Brexit.


Luís Menezes Leitão,

Sempre me considerei eurocéptico, mesmo quando políticos, como Pacheco Pereira ou Freitas do Amaral, que hoje dizem da União Europeia o que Maomé não disse do toucinho, faziam intensamente campanha pela ratificação do Tratado de Maastricht, como é óbvio sem referendo, porque as elites iluminadas nunca querem ouvir os cidadãos. Para mim a União Europeia nunca passou de um processo para conseguir que os Estados pequenos fossem absorvidos pelos grandes, e que estes por sua vez se subordinassem ao eixo franco-alemão. Neste momento, esse objectivo foi plenamente conseguido. Quando o Presidente da República, num verdadeiro acto de vassalagem, vai a Berlim pedir que não haja sanções a Portugal, fica-se a saber quem verdadeiramente manda na Europa e como as instituições europeias não passam neste momento de um verbo de encher.

 

É por isso compreensível que o Reino Unido neste momento esteja a equacionar seriamente a saída da União Europeia. A acontecer, não será novidade nenhuma. A Gronelândia também já saiu num referendo, levando a que nessa altura a então CEE tivesse perdido metade do seu território. Mas a Gronelância é uma pequena economia, cuja saída não teve grande impacto. Já o Reino Unido é a quinta economia do mundo e a sua saída terá um impacto devastador, não apenas para a Europa, mas também para o mundo em geral. Mas apesar disso, o povo britânico está profundamente dividido, com os jovens a encarar seriamente a saída, enquanto que os mais velhos optam pela continuação.

Pessoalmente, se fosse britânico, não votaria pela saída do Reino Unido da União Europeia. Em primeiro lugar, o Reino Unido conseguiu um opt-out numa série de matérias, incluindo a não participação no euro, o que leva a que a participação na União Europeia lhe seja mais benéfica do que prejudicial. Se saísse, ficaria na mesma posição da Noruega, que tem que adoptar todas as directivas europeias para comerciar com o espaço europeu, mas não participa no processo de decisão. Por outro lado, há partes do país, como a Escócia, que são fortemente contrárias à saída, pelo que, a concretizar-se esta, poderia conduzir a breve trecho à dissolução do país.

 

Mas o povo britânico é muito cioso da sua independência, e a verdade é que a União Europeia está há muito tempo transformada numa organização que só serve à Alemanha, que goza calmamente dos seus excedentes, enquanto o resto da Europa todos os dias definha. É por isso fácil à campanha do Brexit continuar a apresentar o estatuto especial britânico como um caso de dominação, como se vê no cartoon abaixo.

O que se deve, por isso, perguntar é o seguinte: Se os ingleses, apesar de todo o estatuto especial que conseguiram, se vêem como meros vassalos europeus, o que dirão então os portugueses? Seja qual for o resultado do referendo, é bom que o mesmo sirva para se perceber que a União Europeia tem que levar uma grande volta. Como está, não pode continuar.

0 comentários em “Brexit.”

  1. Portugal foi vassalo da Inglaterra, sem direito a voto, desde o tempo do Marquês de Pombal até à entrada na CEE. Chegou mesmo a ter um governo inglês dentro do país. Veja-se a recepção que Salazar fez à jovem “imperatriz” Isabel II. Agora é vassalo, com direito a voto, da Europa. Parece-me uma melhoria.

      1. Independentemente da questão de saber se temos ou não temos direito de voto, não há dúvida de que xico tem razão numa coisa – não há grande diferença entre sermos vassalos da Inglaterra, como fomos, e sermos vassalos da Alemanha, como somos.
        Mas há uma diferença no tipo de vassalagem: éramos vassalos da Inglaterra na nossa política de Negócios Estrangeiros, agora somos vassalos da Alemanha sobretudo na nossa política interna.

        1. Há-de explicar se é da política externa ou da interna ter um governo liderado por um súbdito inglês, e a imposição de uma guerra civil para colocar no trono um rei que abdicara em favor de outro reino.

      2. O mesmo que tivemos em tudo o resto: votámos a regra quando foi desenhada.

        Temos assento no Conselho, nos vários Conselhos de Ministros (incl. Ecofin), no BCE, no Eurogrupo, e temos representantes no Parlamento que elegeram a Comissão sob proposta do Conselho.

        A instituições da União Europeia não padecem de falta de democracia, padecem de falta de interesse por parte de eleitores, cidadãos, bloggers, jornalistas, etc que levem à responsabilização dos eleitos.

  2. esta afirmação, retirada do texto, é o cerne da questão:
    porque as elites iluminadas nunca querem ouvir os cidadãos.

  3. Sem perceber quase nada … meramente por instinto
    votaria na saida da UE. Ao ponto em que nos encontramos
    todos … pior é impossivel. A Europa sofre de uma doença
    prolongada e de cegueira . Uma tristeza.

  4. Tenho andado bastante optimista nestes últimos tempos. Este optimismo deve-se ao facto de estarem garantidas as sardinhas para o arraial no Santo António, pois as quotas aumentaram.
    É óbvio que o nosso António tinha de ser chamado à colação na matéria que verte. Pois também este, à falta de humano ouvido que o escutasse, decidiu ir pregar aos peixinhos.
    Nesta matéria, depois de tanto o que já preguei por aqui, permita que me dedique agora a afiar os dentes para o 13 de Junho que se aproxima.
    Nem a saída do Reino Unido me fará desistir da sublime degustação de umas sardinhitas acompanhadas de uma saladita de pimentos e de um belo pedaço de broa.

