Bolo do caco com a mesma forma


Sérgio de Almeida Correia,

madeira2015.jpg Na Madeira cumpriu-se democraticamente o ciclo eleitoral.

O PSD/Madeira, agora de Miguel Albuquerque, volta a estar de parabéns. Levando em linha de conta os anteriores arrufos entre o ex-líder e o actual e a perda de cerca de quinze mil votos por comparação com as eleições anteriores, o resultado, mesmo com uma abstenção elevadíssima, é digno de nota, sendo legítimo desejar-lhe uma governação à altura das responsabilidades. Resta saber qual o preço que irá ser cobrado ao PSD de Passos Coelho por este resultado regional que reedita a maioria absoluta.

Apesar dos cadernos eleitorais continuarem a aguardar limpeza, a abstenção não pode deixar de ser considerada brutal e deverá constituir um sério aviso ao que poderá vir a caminho para as eleições legislativas. Mas aqui com consequências bem mais imprevisíveis tanto em matéria de maiorias como de formação de uma equipa governativa.

Pesado, diria mesmo doloroso, foi o resultado eleitoral do PS. No final do ciclo do jardinismo, numa altura em que as críticas foram mais do que muitas aos desvarios gastadores de Jardim, e depois de um período de grande aperto, à semelhança do que aconteceu com os restantes portugueses, esperava-se outro resultado do PS/Madeira. O que aconteceu foi um desastre que retira voz e protagonismo ao partido a nível regional. Esteve por isso bem o líder regional que imediatamente se predispôs a sair de cena.

O resultado do PS/Madeira lança também um sério aviso ao PS quanto à política de alianças em que eventualmente poderá estar a pensar, se é que alguma chegou a ser pensada, para as eleições legislativas. Uma má escolha de parceiros e a realização de alianças contranatura, apenas por razões de eleitoralismo puro, poderão ter um efeito contraproducente e deitar tudo a perder. Seria bom que António Costa e a sua equipa pensassem nisso não só em matéria de alianças como, em particular, na hora de escolher os candidatos que preencherão as listas. Já chega de erros de casting e de carreiristas oportunistas e impreparados. Se não se aproveitar a oportunidade para se corrigir o que antes se fez mal, isso poderá nunca mais vir a ser possível rectificar, com consequências ainda mais nefastas do que as verificadas na Madeira.

O CDS/PP obteve um mau resultado. As palavras de Paulo Portas soam por isso a falso e tentam disfarçar o que não pode ser disfarçado. Passar de 17% para 13% e perder dois deputados só pode dizer-se que seja um resultado “consistente, resistente e sustentado” quando se está a falar para tolinhos.

Bom resultado teve, apesar de tudo, o BE ao conseguir dois deputados. Mas a palma levou-a coligação JPP (Juntos pelo Povo). Ficar com o mesmo número de deputados que o PS/Madeira na AL regional é obra e poderá indiciar, aqui sim, novidades na oposição.

Quanto ao mais, o resultado melhorado do PCP continua a não esconder a sua irrelevância, debilidade e incapacidade para sair do reduto onde há décadas ficou acantonado.

Aguardemos, pois, para se perceber até que ponto teremos mudanças na Madeira. E se os resultados agora verificados poderão vir a ter influência nacional e nos sempre efervescentes sonhos políticos do “deposto” Alberto João Jardim.

0 comentários em “Bolo do caco com a mesma forma”

  1. Resta saber qual o preço que irá ser cobrado ao PSD de Passos Coelho por este resultado regional

    Nenhum preço irá ser cobrado. O PSD-Madeira é, para todos os efeitos práticos, um partido regional, independente do PSD nacional. Os dois partidos não podem ser confundidos. Têm políticas diferentes, líderes diferentes e objetivos diferentes.

    Seria ótimo acabar com esta fantochada, permitindo constitucionalmente a existência declarada de partidos regionais.

  2. Apesar dos cadernos eleitorais continuarem a aguardar limpeza

    Nenhuma limpeza é possível quando muitos dos desfalques nos cadernos eleitorais são devidos à emigração. Não se pode eliminar os emigrantes dos cadernos eleitorais – eles ainda estão vivos!

    A única forma possível de terminar com o problema é passar a considerar o universo eleitoral como sendo o universo dos efetivamente votantes em cada eleição, deixando a abstenção de contar para seja o que fôr.

  3. Dizia o meu ídolo, que «a Madeira é muito ingrata».

    Ingrata no relevo não nas pessoas, porque estas são todas jardinistas.

    Mesmo o PS, o CDS, Bloco, PCP e WC é tudo jardinista por toda a vida.

    A Madeira começou por ser uma terra de deportados e criminosos manhosos.

  4. Concordo totalmente com a frase do seu texto “Já chega de erros de casting e de carreiristas oportunistas e impreparados”. Presumo que seja uma indirecta ao candidato do PS a Primeiro-Ministro. Porque. de facto, o carreirista (o CV fala por si), o oportunista (o Seguro que o diga) e o impreparado (os portugueses que o têm visto e ouvido que o digam) assentam-lhe que nem uma luva.

  5. A abstenção tem vindo a crescer, tanto no Continente como nas Regiões Autónomas e, no fim de cada processo eleitoral, lá assistimos à sua desvalorização por causa dos “eleitores fantasma”. Não é aceitável tal argumento. Não se entende por que razão não há cruzamento de dados de modo a eliminar automaticamente os que já morreram, por exemplo. Ou melhor, só entendo a não actualização dos cadernos eleitorais como sendo propositada e com motivações de carácter político. Quanto aos emigrantes, se é um facto que estão vivos, também é verdade que se o são, deixaram de ser residentes no território nacional e tal deveria suscitar, se os não há, mecanismos para que fossem contemplados na actualização dos registos. Por outro lado, os 40.000 “eleitores fantasma” da Madeira não deverão ser imputáveis à emigração recente.

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