As canções da minha vida (1)


Pedro Correia,

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LA VALSE A MILLE TEMPS

1959

 

Escutei-a pela primeira vez aos 15 ou 16 anos, quando comprei um “33 rotações” de Jacques Brel, que logo se tornou num dos álbuns que mais rodaram no meu gira-discos portátil, fiel companheiro desses anos de adolescência. Um álbum de 1972, simplesmente intitulado Jacques Brel. Mantenho-o bem preservado e ainda a ele regresso em momentos de indizível nostalgia.

La Valse a Mille Temps era o penúltimo tema dessa colectânea de grandes êxitos de Brel (1929-78), belga que se despediu demasiado cedo da vida mas deixou um rasto inapagável na música de raiz francófona. Vendeu 25 milhões de discos sem nunca atraiçoar os seus ideais artísticos. Compôs, escreveu e interpretou canções que são pequenos tesouros da narrativa musicada, cruzando a trova medieval de cariz romântico com a balada de protesto contra o conformismo burguês que sempre combateu.

 

O tema nasceu em 1959, quando Brel era cabeça de cartaz no Bobino, uma das mais famosas salas de espectáculos de Paris. Nesse ano prodigioso da sua carreira, concebeu também o inimitável e arrepiante Ne Me Quitte Pas. As duas canções integrariam o quarto LP do belga, surgido ainda em 1959. Com a valsa a abrir o álbum (cuja capa aqui reproduzo), justamente galardoado com o Prémio da Academia do Disco Francês.

Com 3 minutos e 48 segundos de duração na gravação original (de 14 de Setembro de 1959, com orquestra conduzida pelo maestro François Rauber), La Valse a Mille Temps começa como valsa lenta e bonançosa e vai rodando num crescendo cada vez mais acelerado e jubilatório até ao limite do impronunciável, ao jeito de um carrossel descomandado, ameaçando vencer o cantor pela exaustão. Não por acaso, poucos foram os que se atreveram a emular Brel nesta que é uma das suas mais extraordinárias interpretações. Um deles foi Carlos do Carmo, que em 1980 superou com distinção o desafio no mítico palco do Olympia, também na capital francesa. Do espectáculo sairia aquele que é talvez o seu melhor disco gravado ao vivo.

 

Só há pouco tempo me apercebi: esta é uma das canções que mais vezes me acompanham. Dou por mim a trauteá-la, a assobiá-la, no seu rodopiar festivo, como quando a escutei pela primeira vez naquelas manhãs de ilusória Primavera perpétua, quando o tempo parecia ter vocação para eternizar-se ao comando da voz de Brel soando a princípio quase infantil nesse compasso ternário de caixinha de música.

«Au premier temps de la valse / Toute seule tu souris déjà / Au premier temps de la valse / Je suis seul mais je t’aperçois / Et Paris qui bat la mesure / Paris qui mesure notre émoi / Et Paris qui bat la mesure / Me murmure, murmure tout bas…»

 

Canções brasileiras: as dez mais


Pedro Correia,
Em tempos, o Duarte Calvão mencionou aqui um disco desse génio da música universal que foi Antonio Carlos Jobim – autor de partituras tão fabulosas como as de Cole Porter ou Irving Berlin. E adiantou que Lígia, de Jobim, é talvez a canção brasileira de que mais gosta. Acontece que é também um dos meus temas favoritos de todos os tempos. Tenho-o em várias gravações, incluindo num disco de Stan Getz – o inesquecível The Lyrical Stan Getz.
Muita gente não sabe que existem duas versões de Lígia. A original, de Jobim, e uma outra, a que prefiro, com versos acrescentados por Chico Buarque, acentuando a magoada ironia das palavras.
Mas se tivesse de eleger a “minha” canção favorita, entre as brasileiras, a escolha recaía no Samba da Bênção (Baden Powell/Vinicius de Moraes). É um tema que me tem acompanhado anos fora, nas mais diversas circunstâncias. Uma espécie de banda sonora da minha vida.
Além destas duas, deixo aqui as restantes oito canções que formam o “dez mais” dos meus gostos em música brasileira. Vão por ordem alfabética, pois é-me praticamente impossível ordená-las de outra forma:
– Chega de Saudade (Jobim/Vinicius), na voz inconfundível de João Gilberto, jovem de 80 anos completados ontem
– Eu Te Amo (Jobim/Chico Buarque)
– João e Maria (Chico Buarque)
– Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá)
– Pela Luz dos Olhos Teus (Vinicius)
– Romaria (Renato Teixeira), interpretada por Elis Regina
– Valsinha (Vinicius-Chico Buarque)
– Vambora (Adriana Calcanhotto)





Aquarela


Teresa Ribeiro,

Tem algo de infantil esta melodia e no entanto não é uma canção para crianças, muito menos uma cantiga sobre a infância para consumo de adultos nostálgicos. Esta veste-nos de bibe e equipa-nos com material escolar logo que avança com a letra, numa simbiose perfeita, própria das canções de génio. Comovente sem ser lamechas, Aquarela (Toquinho/ Vinicius de Moraes) explica-nos a vida em poucos versos, apoiada no fraseado cristalino do violão de Toquinho:

 

“E o futuro é uma astronave
que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
muda a nossa vida
e depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe
conhecer ou ver
o que virá
o fim dela ninguém sabe
bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela
que um dia em fim…descolorirá”

 

Em cinco ou seis rectas Toquinho e Vinicius fazem-nos o desenho. Se nos remetem para a infância é para que nos possamos ver em perspectiva e acrescentar doses generosas de amor-próprio à consciência das nossas limitações. Aquarela é um tema que nos desampara e dá colo ao mesmo tempo, que vai até ao nervo mas com uma candura que nos desarma. Acordei hoje com ela. Bom dia!