Caso perdido


Sérgio de Almeida Correia,

PÚBLICO -

O PCP realizou o seu XXI Congresso. Como todos os congressos anteriores, foi um êxito retumbante. Eu atrever-me-ia mesmo a dizer que não há congresso, qualquer que seja o partido político português, que não seja um êxito. Mas os do PCP normalmente ainda são mais extraordinários. 

Muitas foram já as análises efectuadas. Da preparação ao evento, sem esquecer as intervenções de dirigentes e militantes, numa reafirmação da sua cada vez mais desfocada visão do mundo.

Aqui quero apenas salientar um aspecto que continua a acentuar-se, mas que nem por isso leva o PCP a procurar encontrar as razões e, eventualmente, a mudar. Trata-se da contínua quebra do número dos seus militantes, no que são acompanhados por outros partidos nacionais que recusam ou não conseguem renovar-se tal a forma como estão agrilhoados à sua própria mediocridade.

Na análise que ontem publicou, o Público salienta a descida do número de militantes nos últimos oito anos, isto é, de 60 484, em 2012, para 54 280, em 2016, até aos 49 960 de 2020. Ou seja, uma queda de 17,4%.

Se recuarmos um pouco mais verificamos que em 1983 o PCP tinha 200 753 militantes; em 1996 eram 140 000; e em 2006 esse número atingia 80 000. Entre 2006 e 2012 o PCP perdeu quase 20 mil militantes.

Nas Teses apresentadas ao XXI Congresso continua-se a sublinhar que “[o] Partido, para agir e desempenhar o seu papel de vanguarda na concretização dos seus objectivos, precisa de uma organização forte, estruturada e ligada às massas”, esclarecendo-se que o número actual de militantes resulta de “uma redução ligada ao facto do número de recrutamentos não ter compensado o número de camaradas que deixaram de contar como membros do Partido“, o que parece ser uma evidência lapalissiana, mas acrescenta-se que tal é devido “principalmente em consequência de falecimentos“.

Durante anos procurei averiguar as razões para essa quebra, como fiz em relação a outros partidos, não me ficando pelo “principalmente“. Até hoje o PCP não esclareceu, nem quer esclarecer, quantos dos que deixaram de constar como militantes saíram das suas listas por terem falecido, por descontentamento com a linha ideológica, por não concordarem com as práticas internas do partido ou por qualquer outra razão que os levasse a abandonar a militância.

Dizer apenas que a maior parte dos que saem representam “principalmente” falecimentos é o mesmo que não dizer nada. E o facto de 49% dos militantes do PCP terem mais de 64 anos, e apenas 11,4% terem menos de 40 anos, também não ajuda muito, porque não só não consta que nos outros partidos “morram” tantos militantes como no PCP, como se sabe que nos outros há quem não fique à espera da hora da morte para ser abatido nos cadernos de militantes.

Escrevia o Pedro Correia que depois da derrocada eleitoral nos Açores o PCP irá continuar a aprender à sua própria custa com as eleições que hão-de vir.

Não comungo desse optimismo. Aprender à sua própria custa ainda seria uma forma de aprender. Não me parece que possa vir a ser esse o caso.

Porém, olhando para a evolução dos números dos militantes do PCP ao longo das últimas décadas, para as teses do último e de todos os outros congressos que o antecederam, ouvindo os discursos e vendo a forma como vai diminuindo a influência política e social do partido, dir-se-ia que não querem aprender nada. Recusam-se a aprender, como também rejeitam mudar as lentes que usam, por mais riscadas e picadas que estejam, tentando convencer os outros de que aquelas é que são boas porque não partem de cada vez que caem ao chão. Ouvir alguns dos seus dirigentes hoje ou há quarenta anos é exactamente a mesma coisa.

O mundo mudou. O PCP e os seus dirigentes ainda não se aperceberam disso. E dos militantes que se aperceberam o PCP diz que só se libertam na hora da morte. 

Sem mudar de lentes e a manter-se a constância de “falecimentos” dos seus militantes, com mais alguns congressos, o PCP arrisca transformar-se definitivamente num fantasma que andará pelo meio de quatro paredes à procura da sua sombra.

