1.º de Dezembro


Pedro Correia,

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Coroação de D. João IV (óleo de Veloso Salgado, 1908)

 

«Convém lembrar que Portugal nunca esteve, como se costuma dizer em prosa patriótica, “sob o domínio de Castela” ou, se preferirem, “sob o domínio de Espanha”. O arranjo de 1580 não passou de uma “união pessoal”  da coroa portuguesa com a coroa de Castela (ou de Espanha) na pessoa de Filipe II, que era o herdeiro legítimo das duas. Como se vê, nada que nos separasse na Europa do Império Austríaco ou do Reino Unido da Inglaterra, Escócia e Gales. De resto, a ordem jurídica portuguesa não mudou, nem a organização da Igreja, nem a defesa do Império, nem a carga fiscal que anteriormente se pagava. Só quando o conde-duque de Olivares nos pediu mais dinheiro e um pequeno contigente de soldados para a guerra europeia, o espírito patriótico da nobreza indígena finalmente acordou e resolveu instalar D. João IV num trono contestável e periclitante. O “1.º de Dezembro” comemora a ascensão da dinastia de Bragança e não uma putativa independência que não deixara de existir.»

 

Vasco Pulido Valente (Público, 5 de Fevereiro de 2012)

54 comentários em “1.º de Dezembro”

  1. Sempre achei isto mesmo — estas duas coisas. Que apesar da desgraça de termos deixado de ser Leoneses, também depois nunca pertencemos a Espanha — e que portanto este feriado é uma treta. Isto é a primeira coisa. A segunda coisa, a outra treta, a outra bosta, foi a Casa de Bragança: um bando pulguento de traidores com espírito de rancheiro colonial, quase todos meio deficientes. E os que não eram atrasados, tinham sífilis.

  2. Isso e a destruição praticamente total da esquadra portuguesa na aventura filipiana da grande armada. Tsc, tsc.

    1. Sim, mas isso foi logo no início. Os aspectos decisivos para a revolta popular e a revolta da nobreza, por uma vez conjugadas (ao contrário do que sucedera em 1580), foram o aumento brutal dos impostos e o envio de milhares de jovens portugueses para irem combater por Castela contra os catalães.

  3. Teorias à parte — é mais um dia útil em que o resto do mundo está a trabalhar mas nós ficamos em casa a coçar a micose e a perder competitividade.

    Competividade, como diz o chefe tribal Costa no centro do seu potlatch de subsídios.

  4. Em resumo, o 1º de Dezembro mostrou-nos que era necessária e possível uma independência.: independência das uniões familiares, independência dos reinos e reinados por herança distribuídos, independência para libertar todo um povo que financiava uma ordem que lhe era alheia.

    1. Não sei se já reparou, mas continuamos a financiar uma ordem que nos é alheia. E agora há um sem número de reizinhos, no continente e nas ilhas, e antes só havia um.

      1. correcção: nós já nem financiamos nada — agora somos os servos dos funcionários públicos desta república magnífica de decretos-lei, conhecidos por jogar à bola, com uma bandeira horripilenta e um hino decalcado dos franceses.

        E onde tudo o que há para mostrar é anterior a 1910.

        1. V, é verdade o que escreve. Mas a sua verdade nada retira a minha verdade nem à actualidade do 1º. de Dezembro. Está nas nossas mãos agir. Cingirmos nossas vidas ao comodismo que Costa e Marcelo nos oferecem é não perceber que quer os polacos quer os húngaros, bloqueando verbas por casa da soberania dos estados, estão a fazer por nós o que fizemos no 1º. de Dezembro de 1640.

  5. Quase toda a gente acredita no contrário do que diz Vasco Pulido Valente.
    E porquê?
    Porque durante gerações nos ensinavam o contrário na Escola Primária. E isso ficou. É como a dos brandos costumes e etc.

    1. Filipe II era filho de mãe portuguesa. Esta foi a sua primeira língua. Falava o português corretamente. Depois permitiu que mantivéssemos a nossa moeda.

