selva, surdos e cheios de arranhões por uma ideiazinha de pátria. – Cem homens, menos um pássaro!

– FORMEM! – Mas a turba, ora, ora!

– A gente tem é fome, ó periquito! Deixa-te de merdas! – “Periquito” era o nome dado aos pássaros caídos do céu, verdinhos e de listas castanhas, tenrinhos e de penas passadas a ferro, que ainda não sabiam onde tinham pousado.

Mas era hora de almoço no inferno – massa guisada –, o que decidiu a coisa; ainda que ao preço de uma porta escavacada, duas mesas viradas, um pronto atropelado e uma gamela entornada.

– Bom dia, Moçambique! Piu!

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço I


modosdever,

[Pus aqui uma foto, mas tirei-a; é só minha]

 

ADEUS ETERNIDADE

 

– Vá, pá. Mexe-te! A guia?

Era Primavera e cheirava a querosene.

No chão ficava um grupo aos gritos de nem mais um soldado para as colónias, e outro, o da minha gente, que à medida que eu voava – tinham-me tirado umas asas de algodão e trocando por umas de ferro -, ia ficando mais pequeno, e mais distante, um mundinho que provavelmente nunca tinha existido.

Então um avião era aquilo!

Fora-se o garotinho de calções, o pião, as caricas, os cromos; as tranquilas meias-estações, as fatias recheadas [depois dou-vos a receita], as baínhas-abaixo, os Verões, os amores – dos muito-a-medo aos totais e para-sempre -, as batatinhas fritas da praia de São Martinho. As tardes na ITAU.

– Adeus eternidade!

Tinha deixado a cama feita.

Levava no bolso mais medalhas do que moedas.

– Continuem a comprar-me a Vida Mundial! [Ainda a guardo toda]

Não senti medo – ficaria para mais tarde; senti abandono.

Tinha 21 anos.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)