Carta Encíclica “Fratelli Tutti”


Cristina Torrão,

Alguns pontos que considero interessantes (e importantes), da última Carta Encíclica do papa Francisco, publicada e m 3 de Outubro passado:

7. Quando estava a redigir esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19 que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afectam a todos. Se alguém pensa que se tratava apenas de fazer funcionar melhor o que já fazíamos, ou que a única lição a tirar é que devemos melhorar os sistemas e regras já existentes, está a negar a realidade.

11. A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.

15. A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. Com várias modalidades, nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores, e assim a sociedade empobrece-se e acaba reduzida à prepotência do mais forte (…) Neste mesquinho jogo de desqualificações, o debate é manipulado para o manter no estado de controvérsia e contraposição.

18. Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma selecção que favorece a um sector humano digno de viver sem limites.

27. Criam-se novas barreiras de auto-defesa, de tal modo que deixa de haver o mundo, para existir apenas o «meu» mundo; e muitos deixam de ser considerados seres humanos com uma dignidade inalienável passando a ser apenas «os outros». Reaparece «a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer os muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro, quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes. Porque lhe falta esta alteridade».

74. O facto de crer em Deus e O adorar não é garantia de viver como agrada a Deus. Uma pessoa de fé pode não ser fiel a tudo o que essa mesma fé exige dela e, no entanto, sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros (…) O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.

107. Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o possuem, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade.

121. Por conseguinte, ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra. Assim, como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pelo simples facto de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento.

180. Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. Exigem a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade. Todo e qualquer esforço nesta linha torna-se um exercício alto da caridade [nesta passagem, a tradução alemã utiliza a expressão “amor ao próximo” – Nächstenliebe – que considero mais apropriada do que “caridade”].

 

A Encíclica completa pode ser lida aqui:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html#_ftn2

11 comentários em “Carta Encíclica “Fratelli Tutti””

  1. O Papa Francisco com as suas encíclicas vem complementar o Catecismo da Igreja Católica, um volumoso livro que todos os católicos e não-católicos mas pessoas de boa vontade deveriam ler. Está lá tudo muito bem explicado e saiu no tempo do saudoso e agora S. João Paulo II. Existe até um capítulo – 2358-dedicado aos homossexuais ( evitar humilha-los).

  2. O papa a querer destruir, civilização, países, a escolha, a liberdade.

    Vem na encíclica a explicar a sua aliança com o regime comunista Chinês?

    lucklucky

  3. Tenho desde há poucos dias a Carta Encíclica impressa mas ainda me falta muito para acabar a leitura que é longa e densa.

    Diz-me a minha Mulher que tem sido comentada por pessoas não católicas e, de facto, o Papa dirige-se a todos os crentes e não crentes. Claro que é de louvar mais esta manifestação ecuménica – as menções a Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo e ao Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb seriam impensáveis há relativamente pouco tempo – mas, com o meu pessimismo acentuado, receio que aborde tantos temas que permita algumas selecções intencionais que sirvam propósitos de divisão e polarização, o que a Encíclica globalmente condena.
    Será sempre difícil se não impossível que cada um sinta empatia com aspectos a que já era sensível e busque assim na leitura uma espécie de “aprovação” papal.

    Exemplificando, eu fui particularmente sensível ao tratamento comunicação, no conteúdo de 42. a 46. E, atrevendo-me a errar e até a ser injusto, diria que a Cristina Torrão na sua selecção 7., 11., 15. e 27. lembrou-se, se calhar apenas subconscientemente, de Trump e André Ventura.

    1. Presumo que o próprio papa também escreveu ao pensar nessa gente que faz da tradição cristã/católica uma bandeira (se bem que ele talvez não conheça o nosso Andrézito).

      Acrescentaria o Bolsonaro à lista. Ao Trump, voltarei daqui a dias.

    2. Mas para o Papa (e a autora) o hiper nacionalismo chinês já é bom. Por oposto ao só nacionalismo.

      Que tal ser Trump a vetar os padres que “operam” nos EUA?

      lucklucky

  4. No sítio mais selectivo do mundo — a dizer aos outros para abrirem fronteiras e aturarem toda a bagunça do mundo. É preciso ter lata.

    E já que é tão malvado, o Ocidente não deve fazer mais nada — os chineses, os indianos e os africanos, que são muito melhores e têm bom coração, que salvem o mundo. Que acolham as outras culturas e as outras religiões.

    Comecem por não o sujar. E livrem-se dos ditadores e dos senhores da guerra, dos violadores e do tráfico de droga, em vez de virem para a Europa acusar os nativos de terem privilégios e de serem racistas.

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