      1. Correcto. Português era a língua materna do primeiro Filipe, que sempre gostou de Portugal e passava grandes temporadas no nosso país (que era também dele, filho de princesa portuguesa e neto e bisneto de reis portugueses).
        O segundo Filipe, pelo contrário, raras vezes cá veio. E demorou anos até se fazer coroar rei de Portugal. O terceiro ainda menos.

    2. Pulido Valente escreve como historiador, separando factos de mitos. Nas escolas, infelizmente, os mitos vão-se propagando – não sempre os mesmos, nem sempre seguindo a mesma orientação – através das gerações. Porque por vezes é mais fácil (e mais “giro”) espalhar mitos do que factos.
      E cada geração tem os seus mitos, validados com chancela oficial.

  6. É bem evidente, neste blogue, que o Pedro Correia tem um especial gosto por Espanha, por espanholas, e pelo regime político espanhol. Espanha, claro, una e indivisa pela graça de Deus (no qual o Pedro Correia não acredita, mas finge acreditar por o considerar útil para entreter o povo).
    É para mim claro que para o Pedro Correia seria ótimo que Portugal fizesse parte dessa Espanha una e indivisa.
    Nestas condições, este post não é surpreendente.

  7. Não julgo que este feriado seja uma bosta. Os conjurados teriam os seus motivos particulares, mas pelo menos puseram no trono um rei de uma casa portuguesa. Julgo que as monarquias comungavam todas dos mesmos males, por alguma razão se inventou a república e mais seus presidentes, e que Portugal não foi excepção. E gosto de pensar que fomos mais independentes depois do primeiro de Dezembro de 1640. Porque fomos.

    1. Não é bem verdade. Portugal foi um país mais íntegro e original antes das colónias do que foi depois. Depois ficámos cheios de colonos e de baratas.

  8. Gosto muito de Vasco Pulido Valente mas na sua especialidade que são os sécs. XIX e XX.

    Portugal era único na Europa pois não se formara no quadro geral do feudalismo, que apenas existiu nas cinco famílias do Norte e logo desapareceu porque seguiram D. Teresa contra D. Afonso Henriques. Com alguns resquícios a norte do Douro mas sem poder político que não fosse local, a nobreza de Portugal forma-se a partir dos cavaleiros de D. Afonso Henriques e o poder político fixa-se em Coimbra, uma cidade com forte presença moçárabe.
    Considero estar aqui a origem das duas idiossincracias portuguesas: a facilidade de miscigenação e os “brandos costumes”.
    Ao contrário dos castelhanos (há historiadores que consideram a união de Aragão e Castela com os reis Católicos, a criação do primeiro estado racista da Europa) que da cultura árabe apenas guardaram os monumentos nós integrámos a baixa administração é por isso conservámos cargos e ofícios (almotacé, almocreve) medidas, (almude, alqueive), práticas agrícolas com destaque na horticultura e irrigação, culinária e doçaria e muitos elementos na arte, com destaque na azulejaria.
    Basta lembrar que cristão-novo era isso mesmo, um não cristão recém convertido, mas quando se estabelece a inquisição, apenas se aplicava a ex-judeus pois os muçulmanos tinham sido assimilados. Gilberto Freyre afirmou que os portugueses não era racistas por serem meio mouros, eu prefiro dizer que os portugueses são meio mouros porque não eram racistas.
    (continua)

    1. Uma tese estranha porque um moçárabe não é um árabe ou um sarraceno — é a designação medieval para um cristão da península. Eram os cristãos (romanos e visigodos) que não se converteram ao islamismo (que existia há pouco tempo) mas que todavia viviam em paz nos territórios ocupados pelos Mouros.

      Essas teses de que somos mouros baseadas em “sons das palavras” faz-me lembrar os ditirambos redondos de António Lobo Antunes: não passam de parvoíces. Lamento dizê-lo, caro amigo, mas a História verdadeira não é feita de homofonias nem de simpatias com gente de turbante no alto da cachimónia. Não temos nada de árabe a não ser os azulejos. E as noras já não se usam.

