
Em 1994 durante meses trabalhei na missão de observação eleitoral das primeiras eleições democráticas na África do Sul, nas quais Mandela ascendeu a presidente. Foi um período magnífico! Se conflitos e temores subsistiam tudo isso coexistia com o enorme alívio no final daquela maldita ditadura racista e uma alegria esfuziante no dia-a-dia, traduzindo uma vaga de esperança em melhores futuros. A qual, naqueles últimos anos, se vinha espalhando num vasto alhures. Ao sul da África a Namíbia tornara-se independente, a paz aportara a Moçambique, o delírio sanguinário mugabiano havia amainado, em Bicesse prometera-se uma paz em Angola. Esse alindar da coisa mundial viera desde quinze anos antes com o sucessivo descalabro dos fascismos da América latina, encetado com o triplo “Sandinista” dos The Clash já pós-punk, o qual nós, portugueses, mais acompanháramos na comoção do “Directas, Já!” brasileiro. Depois, entre Glasnot e Perestroika, findara o perverso comunismo europeu, que tantas mentes e almas corrompera por cá (e ainda corrompe, malevolência zombie …) e o receio – pavor mesmo – da guerra nuclear desvanecera-se. Mesmo o malvado comunismo colonialista chinês aparentara abanar no massacre estudantil de Tiananmen – esse, há que dizê-lo, ainda hoje nunca evocado por tantos, debruçados no demoníaco abismo do seu pensamento abissal. O hediondo maoísmo cambojano estava em estertor florestal – e sobre esse país mártir muita coisa tétrica então ouvi, nas horas dos inúmeros uísques, de colegas ali observadores das Nações Unidas, vários deles macerados após por lá terem trabalhado durante anos. Tudo isso, e o findar mundo afora de tantos outros “conflitos de baixa intensidade” – como a insensível literatura europeia os chamava -, catapultados pela luta entre os ditos “Leste” e “Ocidente”, trazia um grande optimismo. Democratizador. Nisso também fruidor.
Certo que aquele ali tão festivo Abril eleitoral foi também o da hecatombe ruandesa, surpreendente e total supra-sumo da maldade racista. Mas estávamos tão embrenhados naquela missão – e do resto alheados, naqueles tempos pré-internet e mesmo ainda dos velhos rádios Motorola – que só já em meados de Maio, regressado a Portugal, tomei consciência daquilo, não só contra-senso mas também, assim o parecia, contra o sentido da história de então, por titubeante ou mesmo imaginário que este viesse. Entretanto, se na Europa ardiam os Balcãs, e de que sanguinária forma – como me narrava o meu parceiro de missão, um francês com quem partilhava casa, mesa, carro e bares, que lá trabalhara durante dois anos na Cruz Vermelha – o optimismo geral presumia essas dores apenas como se parto de algo melhor. No fundo, então, e como disse Álvaro Guerra nas suas belíssimas “Crónicas Jugoslavas” (1996), “O certo é que eram raríssimos os que se atreviam a encarar as ameaças do futuro“.
Nesse ambiente o único trajecto algo divergente, ainda que nele pouco tivesse atentado, veio-me de um colega italiano, Andrea, um tipo da minha idade, economista algo viajado, vindo com a bonomia daquele que avança para rotundo e calvo, por estereótipo que seja… O que dele mais recordo foi o final de tarde do domingo 1 de Maio, regressando eu a East London, vindo de Bisho, após uma longa sessão de acompanhamento da contagem de votos. E logo que saí do carro, até perro de exausto, ainda porta aberta, ele lesto a surgir-me, saído do átrio do hotel onde sediávamos os nossos escritórios, para me estreitar em abraço de condolências, o italiano “tiffosi” comovidíssimo informando este português da morte de Ayrton Senna.
Mas dele algo mais lembro. Da sua alguma excentricidade durante aqueles meses de verdadeira festa política, tamanho era o nosso entusiasmo. Pois esses dias de frenesim jubiloso, para mim decorridos entre Ciskei e Transkei – que nesse tempo ainda sobreviviam os inventados “bantustões” independentes -, casavam com noites longas quase-nada dormidas, em aceleradas conversas entre nós e também com amigos sul-africanos – que nos haviam recebido como se sorvendo com sofreguidão os ventos do mundo -, regadas a caixas de Castle e de uísque barato, fervilhando de análises sobre a política sul-africana. Especulando futuros de curto prazo, cerzindo-os à catadupa de acontecimentos locais, daquele ali que se veio a tornar Eastern Cape. E, mais ainda, aos da azáfama nacional, naquela sucessão de arruaças sanguinolentas entre ANC e Inkhata, a deriva angustiada do Partido Nacional libertando-se do seu “nacionalismo cristão” mas ainda sob ele ajoujado, o já então vislumbre do Partido Democrático, o exacerbado racismo do histórico PAC sempre fiel ao lema “one settler, one bullet”, as expectativas sobre o verdadeiro impacto eleitoral do partido de Viljoen, o general consagrado como o “Rommel africânder”, o peso do extremismo de Winnie Mandela, a violência dos fascistas de Terreblanche, a aparente bipolarização entre o radical sindicalista Ramaphosa e o seráfico liberal Mbeki – que bem depois se veio a perceber não tão estruturante assim. E tudo isso sobre o gigantesco encanto do Madiba.
