União de facto pior que gripe


jmmcc,

O candidato recém-aliciado do PS Miguel Vale de Almeida dá hoje explicações no lugar do costume por causa de «alguma confusão noticiosa sobre o que disse ontem no Campus da JS em Santa Cruz». Ninguém sabe se foi a imprensa que não o compreendeu, se foi ele que não se fez explicar. Mas fez questão de deixar agora mais claro que «reduzir» o que quis dizer «a uma questão politiqueira entre o PS e o BE é coisa que não» lhe «interessa nem motiva». Designadamente, «porque bem mais importante é denunciar o projecto reaccionário do PSD».

Em suma: Vale de Almeida ainda não está no segredo dos deuses. Mas há-de estar. Mais tarde. Ou tarde de mais. Quando os seus novos amigos começarem a viver em união de facto com os tais «reaccionários». O Bloco Central ainda vai ser pior do que a gripe A.

Legislativas (21)


Pedro Correia,

 

 

O BLOCO CENTRAL REVISITADO

 

Sejamos claros. O que está essencialmente em jogo, na campanha para as legislativas, é a política de alianças pós-eleitoral. É um tema incómodo, do qual os líderes políticos fugirão a dar respostas claras – comprometendo assim, ainda mais, a relação de confiança e de transparência com os eleitores.

Mas podemos trabalhar no campo das hipóteses. E aqui as alternativas são mais claras do que parecem: ou a votação no CDS é suficiente para possibilitar uma aliança eleitoral, qualquer que seja, ou PS e PSD estão condenados a entender-se – com estes ou outros líderes. Não foi por acaso que na sua recente visita à Áustria o Presidente da República elogiou a ‘grande coligação’ lá existente, espécie de reedição do bloco central que por cá tivemos na década de 80: é nessa direcção que convergem já os estados-maiores dos dois principais partidos. Também não é por acaso que, como sublinha o Paulo Gorjão, no próprio dia da apresentação do tardio programa eleitoral do PSD, um dos seus principais candidatos, João de Deus Pinheiro, defende em entrevista ao i uma coligação com os socialistas. É a resposta simétrica às recentes declarações de Ferro Rodrigues ao Expresso que apontavam na mesma direcção. Deus Pinheiro, sublinhe-se, não é um novato na política: é um homem da estrita confiança simultânea de Cavaco Silva, de quem foi ministro, e de Manuela Ferreira Leite, que o designou como cabeça de lista às legislativas por Braga.

É esta a solução que está a desenhar-se no horizonte enquanto há quem pretenda atirar poeira aos olhos dos eleitores, fingindo cavar trincheiras só para dar algum colorido à campanha. Pura ilusão de óptica, como Ferro Rodrigues e Deus Pinheiro já perceberam. O cenário pós-27 de Setembro já está montado. E tem pontes entre os supostos rivais, não tem trincheiras.