      1. “… mas que todavia viviam em paz nos territórios ocupados pelos Mouros.”
        É esta a chave da questão. Ao deslocar a “capital” para Coimbra, D. Afonso Henriques centra-se e recruta numa população que há muito convivia em paz com os mouros.

        “Essas teses de que somos mouros baseadas em “sons das palavras …”
        Aí desculpe-me a franqueza, mas é mesmo disparate. Nada tem a ver com o som mas com a raiz (se tem dúvidas consulte um bom dicionário). Como exemplo, o almotacé era um funcionário que estabelecia os valores dos diferentes bens para efeitos de pagamentos sobretudo de tributos. Era um cargo que existia na administração muçulmana e que continuou em Portugal mas não em Espanha. onde as palavras que referi não existem.
        Por razões conhecidas os portugueses são, excluindo os bascos, o povo da península mais diferenciado dos castelhanos e essa diferenciação conduziu à inclusão portuguesa e à exclusão castelhana. Basta comparar a nossa colonização com a espanhola na América do Sul; ou mais simplesmente a facilidade com que aprendemos línguas e as utilizamos com os estrangeiros por contraste com os espanhóis que até à pouco obrigavam quem com eles tivesse de lidar a aprender castelhano e, ainda hoje, com alguma excepção do inglês em camadas de educação média-superior, não falam outras línguas.
        De Coimbra para Sul, com enorme destaque no que hoje se chama a região saloia, os camponeses muçulmanos cultivavam sobretudo hortícolas que vendiam nas cidades, pagando os tributos ao emir. À medida que a reconquista portuguesa progredia para Sul, as elites muçulmanas, militares e altos dirigentes, eram expulsos ou fugiam dos castelos e cidades fortificadas mas os camponeses, que viviam fora de muros ficavam e continuavam a fazer a sua vida agora pagando tributo ao rei. Não foram chacinados nem eliminados. E também ficaram pequenos comerciantes, artesãos e outros que residiam em cidades nas mourarias. Em Portugal não se passou nada de parecido com a pragmática de 1502 dos Reis Católicos, depois agravada pelas medidas do cardeal Cisneros, nem com a expulsão dos morizcos em 1609-1619. E, se no Alentejo, com solos delgados e falta de água não seriam muitos, em zonas como o vale de Loures ou na região de Sintra eram mesmo muitos. Não foram mortos e depois de três séculos já não existiam, portanto sim, foram assimilados.

        “nem de simpatias com gente de turbante no alto da cachimónia.”
        Pressentindo-se má vontade contra a ascendência muçulmana, deixo-lhe aqui uma pequena informação que o vai surpreender: Na primeira geração da invasão muçulmana, maioritáriamente árabe, não trouxeram mulheres; na segunda, já com maior componente berbere, só muito poucas e das famílias dos chefes militares. Só na terceira começaram a vir famílias exactamente para povoamento e produção agrícola. Acredita mesmo que os muçulmanos, invasores vitoriosos, estiveram meio século na península a guardar castidade?

        “Não temos nada de árabe a não ser os azulejos.”
        Além de tudo o que referi no comentário inicial, pode começar pelos números com que faz contas ou que vê nos preços.

        1. Qual ascendência muçulmana, qual carapuça. Está visto que a sua posição é de ideologia sentimental, não adianta falar consigo.

          Os castelhanos é que grasnejam e atiram a língua para fora como os abdulás e nós que temos uma língua galega e somos galegos, é que somos excepcionalmente muçulmanos. Tem graça.

          Vocês andaram anos a preparar isto, a limpar a História nas escolas, na comunicação social, nas livrarias… Mas nós vamos resistir mais uma vez. Não vamos ser colonizados por gente indolente e totalitária que quer dominar o mundo com o ressentimento e a inveja como o comunismo.

          Só espero que não poupem os saloios e da próxima vez.