Mas o Andrea tudo isto cruzava, bebericando mas também meneando a cabeça de proto-calvo, resmungando a sua angústia com as desventuras da sua Itália – mais longínqua ainda por ali tão desfasada do que vivíamos – naquele período de erupção de Berlusconi e dos seus confrades secessionistas e ditos neo-fascistas, eleitos exactamente naquele Março. Pois foi durante aquela, afinal curta, missão que o Forza Italia surgira, e num ápice se tornara governo. Era o sufragar da tele-democracia, epíteto naquele caso literalmente literal, pois o homem era mesmo dono de tv, o estipular do reino do “partido pessoal” – como Bobbio lhe veio a chamar. Nisso crismando a pujante ladainha do poder dito sem ideologia, do líder junto ao seu povo, como se dele emanado, pois avesso a partidos, e destes livre, e ao Estado, a este punindo purificando-o. Líder assim corpo humano feito soberania, e nisso também enfrentando o exterior, esse “demónio multilateral” que tantos “nacionalistas” de vários matizes querem esconjurar.
Enfim, coisas do populismo stricto sensu – naquele caso avivado na crença futeboleira de fazer a Itália vingar como fizera no A.C. Milan, e na sua riqueza pessoal, advinda de ele homem capaz e sábio pois propenso ao êxito – que viemos a conhecer melhor depois, com gente como os longínquos – “orientalismo” oblige – Shinawatra e Buttho, mais o mariola filipino de agora, ou os mais próximos Fujimori e Chávez, cada um deles como cada qual mas, de facto, trinca do mesmo saco. Ou ainda, claro está, o Trump mais recente, de facto apenas mais um do ramalhete, por mais sonante que os EUA sejam.
Ali em East London o Andrea fora surpreendido com tudo aquilo lá na sua Itália. E por isso, de quando em vez, queria disso falar, desabafar que fosse. Pouco espaço, se algum, lhe davam, lhe dávamos, que todos esbracejávamos naquela apneia do “now is the time …”, em regime de monopólio de atenção. Talvez tenha sido eu a conceder um pouco mais de tempo, porventura solidariedade latina. Ou não. Ou não, mesmo … Pois vinha eu de onde continuava a década de Cavaco, já num fedor compósito, adocicado pelos miasmas vindos de Macau, a “árvore” que os de Soares abanavam, cobiçosos. E por isso mais – apenas um pouco mais, é certo – atentei nos resmungos do Andrea. E lá concluíamos, convictos de estarmos certos nisso, que o ninho de Berlusconi e dos seus comparsas pós-proto-neo fascistas era bem claro, aquele desabar havido do sistema partidário italiano. Na morte do PCI, daquele Berlinguer tão abjurado pelos nossos comunistas, muito por causa daquele “compromisso histórico” – findado com o cadáver de Moro no porta-bagagens de um carro -, que tão antevisto fora por Guareschi através do afinal simpático Peppone, o siamês do Don Camilo. Mas, e acima de tudo, devido ao descalabro da Democracia-Cristã e do seu Andreotti e dos socialistas italianos, com seu Craxi exilado. Fora essa ruína, institucional e moral, a pura devassidão política que deixara uma terra de ninguém, a charneca onde Fini e Berlusconi medravam. Esse era o nosso diagnóstico, algo acelerado … Depois, saltitando entre JB, Cutty ou Famous, a tríade dominante, logo seguíamos – e aí ele também, pois desabafado – a sonhar o magnífico futuro do maravilhoso país que era a África do Sul.
