Em Portugal tem-se uma tendência irreprimível para brincar com coisas sérias, o que tem como efeito a sua banalização. Nesse âmbito não consigo conceber exercício mais disparatado do que o da Plataforma de Apoio aos Refugiados que lançou um programa para as crianças nas escolas dizerem se fossem refugiadas o que levariam nas mochilas. Para as crianças o exercício deve ser muito engraçado, já que, da mesma forma que brincam aos polícias e aos ladrões, também podem brincar aos refugiados. Duvido é que se aparecesse alguma criança no grupo que tivesse sido mesmo refugiada, ela achasse alguma graça a recordar essa sua experiência, ainda que a pretexto de uma brincadeira dos colegas.
Mas o assunto salta rapidamente das crianças para os adultos e então começam as figuras públicas também a brincar com a situação de refugiado. Mas o politicamente correcto impõe que se dê uma resposta correcta, sob pena de ser decretada uma espécie de morte civil nas redes sociais. Foi o que se passou a Joana Vasconcelos que respondeu que se fosse refugiada levava o iphone, o ipad e todas as suas jóias. Curiosamente não terá sido essa a sua intenção, mas até agora foi a personalidade que deu a resposta mais correcta. É que o que um refugiado deve levar consigo são bens de valor, dos quais naturalmente terá que se desfazer para chegar ao seu destino. Quem não se lembra do filme Casablanca, onde o Capitão Reynaud exigia aos refugiados dinheiro para lhes fornecer um visto, e se eles não o possuíam propunha-se dormir com as suas mulheres a troco daquela simples oportunidade de fugir, mas que para os refugiados era tudo?

Mas se toda a gente verberou Joana Vasconcelos, ninguém estranhou a resposta do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que do assento etéreo onde subiu pode dizer os disparates que quiser, que ninguém liga absolutamente nenhuma. O que disse Marcelo? Que levaria alguns objectos de valor estimativo pessoal como fotografias, recordações de família. Levaria ainda uma Bíblia e um livro, possivelmente o Guerra e Paz, embora o Presidente também considere A Condição Humana, de Hannah Arendt, ou Ulisses, de James Joyce. Por último, o Presidente levaria ainda um telemóvel e carregador, já que o resto é supérfluo. Pelos vistos, o que deve ser essencial é transportar os quatro volumes da Guerra e Paz de Tolstoi pela zona de guerra, uma vez que a viagem é aborrecida, e nada melhor que uma obra sobre a guerra napoleónica na Rússia para estarmos entretidos na viagem. Esses livros também devem ser muito úteis para atravessar fronteiras, pois consta que os militares da zona andam ansiosos por ler e rapidamente deixariam passar um intelectual que trouxesse consigo obras clássicas tão interessantes.
Para um refugiado de guerra a sério, não interessa nada o que leva na sua mochila. Aliás normalmente nem tem tempo para a fazer, debaixo das bombas. O que lhe interessa mesmo é chegar a um lugar seguro, e ter-se colocado a si e aos seus a salvo da guerra. E quem tem que andar dias e dias em fuga só pode trazer consigo o essencial para sobreviver: água, comida, e eventualmente algum bem de valor com que possa pagar a viagem, uma vez que até a moeda do país deixa de valer nessas alturas. Alguém sabe que os traficantes cobram mil euros para fornecer a um refugiado um simples lugar num barco pneumático, que se pode virar à primeira onda, e onde naturalmente não entra qualquer mochila, pois nesse espaço entra outro refugiado? Há coisas dramáticas demais para que se queira brincar com elas.


O pior de tudo parece não preocupar muita gente: a instrumentalização da escola pública que estando sob gestão do poder autárquico e refém do funcionalismo público socialista e do carreirismo sindical, passou de um espaço de transmissão de conhecimento rigoroso e científico para uma espécie de madrassas onde se recitam as “causas” de esquerda e o politicamente correcto se estabelece como verdade fundamental. Quem realmente conseguir estudar verifica que não consegue pensar ali pela sua própria cabeça.
Que teoria da conspiração…
Só se fez uma pergunta: “se fosses tu a estar na pele de um refugiado, o que levavas contigo?”
Depois a resposta varia de pessoa para pessoa.
Você é daqueles que tem medo que uma criança possa raciocinar um bocadinho melhor que os xenófobos e que passe a pensar:
«espera lá, estes não são invasores, são pessoas que perderam tudo (exepto o que cabe na mochila) e fogem da guerra, do terrorismo e da morte, e todas preferiam não ter de o fazer. Se estivesse no lugar deles, gostava de ser ajudado (como aliás manda a lei) em vez de ser encurralado em campos de concentração miseráveis»
Mas como só se fez uma pergunta, pode até haver crianças que pensam já como os seus pais:
«Isto é uma palhaçada para me fazer ter pena dos terroristas. Na mochila não levava nada pois ficaria em minha casa a fazer frente ao estado islâmico e ao ditador Bashar Al-Assad. Morria decapitado ou num dos matadouros do regime, mas pelo menos não ia incomodar as pessoas de outros países»…
A ignorância gera preconceito. O preconceito gera medo. O medo gera ódio. O ódio é o que você destilou no seu comentário. Chega ou é preciso fazer um desenho?