          1. V. o senhor Francisco Almeida tem razão e o que escreve não tem nenhum propósito de favorecer esta ou aquela visão da História ou a superioridade de um povo sobre outro. A influência e cultura árabe na arte e ciência portuguesa e ibérica é indesmentível mas não é por isso que “nós” os vamos “aceitar de volta” e o mais importante é mesmo a capacidade de assimilação que os nossos governantes tiveram, ou seja acabaram com o que era “mau” e ficaram com o que era “bom”, matriz de qualquer bom Conquistador.
            Aconteceu assim enquanto fomos conquistando e chegando a lugares longínquos enquanto outras Nações que chegaram lá muito depois de nós se limitaram á destruição e rapina sem limites.
            Infelizmente hoje vende-se ou dá-se a nacionalidade Portuguesa a qualquer um que possa pagar ou “provar” que tem antepassados portugueses ou que nasceu cá ou que vive cá há “muito tempo”, tal como em França e noutros países, isso terá consequências mas isso é outra história.
            Enquanto a História de Portugal enquanto nação soberana continuar a ser escondida ou “interpretada” sem ser á luz de factos e evidências o caminho para a sua destruição torna-se ainda mais fácil mas isso também é outro assunto.

            WW

          2. Não é preciso pagar — basta uma tipa qualquer vinda não se sabe de onde ter filhos cá e tem logo um português. Aliás, há centenas de raparigas africanas que se inscrevem em escolas profissionais para ter um visto, depois têm cá um filho, desistem da escola, e começam logo a pedir subsídios, em breve têm uma casa dada ou a rendas ridículas (coisa que eu em 30 anos ainda não consegui e estive sempre a trabalhar e a ser “colonizado” por idiotas). Depois vem a família toda, porque sim. A dela e a do “pai”, que entretanto desapareceu. Sabe quantas vezes vi este filme? Até fizeram os passes baratos e quantos mais filhos mais barato fica para os ajudar; se fosse só para nós estavamos bem fdds como estivémos sempre.

            Isto é correcto? Não é.

            E a piadinha do MM diz tudo. Só um func pub bem instalado é que se sai com uma destas.

          3. Para WW 20:53
            Este blogue do Sapo não identifica a quem se dirige a resposta.
            “Mário Machado?” respondia a V. 08:19 porque “Só espero que não poupem os saloios e da próxima vez.” pareceu-me excessivo mesmo para quem já demonstrou pouco saber de história e ter alguns delírios paranóicos:
            “Vocês andaram anos a preparar isto, a limpar a História nas escolas, na comunicação social, nas livrarias… Mas nós vamos resistir mais uma vez. Não vamos ser colonizados por gente indolente e totalitária que quer dominar o mundo com o ressentimento e a inveja como o comunismo.”
            Sinceramente não imagino onde foi buscar “colonização” ao que escrevi.

          4. Bem, parece que ignora que essas “heranças” e restos de que fala (e que eu contesto porque não acho isso nada relevante para a nossa identidade) é um assunto que é utilizado para legitimar a invasão da Europa que está em curso.

            No outro dia estava um “historiador” num programa tido como sério da RTP a falar das origens egípcias da Sé de Braga. Isto é normal?