Nem sei como foi, qual a causa disso, mas passaram 27 anos! Vou assim já um pós-novo ou mesmo proto-velho. Nisso alimentando-me muito das memórias para compreender este Outono. E quando olho para o meu país o que penso, o que sinto, é que o abraço tunisino de Soares a Craxi ainda está. Ainda é. E o resto vem por si …

Por cá, temos o André (a)Ventura(rar-se) por entre os politicamente corretos. Vejamos o que a sorte nos vai ditar em 24 de janeiro. Marcelo tem garantido o pole position, mas o que importa é saber que fica com a prata.
Temos esse, temos, o populista rasca. Mas também temos o populista manso, esse que ficará com o ouro.
Não deixa de ser engraçado como alguns comentadeiros / analistas / peritos gozam com os americanos porque elegeram um personagem de reality show para presidente, quando na Velha Europa tivemos a figura do Berlusconi como chefe de Estado de um dos países mais importantes da UE.
Bunga-bunga.
A Europa sempre olhou para a América com inveja e sobranceria.
Como um professor arrogante que vê o aluno suplantá-lo.
O europeu, mesmo cheio de telhados de vidro, todos remendados, gosta de vestir a pele de moralista e dar palpites sobre o que não sabe e acha que sabe, ou sobre o que deseja ter e não tem.
É o velho continente. Mesmo velho.
Felizmente ainda vamos tendo excepções.
Os europeus são um bando de burocratas corruptos, traidores ingratos e cobardes que não os têm no sitio.
é sempre bom aqui no blog receber comentários vindos de povos de outros continentes.
A incapacidade de autocrítica faz nascer o idiota.
Não é preciso falar com europeus, basta falar com os norte-americanos das grandes metrópoles. Serão eles velhos também? E ler a grande literatura norte-americana, como por exemplo a Flannery O’Connor, para tentar perceber um pouco melhor de onde vem daquela gente do Sul.
O europeu […] gosta de vestir a pele de moralista e dar palpites
Um outro hábito irritante que tanto europeus como norte-americanos têm é o de vestir a pele de moralistas e ir evangelizar os povos de outros países sobre como se devem governar, propagando a Boa Nova da democracia liberal.
São herdeiros dos portugueses, que levavam sempre na caravela um padre para ensinar a Boa Nova católica aos nativos que encontrassem.
A opinião é pessoal, como é óbvio. E obviamente que não objetivou a ofensa a nenhum europeu, se aconteceu, as minhas desculpas.
Mas respondendo ao seu comentário e mais uma vez, obviamente fruto da minha experiência de vida, o europeu gosta de falar sobre os males de quem está melhor, fazendo-se de esquecido de quem está pior.
O americano já não tem tanto essa tendência, fala mais de quem está pior.
Na europa perde-se muito tempo a falar da América, ou da Rússia, ou da China.
Na América fala-se muito mais do Afeganistão, de Iemen, do Sudão, do que se fala da europa.
Soube pela imprensa americana do que se passava em Moçambique, semanas antes de alguém em Portugal dedicar tempo ao assunto.
Recém chegado à América, tive conhecimento do problema de Timor Leste, antes de em Portugal alguém lhe dar importância.
Não quero cometer um erro, se estiver errado, agradeço a correção, mas tenho ideia de terem sido os EUA a trazer o problema Timor às Nações Unidas. Penso que também foram os primeiros a colocar a questão da Bósnia na Nato.
Enfim, os europeus são riquíssimos, por isso é incompreensível esta postura altiva.
Meu caro jpt, os seus postais são registos de memórias que os dão conta que são vários os missionários mas que a missão nuca está incompleta
Pretendo ainda acrescentar que seus registos deixam claro e transparente que ninguém resolve em definitivo o caminho dos outros, porque se julgar fazê-lo core o riso de ficar para trás e a viver de memórias.
O hoje é mais importante que o ontem e que o amanhã que não se sabe se existirá.
Adicionalmente, significa ainda que as “nossas” boas intenções não são sinónimo de bons resultados.
Temos de continuar e continuar e continuar, sempre errando e melhorando, até sermos servos inúteis porque fizemos o que devíamos ter feito.
Em conclusão: Não existem milagreiros. O caminho faz-se caminhando.
Por último: Nada está assim tão mal. Sabe porquê? Porque quando não existe nenhum caminho temos todos os caminhos para percorrer.
é isso a democracia, deixar caminhos (fazer florir, em versão adamada) para as múltiplas opções
Vento, digo-lhe, sem gozo, e com melindre. O caminho, o nosso, é um buraco cavado a fundo. O caminho, o nosso, Vento, é para baixo.
Vorph, meu caro, os médicos também precisam de ajuda. Vou ocupar-me um pouco de si.
Primeiramente, 2000 IU D3 (1 cps ao almoço) diariamente até perder de vista. