Tornou-se corrente e repetitivo ver na televisão o estafado recorte de uma velha ida do governo anterior ao Palácio de Belém para apresentar cumprimentos, quando a troca de votos natalícios ainda se confundia com uma troca de piropos.
De cada vez que revejo essas imagens e a respectiva frase recortada do discurso do primeiro-ministro, ocorrem-me sempre as conhecidas qualidades do verniz: brilhante e estaladiço. Disse José Sócrates naquele acto formal relembrado pública e exaustivamente na televisão: «Gostamos muito de trabalhar consigo».
"Gostamos muito de trabalhar com Vossa Excelência" – dir-se-ia no tempo em que o verniz e o exercício político eram menos compatíveis. Conclusão: quanto mais se estudam gestos e palavras para abrilhantar a figura, maiores são as estaladelas que deixam à mostra o que apenas foi envernizado.

Parece-me um caso de açúcar a mais.
Enjoativo.
Com açucar, sem afecto…
… E com morangos?
É mais esse género, sim: tudo de plástico, para telespectador tomar por real…
🙂
Quando o verniz estala, permite vislumbrar aquilo que ele verdadeiramente esconde. Umas vezes esconde escutas e assessores que rodopiam no organograma outras vezes revela, revela bolos-rei alarvemente mastigados ou citações literárias mal digeridas.
Pois.
“bolos-rei alarvemente mastigados”
Que originalidade! Que elegância! Que literacia!
Pois. Diria JC.
Dito.
Meu caro João, embora detestando o inquilino de Belém, estou completamente de acordo consigo.
:))
É bom saber, Ariel. Trata-se de um princípio, não é?
Sem dúvida, nestas questões sou formalista.
«Gostamos muito de trabalhar consigo, Vossa Excelência».
Gostamos muito de trabalhar com Vossa Excelência, sigo.
LOL
Lá diz o provérbio: “Quod natura non dat, Salamantica non praestat”. Ainda por cima, a Salamanca do PM foi o que foi …
Com estes edificantes exemplos, como posso eu levar a cabo a hercúlea tarefa de explicar aos meus alunos de 16 anos que não devem dizer “você” quando se dirigem à minha humilde pessoa?
Esse é um problema, sim. E muito actual.