          5. A “invasão da Europa”, poderá ser justificada por motivos humanitários, mais menos do que mais, legitimada por acções recentes e sobretudo omissões da Europa nos países de onde os “invasores” são originários, mas nunca por circunstâncias históricas ultrapassadas, fossem elas a permanência árabe na península ou as cruzadas, como também está na moda. Isso são pretextos sem ponta por onde se lhes pegue.
            No caso de Portugal o pretexto, que também o é, é o passado colonial. Também por isso erra quando diz que isso (a herança muçulmana) não é relevante para a nossa identidade. Gilberto Freyre, importante antropólogo e sociólogo, disse que os portugueses não eram racistas por serem meio mouros.
            Eu não só concordo como estou convicto que essa tolerância, deve-se não apenas a genética herdada mas a circunstâncias históricas em que houve convivência entre muçulmanos e cristãos. Claro que isto não significa que não exista racismo em Portugal mas significa que, em termos prácticos e comparando, sei lá, com com espanhóis, ingleses, holandeses, suecos, chineses, indianos, etc., se possa dizer que os portugueses não são racistas.
            Eu defendo que a nossa colonização teve mais aspectos positivos do que negativos e que a vergonha que para sempre nos conspurcou a história, foi a descolonização como foi feita.
            Mesmo entre os que afirmam que o nosso colonialismos foi mau – toda a esquerda mais a direita “soft” e grande parte da outra, ou seja quase toda a gente – poucos ou nenhuns haverá que digam que foi pior que a inglesa, a francesa, a holandesa ou a espanhola.
            Poucos sabem que em Goa, nas festas de S. Francisco Xavier, vêem-se cristãos, hindus e muçulmanos e, que eu saiba, é o único local do mundo onde essa convivência é possível. Isso sim, faz-me ter orgulho de ser português!
            Quanto às “invasões” e para citar o pior exemplo que me lembro, a responsabilidade é “disto” que nos governa, pois foi a Assembleia da República que votou a lei da Nacionalidade que aprovou o Mamadou Ba.

          6. Credo, você vê o mundo como o Eng.° Guterres. Não passe as culpas para a assembleia — também vai ser responsável.

  9. (continuação)
    Num quadro feudal o único meio de reagir à tirania era a revolta pois outros senhores não interviriam num território alheio, e mesmo “overlords” maxime o rei, só o fariam em caso de força maior, isto é quando a revolta estava já instalada.
    Já em Portugal, embora a nobreza quando sentia um rei fraco, se arrogasse direitos criando honras e coutadas onde as não existiam ou exigindo serviços e tributos a que não tinham direito, mas logo outro rei ordenava inquirições, mandava juízes régios repôr os direitos estabelecidos nos forais e decidia pessoalmente as queixas na permanente iteração da côrte pelo país. A respeito da última nota, gosto de dizer que um homem bom de um concelho na idade baixa média portuguesa, tinha mais facilidade em falar directamente ao rei do que eu hoje em ser recebido por um director-geral.
    Assim, enquanto na Europa ocorreram revoltas várias, de serão mais conhecidas as “jacqueries” francesas e menos as “bauerkriegs” (guerras de camponeses) que, no Sul da Alemanha, partes da Áustria e na Suiça, causaram mais de dez vezes mais mortos, em Portugal a instabilidade social na regência do infante D. Pedro e após a morte de D. Sebastião não têm comparação possível nem em dimensão nem nos motivos. É que a reacção natural dos portugueses à injustiça não era e revolta mas a petição; e preferiam aguardar pelo que se seguiria, o que considero uma das fontes do sebastianismo.
    Escrevi “brandos costumes” entre aspas porque acredito que os portugueses apenas demoram mais tempo a actuar violentamente pelos motivos elencados. Mas a guerra civil de 1828-1834 foi extremamente violenta, as acções sobre os franceses em retirada também o foram e a 1ª República nada teve de branda.

    Também existiam acentuadas diferenças na nobreza. Em Portugal, como aliás noutros lados, existia uma ligação biunívoca entre nobreza e serviço militar, mas não existia o conceito de exército permanente. A alta nobreza que exercia os alto comandos militares, tinha posses de que se sustentava, recebendo mais bens e tenças quando exercia; a pequena nobreza ou estava junto à côrte, recebendo meios para, por exemplo, sustentar um cavalo, ou eram-lhes atribuídos empregos, por exemplo escrivães, que exerciam quando não eram chamados a serviços militares. Ao contrário, Castela, cedo absorveu a tradição do sacro-império de exércitos permanentes com chefias profissionalizadas o que, sendo evidentemente mais eficaz acarretava probemas, pois não se podiam desmobilizar mercenários nem dispensar oficiais que não tinham uma quintã onde regressar ou um ofício para exercer, sem risco de desordens e crimes.
    Essa nobreza nacional desapareceu em Alcácer-Quibir.
    E em 1582 nas Côrtes de Tomar, morreu esse Portugal. De facto, não houve uma alteração fiscal nem mudou a organização da Igreja, mas ao contrário do que acreditaram portugueses que apoiaram Filipe II em Tomar, Espanha não se comprometeu na defesa do Império. Portugal perdeu a armada na “Armada Invencível” perdeu o Brasil e Angola que recuperou mas perdeu definitivamente grande parte do comércio asiático para a Companhia das Índias Orientais. E o que nos separava da Europa desapareceu quando o desfecho da crise dinástica não repetiu 1385. Filipe II não voltou a Portugal e o povo português não voltou nem a ter Côrtes nem a ver o seu rei durante 60 anos. Com D. João IV a Côrte practicamente fixou-se em Lisboa.
    Talvez se possa dizer que não se perdera a independência mas o seu conteúdo foi radicalmente esvaziado e nunca recuperado.

    1. Excelente análise. É enriquecedor podermos apurar conhecimentos através de diferentes pontos de vista.
      Agradeço-lhe o trabalho que teve em o escrever

    2. Muito boa súmula. E que responde em parte a uma dúvida que tinha desde há muito: que aconteceu às populações muçulmanas que viviam nas mourarias, já que, como refere, não houve uma expulsão dos mouriscos como em Espanha (e que deixou regiões quase totalmente desertas, como nalguns pontos de Aragão)?
      Mas não concordo muito com o trecho de VPV que o Pedro aqui nos deixa. Havia já um sentimento nacional muito antes do nacionalismo romântico, que é visível por exemplo nas trocas do Bandarra ou nos próprios Lusíadas. Por alguma razão a arraia miúda apoiou o Prior do Crato, assim como os Açores. Ou os monges de Alcobaça inventaram as Cortes de Lamego. E já antes da revolta da Catalunha se verificavam motins e cenas de descontentamento, sobretudo porque se desconfiava que Olivarez queria tornar Portugal num “reino” como os outros.

      1. Obrigado pelo elogio. Relendo o que escrevi vejo que deveria ter feito uma revisão antes de publicar; mas, enfim…
        Quanto aos sentimentos nacionais que refere, não sou competente para analisar o seu aparecimento e desenvolvimento. Tendo nós as fronteiras “grosso modo” mais antigas da Europa não será de estranhar que também os sentimentos nacionais aparecessem mais cedo mas não sei avaliar se é legítimo estabelecer ligação entre as trovas do Bandarra e a épica de Camões. Também a língua e a religião comuns foram fortes factores de aglutinação, embora, quanto à religião, também exista muito que dizer fora da história oficial ou, melhor, da versão oficial da história.
        Chamando-lhe sentimentos de pertença, acredito que inicialmente seria o país (no sentido etimológico, a paisagem, aquilo que se via ou se percorria habitualmente) depois ter-se-à seguido um período já conceptualizado em que da figura do rei comum se evoluíu para o Estado e depois a Pátria, a terra dos pais já no nacionalismo romântico que referiu.
        Seguiu-se a confusão dos idealismos que se sobrepuseram ao que nunca devia ter deixado de ser o principal e que, no caso de Portugal agravou a actual desgraça.
        Depois da descolonização, o confronto das ideologias impediu que alguma vez se definisse com clareza o que era Portugal e quem eram os portugueses. Na economia foi o desastre. Não se definindo o que era Portugal, não se redimensionaram nem a TAP nem a marinha mercante. A primeira manteve-se sobredimensionada a segunda desapareceu (o que me leva a suspeitar que o marxismo seja mais aéreo do que marítimo). Sines, o melhor porto de águas profundas da costa ocidental da Europa e onde estava previsto refinar as ramas de Angola transportadas nos 5 petroleiros da Soponata ficou a “navegar à vista” e até refinou ramas provenientes do Daesh, mas já em petroleiros fretados. Agora, porque o hidrogénio tem mais “glamour” isto é, é muito mais caro, nem-se pensou que para importar o muito mais barato gás americano não se podia entregar a administração aos chineses e foi preciso o embaixador americano dar uma entrevista ao Expresso para se ir a correr oferecer Sines2 aos japoneses que aliás duvido que aceitem enquanto a Intersindical/PCP forem as garantias da sobrevivência do governo.
        Parece que me perdi mas não. Dada a actual supremacia do económico o que acontece é que sem sabermos quem fomos, quem somos e o que queremos ser não é possível fazer escolhas económicas coerentes.
        Finalmente a Mátria, como propôs Natália Correia, a língua mãe, os sentimentos maternos. Será o meu último recurso permitindo idealizar um futuro mais espiritual do que material, mantendo a memória de tudo o que a língua transmitiu, independentemente de Portugal ser uma região periférica que reporta directamente a Bruxelas ou que o faz via Madrid, independentemente de ser ser continental, ilhéu, retornado ou emigrante, independentemente de ter também passaporte português ou nem isso.
        País, Estado, Pátria, Mátria. Se eu fosse Eduardo Lourenço dava um lindo ensaio.