Para finalizar: na minha mochila, levava uma barra grande de sabão azul, um dumbphone (com bateria que dura 1 mês ou mais), um mini dicionário com as línguas dos países que tivesse de atravessar, uma ou duas ‘mudas’ de roupa e um 2º par de calçado, utensílios de higiene pessoal.
Ao meu lado, levaria os meus cães.
E antes de sair de casa, choraria durante vários dias por ter de abandonar os meus animais de estimação cujo transporte é praticamente impossível (gatos, peixes, pássaros), e o facto de ter de abandonar o meu país (e provavelmente familiares e amigos) para me refugiar num país completamente diferente, onde não sou bem vindo e para onde preferia não ter de ir.
A minha força anímica durante o caminho ser pensar que a alternativa seria bem pior: ser assassinado ou pelo Estado Islâmico ou pelo regime do ditador Sírio.
E isto, meu caro, não é ser de esquerda. É ser humano de plena consciência.
E acha que V o compreendeu?!
PATETA.
lá sabe a criança o k é preparar a mochila de um refugiado.
Fugir de bombas é muito diferente de “fugir”
dos pais a dizer. …anda lá depressa.
Infelizmente, ainda não podemos colocar um “favorito” nos comentários. Mas de uma humana para outra/o, muito obrigada pela resposta.
Também pensei no que levaria. Pensei muito na comida e bebida, pensei no que levaria se tivesse crianças pequenas.
É aterrorizador. Temos tanta sorte por viver em paz.
Estou-me a borrifar para o preconceito e para o medo. Não quero é viver no meio de muçulmanos. A religião é um atraso, sobretudo a deles. Além disso têm mau gosto e só fazem barracões ordinários em cimento. Tipo sócrates mas pior ainda.
Amén! 🙂
se as crianças chegassem à escola e tivessem uma missa, como já acontece, estaria tudo certo, é a direita, mas quando não concorda com o que acontece na escola é a esquerda. Nem sei como adjectivar escumalha como você, não me consta que o representante do Alto Comissário para os Refugiados e o Presidente da República sejam de esquerda e foram eles que PATROCINARAM ESTA INICIATIVA.
esta fuga ten todo o aspecto e organizada
já ouve guerras no Próximo Oriente e ninguém fugiu
na Europa também
não me admirava ver estes politicos em fuga
eu nunca fugiria
a não ser de certos politicos e financeiros
Estou de acordo consigo, Luís. Essa treta da mochila faz-me lembrar o naufrago que chegou a uma ilha isolada e encontra um tesouro, mas, não obstante tal riqueza encontrada, acaba por morrer de fome.
Na realidade a moda portuguesa pretende sempre brincar à caridade. E à sua maneira fá-lo tão eficazmente que ao invés de alterar a condição de quem diz ajudar perpetua, isto sim, a sua vaidade em pretender ser um caridoso ou caridosa.
É tão fácil ignorar a condição destes refugiados que se refugiam numa qualquer coisita para parecer caridosos. E é fácil ignorar porque quase todos só revelam ignorância. Coitadinhas das crianças que acabarão por ser o que seus pais são.
No meu tempo não havia mochilas, eram caixotes.
Alguns caixotes até a Cuba foram parar, especialmente se tivessem quatro rodas.
Afinal nada do que fica faz falta.
“Para um refugiado de guerra a sério, não interessa nada o que leva na sua mochila. Aliás normalmente nem tem tempo para a fazer, debaixo das bombas. O que lhe interessa mesmo é chegar a um lugar seguro, e ter-se colocado a si e aos seus a salvo da guerra. E quem tem que andar dias e dias em fuga só pode trazer consigo o essencial para sobreviver: água, comida, e eventualmente algum bem de valor com que possa pagar a viagem, uma vez que até a moeda do país deixa de valer nessas alturas. Alguém sabe que os traficantes cobram mil euros para fornecer a um refugiado um simples lugar num barco pneumático, que se pode virar à primeira onda, e onde naturalmente não entra qualquer mochila, pois nesse espaço entra outro refugiado? Há coisas dramáticas demais para que se queira brincar com elas.” Certíssimo o que hoje escreveu que não foi o mesmo que em outros comentários. Como é lógico e real quem foge da guerra, não pensa no que leva nem no que lhe fará falta, pensa única e exclusivamente em salvar-se e nada mais. Perante isto, como pode a UE exigir-lhes a documentação que se o bote, onde vão se virar, ficarão sem nada e se não virar, ficarão com o pouco que puderam trazer que mal cabe no bote? Como pode a hipócrita UE deixar que alguns dos seus membros lhes confisquem os bens e lhes deixem apenas as alianças se as tiverem e lhes barrem a passagem? Como pode a hipócrita UE, fazer acordos com a Turquia a troco de dinheiro e em que a Turquia recambiará os refugiados à sua origem se não tiverem documentos? Hipócritas e desumanos são estes políticos a quem prestamos vassalagem que não se importam com a vida humana. Se se importassem minimamente não tratavam o ser humano que nem animais. Joana Vasconcelos não pensou com a cabeça, pensou com os pés se assim não fosse, antes de dizer disparates, pensava ou calava-se.
Já tinha feito um comentário nesse sentido a um texto de Pedro Correia, terrorismo. Estranhei, portanto, o facto de ninguém estranhar a infantilidade e perniciosidade do exercício. Comentei também, e especialmente, relativamente ao sr presidente da república. Quanto ao facto de simbolicamente se colocar na posição de um refugiado. Inacreditável. Acresce a equiparação que fez relativamente aos portugueses que retornaram do ultramar português! Palavras e comentários do presidente da república que não mereceram a estranheza de ninguém!! Chego, por vezes, a pensar que devo estar doido ou fora de tempo!! É, por isso, um alívio de alma ler comentários e textos, como os aqui deixados por outros leitores. Um bem haja
No seu comentário V. escreve: “… uma espécie de madrassas onde se recitam as “causas” de esquerda …”.
Exactamente. Lapidar.
Infelizmente na comunicação social já há muito que esse triste fenómeno se manifesta.
ora não poderia estar mais de acordo, brincar com coisas sérias, ontem fiz um comentário noutro blogue que abordava a questão da Joana Vasconcelos e a indignação sobre o que ela levaria…..está aqui o-ridiculo-425049?thread=796505#t796505
http://365forte.blogs.sapo.pt/sem-nocao-d
De facto neste país dá-se pouco valor ao sofrimento dos outros.
Em 1975 fugi da guerra civil de Angola e refugiei-me na Namíbia.
Não tinha mochila! Mas lembro-me que a minha preocupação e de meus familiares, para não fugirmos em vão foi levar água e comida.
Quer a Guerra e Paz quer o Ulisses são óptimos como armas de arremesso, o que faz sempre jeito a um refugiado ter à mão.
Vasconcelos foi quem, de facto, deu a resposta mais correcta. Jóias e instrumento de trabalho. A roupa rouba-se, a comida mendiga-se e os livros vai-se às bibliotecas ou lêem-se no supermercado. Os instrumentos de trabalho dão-nos dignidade e as jóias corrompem quem for preciso corromper.
viva.
Eu nao sou da tal comissao, mas o Luis está a ser vera. Mesmo que o que diz o Luis esteja certinho, nao tem a perspetiva de que se trata de um meio, que nao um fim, e o facto maior é que se fala na campanha.
E para além de “meio”, e da mochila, e dos tais mil euros por lugar, uma absoluta pechincha comparado com o financiamento estatal a cada refugiado recebido.
A campanha, ao menos na aparencia, e o Luis portanto certinho, focam-se na fuga. Mas a questao , sobejamente conhecida de todos, é a recepçao. O NEGOCIO!!!
Toda esta encenação com os refugiados só demonstra pela enésima vez que a esquerda trauliteira, intolerante, corrupta e totalitária controla “este país” …ainda
Isto só pode ser obra de sindicatos esquerdoides k intoxicam a martelo k o Fidel é herói apesar de ter AASSASSINADO MAIS DE CINQUENTA MIL N’EL PAREDON (se contarmos os k foram comidos a fugir para a Flórida são mais de CEM MIL…), que não explicam obviamente o PRÉMIO SAKHAROV DO PARLAMENTO EUROPEU. ..e já querem intoxicar as crianças com a sua versão de…..xenofobia! !!!!
Os media, claro, ajudam.
Há tempos a TVI chamava s STÁLIN. …”O CONTROVERSO STALIN ” !!!!
OS MAIS DE VINTE MILHÕES DE INOCENTES AASSASSINADOS. era uma controvérsia. ….ou estatística.
MALDITA KUUULTURA SELVAGEM DE ESQUERDA
Este “O SÁTIRO” por onde cometa, para além de ser sempre do contra, só destila ódio.
Ó criatura talvez isso deva ser da bílis.
Quanto ao texto, como sempre.
Tudo oque se possa ou não fazer nunca é completamente consensual.
Agora se parar para refletir, se tal ato tem mais prós ou contras, antes de se criticar é que sim, seria de mérito.