Enquanto lá fora a luta continuará. Sem o PCP. E com andrés e venturinhas descendo a Avenida da Liberdade.

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30 comentários em “Caso perdido”

  1. Notável como apesar disso está a conseguir condicionar de forma decisiva a governação do País, deixando Costa atordoado encostado às cordas numa situação de um humilhante pedido de esmola e de indigente dependência.

  2. E a indigência, ou o deixarem as pessoas na “mão”, em Portugal não é um problema político- é simplesmente a falta de palavra, a falta de honra que, em Portugal vai-se tornando coisa vezeira e banal. É raro encontrar alguém que pense com a cabeça , com integridade e honradez. Ninguém joga por amor á camisola. Anda tudo a ver quem paga mais para se “transferirem”.

  3. A última luta será pela partilha dos imenso património imobiliário. Quem poderão ser os herdeiros legais? Está a chegar o tempo em que o erário público terá de legislar um imposto sucessório de uns 100% para partidos falecidos.
    Enquanto existir esse vazio legal os militantes ainda poderão aspirar alguns avos nas partilhas. Se calhar essa é a explicação para terem ainda tantos.

    1. Se os falecidos da politica que se anunciam por antecipação, onde já estaria Costa mais os seus negócios imobiliários?

  4. Dramático seria que o PCP não existisse. Há muito tempo que se vaticina a morte destes e até mesmo que estes não mudam sabendo que o mundo mudou. Creio que existe uma cegueira sobre este dito mundo que dizem ter mudado.
    O mundo mudou para pior; e não foi com a pandemia. Foi a bolha que nos mostrou que o mundo tinha mudado para o bolso de alguns que mudaram o mundo e influenciam directamente os governos.
    Mudou também porque os governos, pretendendo constituir-se em corporações supranacionais, querem tomar o lugar daqueloutros na metodologia do big brother que a esses continua a beneficiar.

    O congresso do PCP, em nada acrescentando à mudança necessária, demonstrou que é possível resistir, viver sem medo de viver e que os que aparentam ser fracos são os fortes no meio de tanta fraqueza que se julga forte.

  5. Esta é a principal razão porque, falando em extremismos, o Chega me preocupa e o PCP não. O PCP está a agonizar. Bem podem apregoar as suas barbaridades, que não vão a lado nenhum, pelo contrário. Já Ventura parece, para já, conseguir convencer muita gente. Mas espero que a queda de Trump ajude muita dessa gente a perceber que murros na mesa, berros e insultos são próprios de narcisistas, meros tigres de papel, apenas interessados na sua própria imagem.

    1. É bom que o PCP se mantenha, porque se começa agonizar, então é sinal que o Chega se está a expandir roubando votos não só a esquerda, mas também a direita.
      E o PCP será sempre um travão aos extremismos do Chega.
      Prefiro um PCP caduco do que o caruncho do Chega.

