Bons e maus filmes da década


Pedro Correia,

O jornal Público tem quatro críticos de cinema – quase tantos como os jornalistas que integram a sua secção de politica nacional. Esses críticos acabam de escolher os "filmes da década": 20 películas cada um. Lá surgem, por exemplo, escolhas tão duvidosas como Milk (de Gus Van Sant), O Tigre e o Dragão (de Ang Lee), Ocean’s Eleven (de Steven Soderbergh), Uma História de Violência (de David Cronenberg), Miami Vice (de Michael Mann), Inteligência Artificial (de Steven Spielberg), Plataforma (de Jia Zhang-ke) e The Brown Bunny (de Vincent Gallo).

Há quem diga que gostos não se discutem. Nada mais errado: se existe algo que pode e deve ser discutido são precisamente os gostos de cada um. Nenhum destes filmes, na minha modesta opinião, merecia sequer figurar na galeria das melhores produções dos anos em que surgiram – quanto mais numa lista de filmes da década. Lá surgem também, nessas escolhas, os inevitáveis filmes portugueses, numa clara demonstração de que os críticos cá da paróquia continuam sem perceber que o cinema português não tem categoria para ser comparado com produções internacionais. Pôr filmes como O Quarto da Vanda, Juventude em Marcha  e Ne Change Rien (de Pedro Costa, cineasta aqui representado por nada menos de três obras como se fosse um dos grandes génios mundiais da Sétima Arte) a par de Fala com Ela (de Pedro Almodóvar), Lost in Translation (de Sofia Coppola), Cartas de Iwo Jima (de Clint Eastwood), Disponível para Amar (de Wong Kar-wai), Longe do Paraíso (de Todd Haynes) e A Última Hora (de Spike Lee) é intelectualmente inaceitável.

Incompreensível é a ausência de películas como Mystic River e Million Dollar Baby (de Clint Eastwood), O Pianista (de Roman Polanski), O Quarto do Filho (de Nanni Moretti), A Criança e O Silêncio de Lorna (de Jean-Pierre e Luc Dardenne). Sem esquecer uma fabulosa longa-metragem no nosso idioma: Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Lamentavelmente, os críticos portugueses costumam esquecer-se do cinema brasileiro. Mas, queiram ou não, ele existe.

Pior ainda é a omissão pura e simples, nestas listas, daquele que é para mim o melhor filme dos últimos dez anos: A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006), de Florian Henckel von Donnersmarck. De tal maneira que me questiono se algum dos quatro críticos do Público chegou a vê-lo.

Talvez lhes tenha passado ao lado enquanto reviam pela enésima vez uma das fitas de Pedro Costa que tanto pareceram deslumbrá-los.

52 comentários em “Bons e maus filmes da década”

  1. Até gostava de desconversar, mas não vejo por onde começar. E para além do conteúdo, ainda por cima gostei da forma. No further comments, Pedro!

  2. Basta ver o quadro onde eles colocam as estrelas aos filmes em exibição para ficarmos esclarecidos.

    Normalmente o filme mais apreciado pelo publico em geral, na óptica desses senhores muitas vezes nem uma estrela leva.

    Felizmente que nem todos os críticos têm uma visão altiva perante os gostos do cidadão em geral.

    1. Pois, Daniel: felizmente nem todos são assim. Como não gosto de falar em abstracto, à boa moda ‘tuguesa’, falo destes casos concretos. Hei-de falar doutros. Porque os gostos discutem-se.

  3. Sem esquecer o ‘Gran Torino’, de Clint Eastwood.
    Quatro críticos? Os críticos de cinema estão em extinção. De cinema e não só, que o sentido crítico anda pelas ruas da amargura.

  4. E onde estão “As Horas” ou “O Leitor”, por exemplo? Ou “Mar adentro”? Ou o “Gran Torino”, como diz o João? Ou alguns outros filmes excelentes dos últimos anos, que me encheram as medidas? É sempre tudo muito relativo no que toca a gostos, mas eu também acho que se discutem.

