Braço de ferro


escafandro,

Faltam 30 dias para a Grécia ser governada pelo Bloco de Esquerda. Seguir-se-á um divertido braço de ferro (encontrando-me invulgarmente bem disposto, resolvi não lhe chamar chantagem). Se a Grécia o perder e anunciar a suspensão do pagamento da dívida, o estoiro será imediato e já bastante bonito. Se a Grécia o «ganhar», obrigando os europeus que mantêm algum dinheiro nos bolsos a suportarem-lhe os défices, a austeridade passará imediatamente de moda em toda esta nossa bela Europa. O que acabará por conduzir, num futuro não demasiado longínquo, a um estoiro ainda mais bonito. Não sei que vos diga: entre os dois cenários, mon coeur balance (nas últimas semanas, tudo o que tem a ver com a França parece ter ficado na moda).

22 comentários em “Braço de ferro”

  1. Não creio que a vitória do Syriza sejam favas contadas. É bem possível que a Aurora Dourada sofra uma quebra significativa e que algum eleitorado que votou Tsipras na 1ª volta acabe por assustar-se. Parece-me bem possível que a ND acabe por ficar à frente.

    1. «É bem possível que [ … ] algum eleitorado que votou Tsipras na 1ª volta acabe por assustar-se.» É bem possível. Assim como é bem possível que algum eleitorado que não votou Tsipras fique furioso com as tentativas de o assustar e perca o medo.

  2. A chantagem dos Gregos vai dar mal resultado, mais tarde ou mais cedo.
    Mas isso é o menor dos nosso problemas.
    90% das pessoas nos outros países estão cegos ao que que se passa e passou.
    O Jogo funcionou enquanto os antepassados deixaram dívidas baixas.
    Agora é decadência Argentina à escala Europeia e Americana e isto na melhor das hipóteses.

    As asneiras políticas-económicas do passado só foram resolvidas porque havia quem continuasse a desnvolver a tecnologia.
    Não foram as asneiras do New Deal que resolveram alguma coisa, aliás só atrasaram.
    O que fez a América recuperar mas só ao fim de 1 década foram os motores de avião passarem de 400hp para 1500hp, os motores de navio deixarem as turbinas a vapor para motores diesel e evolução nos motores electricos. Benefícios tangíveis não fantasias dos maiores especuladores financeiros: Os Governos Socialistas de Esquerda e Direita.

    A única esperança é o desenvolvimento tecnológico.

    1. O problema é que estamos numa fase em que a área tecnológica de desenvolvimento mais óbvio (as ‘novas’ fontes de produção de energia eléctrica e a adaptação de equipamento que usa derivados do petróleo à electricidade) ainda têm custos demasiado elevados para serem um negócio rentável sem apoios públicos. E, para além de agora não haver dinheiro para eles, os apoios públicos tendem a ser uma péssima ideia – como tem ficado bem visível.

      1. Por isso é que disse que os períodos de estagnação se vão prolongar mais e mais. Em paz ao fim de décadas – ou seja sem o “crescimento” da reconstrução – atinge-se um plateau. E esse plateau impõe para começar paciência até que haja novo surto de crescimento após
        novas tecnologias se tornerem maduras.
        Isto impõe uma revolução nas praticas da actual classe política/jornalista de existirem sob pena de levarem tudo para baixo. Um plateau mesmo que temporário impede défice, impede dívida alta por exemplo.

        Depois do HD o quê? o 3D? mais aí já entramos na lei dos retornos decrescentes.
        Para um aumento equivalente de qualidade é preciso um investimento enorme – se for possível- e ao mesmo tempo as hipótese de falhar aumentam.
        Por isso é que os Governos como os conhecemos acabaram e é impossível o socialismo continuar.

        Todos sabem mal ou bem construir uma casa, mas matemática e outras capacidades são essenciais a um qualquer desenvolvimento tecnológico futuro e só uma minoria alcança.

        Isto por exemplo é estrutural:
        http://www.telegraph.co.uk/education/educationnews/9275114/GCSEs-and-A-levels-two-grades-easier-than-Far-East-exams.html

      1. Também – mas, ao contrário do que parecem defender alguns teóricos, não sou defensor da ideia de desencadear uma guerra. De qualquer modo, nas últimas décadas houve muito investimento privado com excelentes resultados e muito investimento público com péssimos resultados, disfarçado pelo baby boom e por outros factores que possibilitaram excelentes níveis de crescimento. Mas agora pura e simplesmente não há dinheiro nem investimento que, a curo prazo, consiga compensar os custos. Os Estados podiam fazer outra coisa – que, de resto, também fizeram no passado: forçar alterações tecnológicas através da legislação. Por exemplo: proibir veículos de combustão interna, o que levaria a apostas mais fortes por parte dos construtores nos eléctricos. O problema é que isso também teria enormes custos imediatos – e, no curto prazo, provocaria desequilíbrios concorrenciais fortíssimos entre quem adoptasse a medida e quem não o fizesse.

        1. Também não sou defensor da ideia de desencadear uma guerra. O que a História do século XX mostra, porém, é que as políticas keynesianas sempre se defrontaram com a oposição cerrada das oligarquias, a quem não convém o pleno emprego (que faz subir os salários), de modo que nunca foram plenamente aplicadas em tempo de paz. Mas em tempo de guerra, ou de guerra fria, todos são keynesianos. E os resultados têm sido os que a teoria prevê: pleno emprego, investimento público massivo em Investigação e Desenvolvimento, avanço tecnológico.