      João T. Almeida

    2. Mais um agente fúnebre. No ano que vem são 100 anos ! Mais um que confunde vontade com realidade. Não te trates…..

    3. Hoje, a minha preocupação passou a ser outra. Ao ver um video que me chegou, de uma sessão de votação de propostas na AR, fiquei pasmado, profundamente desiludido e um pouco arrependido das palavras que aqui escrevi sobre o PCP.
      Noutro post defendi que a variedade de ideologias na AR era salutar para o espírito democrático. Mas isso só se verificaria se os agentes políticos estivessem lá para servir e não para se servir. Chego à conclusão que não é isso que acontece. Tudo não passa de uma briga de miúdos, em que eu não gosto de ti, logo veto tudo o que vem de ti. Nem que seja positivo, eu vou votar contra, porque és tu. Ou seja, o que interessa não é o resultado, não é a melhoria que traria ao povo, que é quem vota. O que interessa é my dick is bigger than yours.
      Nessa sessão foram a votação vários assuntos, se sobre alguns era previsível o veto, como a redução extraordinária do vencimento dos políticos, noutros nunca pensei.
      Por exemplo, a proposta para a criação de um plano nacional de alimentação saudável para os sem abrigo chumbou. Uma medida que visava melhorar a saúde e a longevidade dessas pessoas, não passou com o veto da esquerda. A criação de condições para o regresso de portugueses emigrados em situação de sem abrigo chumbou. A criação de medidas de escrutínio e de prestação de informações detalhadas sobre contratos públicos chumbou. O alargamento das creches públicas no interior, onde não exista esta rede chumbou. A possibilidade de assistência à família remunerada, por doença de cônjuge ou filho, por 30 dias anuais chumbou. Um subsídio de habitação para professores e guardas prisionais deslocados, que fiquem de fora das habitações disponíveis para o efeito chumbou. A transparência sobre fundos públicos, relativamente ao motivo, à aplicação e ao resultado prestado pelas entidades que o recebem chumbou. Obrigatoriedade de pagamento de remuneração a estagiários da função pública chumbou. Dotar os tribunais de especialistas em crime economico-financeiro chumbou. Reduzir as taxas aeroportuárias dos aeroportos das ilhas, para valores equiparados ao aeroporto de Lisboa, de forma a incrementar o turismo chumbou.
      Num momento em que apenas se fala em propostas de castração e prisão perpétua, seria justo também falar destas que enunciei. É que estas foram propostas levadas a votação pelo mesmo partido que propõe a prisão perpétua.
      Mas a surpresa até nem é essa, a surpresa é que estas medidas foram chumbados pela esquerda. Se o chumbo do PS não choca, o chumbo dos ditos partidos defensores dos pobres e oprimidos e dos trabalhadores, choca profundamente.
      E choca porque aquela bancada da AR em nada difere de uma bancada de um estádio de futebol, onde tudo o que vem do adversário é para matar.
      Portanto, diversidade de ideologias é óptimo para o debate, para o equilíbrio, mas quando se vê este contracensso, coloca-se tudo em causa.
      Será pedir muito, que os políticos eleitos protejam de facto os portugueses, ao invés de brincarem aos indios e aos cowboys? Será pedir muito que a responsabilidade e o espírito de servir impere sobre as disputas pessoais e intelectuais?
      Enfim, não tendo como intuito branquear nenhum assunto nem nenhum partido, chega-se à conclusão que a esquerda dá tiros nos pés, relativamente à sua própria agenda. Mais ainda se questiona a incompetência dos partidos de esquerda sobre certos assuntos trazidos a votação pela direita, que supostamente deveriam ter sido trazidos pela esquerda, a qual deveria e teria a obrigação de se lembrar dos mesmos.

      1. Como qualquer anti-comunista primário como eu já há muito percebeu, a preocupação com os pobres, oprimidos e explorados é apenas uma ferramenta útil para o verdadeiro desígnio que é a tomada do poder; e a oposição (leia-se guerra) total aos inimigos, uma pré-condição que se sobrepõe à ferramenta.

  6. É normal que um partido não consiga angariar militantes para uma ideologia defunta. Comunismo, sério?
    Por outro lado, o mundo já não se divide entre o Capital e a classe operária, o latifúndio vs minifúndio, os burgueses e o proletariado. A conversa do PCP não dá sentido no séc XXI

  7. O PCP é um partido de clandestinidade, não havendo motivo para essa clandestinidade sobrevive apenas com a nostalgia do passado, daí a dificuldade em transmitir a mensagem às novas gerações.
    Quem não viveu a angústia de ser denunciado por um bufo, quem não viveu num regime em que a comida era racionada, quem nunca foi detido e espancado brutalmente apenas por pensar de maneira diferente, dificilmente vai compreender a origem da formação deste partido.
    Os andrés e venturinhas só aparecem porque a governação aposta numa política pública em que as excepções são a regra. Veja-se o abuso da utilização do estado de emergência. Com este precedente qualquer futuro governo tem a porta aberta para fazer uma legislatura completa em estado de emergência. E nessa altura por cada novo vírus irá nascer também um andré venturinha.
    Deve ser a isto que chamam o novo normal.

      1. Não confundas a estrada da Beira com a beira da estrada, olha que a monarquia também não se pode vangloriar. Basta olhares para Espanha e para Inglaterra. Em termos de corrupção é exactamente igual aos partidos republicanos.