        1. E não só, meu amigo, e não só… mas esse teu veneno lembrou-me um grande filme que para mim está nos dez melhores da década, sem nenhum favor: Irina Palm. Europeu e magnífico (e deste tenho a certeza de que irias gostar!)

          1. Não percas a oportunidade de o ver em breve, Leonor. Já fui ver ‘Invictus’. Gostei, claro: acho que sou incapaz de não gostar de um filme de Eastwood. Mas não ponho este ao nível de ‘Mystic River’ ou ‘Gran Torino’.

  5. Alguns críticos do ‘Público’ muitas vezes nem se dão ao trabalho de ver os filmes. Deixam o espaço das “estrelinhas” em branco. Não cumprem, assim, o mais elementar dever de um crítico. Por isso ninguém se admira que a crítica de cinema tenha perdido a influência que teve noutras épocas.

  6. Eu sinceramente também não percebo as escolhas deles. Já tinha visto a lista e fiquei abismada. Mas também não me espanta. Os críticos do PUBLICO são sempre a mesma coisa, ninguém os percebe. As críticas que fazem são sempre impossíveis de compreender.

    Milk
    Tigre e o Dragão
    Miami Vice
    Inteligência Artificial
    Ocean’s Eleven

    Foram os que vi da lista deles e apesar de não serem maus de maneira nenhuma, não merecem estar nesta lista, que como o Pedro referiu, não tens outros que mereciam.

    1. A inclusão do ‘Ocean’s Eleven’ deu-me uma enorme vontade de rir, Daniela. Quase tanto como este mais recente filme do Woody Allen estreado entre nós, o mais divertido dele de há muitos anos para cá.

      1. O Inteligência Artificial ainda se via benzinho (embora devesse ter terminado com a queda do miúdo robot). Os outros são de rir, especialmente quando o Ocean’s Twelve até é bem mais interessante que o Eleven (mesmo que nunca me passasse pela cabeça colocá-lo na lista de melhores do ano, quanto mais da década).

      1. Pedro, só para dizer que concordo com tudo o que escreves neste texto. E sobre o Pedro Costa, também não compreendo o deslumbramento. Eu gosto dos filmes dele, mas, de facto, não percebo que o tratem como génio. Pôr um filme como “No quarto da Vanda” ao lado de “Disponível para amar” é não estar a ver bem as coisas. Já agora, um dos melhores filmes que vi nesta década (também não deve estar na lista, presumo) foi o “Eternal Sunshine of The Spotless Mind” (“O Despertar da Mente”).

          1. Aconselho vivamente Pedro, junto a minha voz (ou o meu teclado) à/ao da Ana Sofia. Um argumento muito bom, uma realização interessante, um Jim Carrey em excelente underacting (embora o underacting seja uma ou outra vez excessivamente overacted) e uma excelente Kate Winslet (pleonasmo, eu sei, ela é sempre excelente).

        1. Não é represália, juro… mas acho que o Jim Carrey nunca me levará a uma sala de cinema, por muito bom que seja o filme. Faz-me verdadeira urticária. Só se lá for pela Kate Winslet que é excelente sempre, de facto.

  7. Por acaso concordo que gostos não se discutem Pedro. O que se pode discutir é uma escolha intelectual, porque artística, e essas escolhas não são baseadas no gosto. Algo que aprendo quando, por volta dos meus 13 anos, preferi “O Império do Sol”, mas reconheci que “O Último Imperador” era melhor.

    Das listas do Público há a sensação que quiseram ser engraçadinhos, que quiseram dar-se ares de diferentes (os que escolheste) e depois quiseram seguir algumas listas (como a da New Yorker, que contemplou o Pedro Costa e o Manoel de Oliveira).

    Das tuas críticas só há um filme que eu poderia considerar entre os melhores da década: A History of Violence. Dos outros que apontaste, eu faria o mesmo: apagaria da lista.

    1. Dizes bem. Está na cara que antes de elaborarem a listinha alguns deles andaram mergulhados na ‘New Yorker’ em busca de caução intelectual. Está demasiado na cara. Será assim tão difícil perceber que estas coisas se topam a léguas de distância?
      Quanto ao Cronenberg, nada a fazer: sou incompatível com os filmes dele. Com esse também. Os últimos 20 minutos, protagonizados pelo William Hurt, é das coisas mais absurdas que tenho visto neste século num ecrã de cinema.