    Quanto à Alemanha, nem o superavit lhes proporcionará conforto. A Europa vai mudar. E o nosso PR tem de saber o que é prioritário. Jamais aplicarão sanções a Portugal. Ele deve conduzir seus esforços noutro sentido, isto é, como exemplo, na injecção urgente de capitais para as áreas do transporte ferroviário e desenvolvimento dos interfaces de acesso aos nossos portos.

  5. O problema é que os incompetentes que ordenam nesta UE que já não se sabe o que é, são um bando de incompetentes, irresponsáveis e incapazes que ainda não conseguiram ver que ou se tornam competentes, responsáveis e capazes ou provavelmente iremos assistir à queda desta estabilidade que durou setenta anos e aí, nem os fortes escapam. Freitas e Pacheco acreditaram na CEE e muito bem. Onde está a CEE? É aqui que está o busílis da questão, a que ninguém responde nem ninguém fala porque outros, mandam nisto tudo e outros gostam que esteja assim. Não é só o eixo franco-alemão, são as agências de rating, os grandes grupos económicos e outros grupos e que a UE de incompetentes, irresponsáveis e incapazes convêm que seja assim. Enquanto isto acontece outros há que continuam impávidos a assistir ao desmoronamento de algo que foi idealizado e sonhado por Homens, para que a Europa fosse um exemplo para a humanidade.

  6. Caro Menezes Leitão, pelo que tenho lido na imprensa britanica são os idosos que representam a maioria dos adeptos do brexit e os mais jovens o bremain. Onde leu o inverso!?
    O cartoon deve querer referir-se a um putativo cepticismo de cada um dos representantes etários aí desenhados!! Talvez!!

  7. Quem está violar o acordo feito livremente pelas partes? É Portugal não é a Alemanha.

    Mas temos a retórica populista que somos “vassalos”.
    Isto de um acordo que assinámos livremente.

    Se o autor obrigar alguém com quem acordou algo a cumprir os seus termos está a tornar essa pessoa um vassalo?

    Com este tipo de populismo promove-se a destruição sociedade e da confiança necessária à sua sobrevivência defendendo a violação dos acordos com retórica de vitimização tribal.

    —-
    Se não querem uma moeda estável(comparativamente) e preferem ter défices ainda mais altos, imprimir dinheiro sempre que haja défice , ou seja sempre, e ter inflação de 50, 100% só têm de sair do Euro.
    —-
    Mas não, querem os benefícios do Euro sem os custos do Euro.

    Defendam o Portuguexit em vez de usarem a vitimização.
    E depois teremos o jornalismo marxista tuga a comandar a impressão de moeda.
    Com resultado Venezuelanos.

  8. Devia ser pribído escrever uma frase sobre vassalagem, dívida,austeridade … sem logo de seguida escrever outra sobre quem atirou o País para essa triste situação.

    Refiro-me obviamente aos impunes partidos PS e PSD e respectiva iluminada classe política há 40 anos a gerir este regabofe.

    Com o mesmo processo político esperar outro, melhor, resultado é insanidade.

    É tempo de nomear os erros e os autores.
    Chega de lamúrias inconsequentes.

    1. Não pode esperar que a cultura dos almoços grátis se denuncie.

      O Regime do 25 de Abril teve estes almoços grátis:

      – Baixa dívida e finanças controladas pela Ditadura permitiram durante décadas aos sucessivos Governos gastar dinheiro do que o país produzia.
      Passámos de dívida de 15% para 60% sem que aparentemente tenha havido custos directos pois a confiança dos mercados não foge esse valor de dívida. As coisas mudaram quando se saiu daí.
      Todos os governos gastaram mais do que colectaram.
      Se isto não é populismo não sei o que é.

      – Baixos impostos da Ditadura permitiram sucessivos governos aumentar os impostos.

      – Subsídios da CEE e União fizeram entrar milhões de ECUs e Euros em Portugal

      – Natalidade elevada e mortalidade elevada na Ditadura permitiu prometer reformas luxuosas sem haver relação alguma com as mudanças na sociedade.

      -O Neoliberalismo ao combater com sucesso a inflação permitiu juros baixos, que foram tornados ainda mais baixos por intervencionismo político, favorecendo o crédito com juros ultra baixos.

      Tudo isto deu muito maus hábitos ao complexo jornalista-politico e por consequência à cultura geral dos portugueses que vai mudando naturalmente com o que ouve, lê.

      Agora nada será como dantes:
      Existe mais competição , os Africanos e Asiáticos felizmente deixaram de estar presos pela teia Marxista automaticamente deixando de fazer-se de vitimas e passando a crescer e enriquecer.
      A Demografia impede o populismo das reformas só contanto os melhores anos.
      A Alta Dívida impede o populismo dos défices.
      E a falta de paciência da Europa que paga as contas começa a cortar nos subsídios.

      E há muito mais a acontecer.

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