  10. Foi uma espécie de anschluss, mas para melhor na conjectura da época, legitimado pela herança régia de Filipe II.
    O Sebastianismo pontificou pelo descontentamento dos anteriormente privilegiados que, para além do aumento dos impostos e da recruta de mancebos para reforçar os contingentes das guerras europeias, também se prendeu com a espoliação de vários territórios do império, principalmente pelos holandeses, esses padrões de rectidão.
    Estaríamos melhor neste nosso rectangulozinho sem a Restauração? Talvez, mas nunca seria a mesma coisa.

  11. Permite-me discordar, Pedro. VPV por vezes gostava de nos atirar com certas teses esquecendo-se de outros elementos. Havia já um sentimento nacional muito antes do nacionalismo romântico novecentista, que é visível por exemplo nas trovas do Bandarra ou nos próprios Lusíadas. Por alguma razão a arraia miúda apoiou o Prior do Crato, assim como os Açores, durante vários anos. Ou os monges de Alcobaça inventaram as Cortes de Lamego. E já antes da revolta da Catalunha se verificavam motins e cenas de descontentamento, sobretudo porque se desconfiava que Olivarez queria tornar Portugal num “reino” como os outros.

    1. VPV fora da sua zona de conforto não fez investigação e assim aceitou a versão “politicamente correcta” da História.
      Diz e bem que o povo e os açorianos apoiaram D. António mas já não a nobreza pois a única grande Casa que o apoiou foi a de Vimioso.
      É bem conhecida a “boutade” de Felipe II: Este reino, herdei-o, comprei-o e ganhei-o!
      De facto, ganhou-o o duque de Alba por ele e é certo que o comprou porque os seus agentes subornaram tudo e todos em Portugal, tarefa facilitada pela grande crise económica e, sobretudo, pela nobreza de então serem já os que não foram a Alcácer-Quibir.
      Mas é falso que o tenha herdado, e duplamente falso. Primeiro, como se diz sem qualquer relevo na história liceal, a duquesa de Bragança, D. Catarina de Portugal, tinha precedência dinástica sobre Felipe II por ser descendente de um filho de D. Manuel e não de uma filha como Felipe II. Segundo porque é hoje practicamente certo que o Infante D. Luís casou com Violante Gomes pelo que D. António ou já nasceu legítimo, como acho mais provável, ou foi depois legitimado (legitimatio per matrimonium subsequens).

      1. Não sabia que D. Luís se tinha casado com Violante Gomes. Ou antes, imaginava que o Prior do Crato nunca tinha conseguido provar qualquer legitimidade. De facto, isso e a precedência de Don Catarina levaria a que Filipe II tivesse realmente ocupado o território e apanhado” a coroa sem a legitimidade devida. Provavelmente argumentou que D. Catarina não tinha o mesmo direito à sucessão por vigorar em Castela a Lei Sálica.

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