  8. Estou de acordo no geral com o que diz, mas já que o Pedro é de opinião que os gostos se discutem sempre lhe digo que não estou mesmo nada de acordo quando classifica como escolha duvidosa o filme Milk (de Gus Van Sant )… Ademais é de facto incompreensível a ausência de Mystic River , Million Dollar Baby e da Cidade de Deus. Deviam estar a dormir, só pode.

    1. Foi essa a minha impressão, Ariel: só um sono prolongado poderá explicar isso.
      Quanto ao ‘Milk’: achei um ‘biopic’ mediano, compostinho, de produção industrial, em que sobressai apenas a interpretação do Sean Penn, um dos grandes actores da sua (que é também a minha) geração. Mas uma andorinha não faz a primavera. Não o incluiria entre os filmes da década, longe disso.
      E é evidente que os gostos devem discutir-se. Caso contrário nem faria sentido estarmos aqui – ainda para mais num blogue que ostenta um título destes.

    2. Devo ser a única pessoa aqui que não gostou muito do Million Dollar Baby, pelos vistos. Não o achei nada de especial. O Gran Torino, sim, é um grande filme do Clint Eastwood.

        1. Do Mistic River também gostei. Muito. A Troca também é um bom filme e teve o mérito de reconciliar-me com a Angelina Jolie, que eu achava muito má actriz.

          1. A Angelina Jolie tem na Troca uma interpretação muito contida e a caracterização/maquilhagem/guarda roupa de época e direcção de Clint Eastwood puxam muito por ela. Quanto a mim estão ainda por provar as suas reais qualidades como actriz.

  9. “O cinema português não tem categoria para ser comparado com produções internacionais. Pôr filmes como O Quarto da Vanda, Juventude em Marcha e Ne Change Rien (de Pedro Costa, cineasta aqui representado por nada menos de três obras como se fosse um dos grandes génios mundiais da Sétima Arte) a par de Fala com Ela (de Pedro Almodóvar), Lost in Translation (de Sofia Coppola), Cartas de Iwo Jima (de Clint Eastwood), Disponível para Amar (de Wong Kar-wai), Longe do Paraíso (de Todd Haynes) e A Última Hora (de Spike Lee) é intelectualmente inaceitável.”

    Inaceitáveis são estas palavras totalmente descontextualizadas do propósito de um trabalho de um crítico de cinema. Os gostos, de facto, discutem-se, e é isso que se discute no seu texto e nos comentários que o anexam. O filme que gostámos, o actor ou actriz que ficou bem ou mal. Um crítico tem uma obrigação diferente, que é de escolher aquele que ele considera os filmes que contribuem mais para a evolução do cinema enquanto arte, pensamento e originalidade no seu objectivo, que também é, para além de todo o fascínio popular que provoca (e bem), o que o cinema sempre foi, e que vai muito para além de outros critérios de “qualidade de produção”. Se considera que o cinema português não tem “categoria” ao lado de produções internacionais, está no seu direito, mas está, acima de tudo, intelectualmente errado. Porque intelectualmente, verá que esse cinema português tem sido reconhecido internacionalmente tanto por prémios como retrospectivas em algumas das instituições artísticas mais importantes do estrangeiro. Pegando no Pedro Costa, pode-se evocar toda a homenagem que o seu trabalho mereceu recentemente no Tate Modern de Londres, ou a nova edição de vários dos seus filmes numa editora de DVD’s tão prestigiada como a Criterion Collection, para lhe dar alguns exemplos. Ou nas capas de revistas que um realizador tão “ultrapassado” como Manoel de Oliveira ainda recolhe hoje em dia. Se algum dia tiver o prazer de encontrar ou entrevistar Clint Eastwood, que refere nos comentários, poderá perguntar-lhe qual o cineasta que hoje em dia mais o inspira. Poderá vir a ser surpreendido com a sua resposta.

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