  8. O PCP já há decénios que aprendeu tudo o que tinha a aprender. O PCP viu como todos os outros partidos comunistas desapareceram da noite para o dia quando a URSS faleceu e esses partidos comunistas alteraram a sua ideologia e modo de ser. O PCP, pelo contrário, não alterou a sua ideologia nem o seu modo de ser e, passados 30 anos do desaparecimento da URSS, perdura. Ou seja, o PCP, quando comparado com os outros todos, conseguiu adiar a sua morte em pelo menos 30 anos. É obra.

  9. Porque será que num estalar de dedos ás preferências de saco de pancada passam do Ventura para o Jerónimo?

    1. São uns cobardes!
      O Jerónimo já está a ficar velhote e pensam que é uma presa fácil, enquanto o outro mais novo demora mais tempo ir ao tapete.
      Mas eu aposto que o Jerónimo ainda vai dar um KO ao Venturinha.

  10. Esta constatação (preocupante?) e toda a conversa em torno deste Congresso, só aparece por o OE ter passado com sua abstenção do PCP.
    Agora é arranjar tergiversações à la carte.

  11. Ontem, a propósito do “post” do PC até, às tantas, escrevi que «o PCP é um corpo onde o cérebro do Lenine tem de se digladiar diariamente com a realidade dos nossos dias…» e, naturalmente, apenas estava a falar da sua estrutura partidária determinante em termos programáticos.
    Cá para baixo (e falo agora então dos militantes-contribuintes e simpatizantes, mais alguns dos seus habituais votantes), o cérebro do Lenine deve ser substituído pelo do Salazar. É por isso que depois, os “pretos abusadores” aparecem por descuido como “mais escurinhos”, os gays mais empolgados pelo propagandeado “espírito de liberdade” que se vive na Festa são devidamente sovados pelos seguranças e os “drogados da liamba” até são mais “alienados” do que o proletariado da bezana… e a “direita” (onde se deve incluir a maioria dos funcionários/militantes do PS) sabe e aprecia isso e é por isso que insiste em chamar pejorativamente, por exemplo, ao BE de “esquerda caviar” e/ou às novas formas de resistência social de esquerda (por exemplo, o movimento anti-racista) de “radicalismo acéfalo”, enquanto se vai “lamentando preocupada” com o gradual desaparecimento do “partido”.
    E eu até os compreendo: há toda uma lógica por detrás da sua “preocupação” de a ter de haver “comunistas” que, pelo menos, sejam os “deles”, os “nacionais” ou “tradicionais”, os que nada têm a ver com os “marxistas culturais” do “politicamente correcto”…
    Bom, bem podem cantar hossanas em tom de “preocupação” ou “lamento”, que o diabo continua presente e claro, até a razão de existência deste blogue.

  12. A militância partidária já teve os seus dias. Mas é sempre arriscado dar algo como definitivo.

    Veja-se o exemplo da direita moderada que teve maioria absoluta em 2011 (há nove anos) e que agora diz que só poderá voltar a governar se se aliar com o neo-PRN e aceitar atitudes racistas como o novo normal. Isto é que é andar depressa.

  13. No dia em que é divulgada uma sondagem que dá ao CDS 1% das intenções de voto, o autor deste post ocupa-se com o declínio da militância do PCP. Seria muito mais natural que se ocupasse com presumível desaparecimento do CDS. É que, o PCP pode perder miltantes, mas não irá desaparecer a curto prazo – mas o mesmo não se pode dizer do CDS.

    1. Muito bem apanhado. Preocupa-me bem mais o estado a que chegou o CDS, do que o estado em que está o PCP.
      Até porque o CDS tem um papel fundamental na política actual, desde que outros partidos chegaram à AR. E tem neste momento o papel de pêndulo, filtrando o exagero do que vem da sua direita e trabalhando na inoperância do vem da sua esquerda.

      1. Não simpatizo com o CDS embora muito admire pessoas que por lá passaram mas não posso deixar de recordar Napoleão que – diz-se – quando lhe propunham a promoção de um coronel ao generalato, interrompia o elencamento de virtudes e qualidades e perguntava: Mas, tem sorte?
        É que eu e suponho que muita gente, olha para o Chicão e só se recorda do terramoto no Funchal. De facto não teve sorte.

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