          O que eu gostaria que acontecesse desta vez era que as elites económicas e políticas não esperassem por uma guerra antes de mudarem de política. Porque se esperarem por ela, ela vai acontecer. Nem os gregos, nem os portugueses, nem os espanhóis, nem os alemães, nem ninguém se vai resignar à pobreza, à desprotecção social e à precariedade sabendo que há alternativas viáveis. Nem nenhum povo se vai resignar a que a sua vontade soberana, expressa pelo voto, fique sujeita à aprovação de entidades externas que nunca foram sufragadas e se tentam legitimar por uma competência técnica que não têm. Onde o voto perde eficácia, as armas ganham legitimidade.

          Numa reportagem recente sobre o estado de espírito na Grécia, escrevia um jornalista alemão, com desdém e despeito, que de repente todos os gregos se tinham tornado economistas. Exagero, é claro. Mas não admira que muitos deles, como muitos portugueses, estejam a tentar adquirir alguma literacia económica; nem que este mínimo de literacia lhes permita começar a desmontar o discurso racista sobre o Norte trabalhador e o Sul preguiçoso. Sobretudo: quando políticos em quem não confiam lhes exigem sacrifícios no presente em troca duma prosperidade futura, reagem como Keynes: “No longo prazo estaremos todos mortos.”

          Nas últimas décadas, é verdade, “houve muito investimento privado com excelentes resultados e muito investimento público com péssimos resultados.” Mas o contrário também aconteceu, como não podia deixar de ser: todo o investimento é um risco. Regra geral, os privados são melhores gestores quando, considerado o bem comum, as externalidades são negligenciáveis; e o Estado é melhor gestor quando, considerado o mesmo bem comum, as externalidades são determinantes. Isto, é claro, se não houver demasiada corrupção; mas se a houver é contra ela, e não contra o Estado, que é preciso lutar.

  3. Também não creio. Quando se confrontarem com filas de racionamento para adquirir leite, açúcar e pão, para não falar da lista de espera para conseguir uma torradeira ou um frigorífico (bens de luxo…) vão perceber o que é a esquerda radical. Ah, um automóvel? Talvez um modelito de 1985 na melhor das hipóteses. Não é ficção, é só ler a História.

    1. Esperemos não chegar aí, M.C. A verdade é que a economia grega está muito longe de conseguir suportar o nível de despesa actual e que, de uma forma ou de outra, terá de existir um ajuste. Mas recuperar numa economia liderada por um partido de extrema esquerda, sujeita a uma perda brutal de poder de compra (após saída do euro), sem acesso a crédito nem a investimento privado, é um cenário dantesco.

  4. “Se a Grécia o «ganhar», obrigando os europeus que mantêm algum dinheiro nos bolsos a suportarem-lhe os défices, a austeridade passará imediatamente de moda em toda esta nossa bela Europa. O que acabará por conduzir, num futuro não demasiado longínquo, a um estoiro ainda mais bonito.”

    It ain’t necessarily so. Se a austeridade passar de moda para dar lugar à situação anterior – corrupção generalizada, amiguismo, fuga aos impostos, “investimentos” improdutivos, sector financeiro desregulado, etc. – estou de acordo quanto ao estoiro.

    Mas se acabarmos com a austeridade, que já vimos que não funciona, para pôr em seu lugar políticas que funcionem – e que já se vão tornando consensuais apesar da determinada resistência alemã – talvez consigamos evitar o estoiro.

    Não estou a dizer que vai ser fácil. Não vai ser fácil, sobretudo, para países como Portugal, onde o sistema de justiça não funciona, a corrupção e a impunidade campeiam, a oligarquia manda e a direita negocista mete no mesmo saco as despesas de consumo e as de investimento, sob o nome depreciativo de “despesismo”. Mas é possível.

    1. Como opinei numa resposta anterior, José Luiz, não creio que seja possível gerar crescimento suficiente para compensar os efeitos negativos do alargar do cinto. Mas talvez estejamos perto de o saber.

      1. «Não creio que seja possível gerar crescimento suficiente para compensar os efeitos [previsivelmente] negativos do alargar do cinto.»

        Gostaria de lhe poder dizer que sim, que é possível. Mas, a ser como você diz, muito menos será possível gerar crescimento suficiente para compensar os efeitos (comprovadamente) negativos, e muito mais graves, do apertar do cinto.

        Quando todas as opções comportam riscos, a opção racional é pelo risco menor. Se os eleitores gregos, ao votar contra a austeridade recessiva, conseguirem levar os líderes europeus a tomar esta opção, a Europa ficará a dever-lhes muito.

        1. “Quando todas as opções comportam riscos, a opção racional é pelo risco menor.”

          Mas qual a de menor risco? Insistir num trajecto que aumente a massa crítica (tradicionalmente, a solução preferida pelos políticos – porque lhes vai permitindo ganhar eleições – e pelos empresários ligados ao poder – porque lhes garante receitas) pode ser pior do que aceitar um recuo.

          1. O risco menor é uma política keynesiana. O risco maior é a austeridade recessiva. Podemos dizer isto porque a crise, se a contarmos a partir da falência do Lehman Brothers, vai fazer quatro anos em Setembro, e isto já é tempo suficiente para fazer um primeiro sobre a eficácia das medidas tomadas.

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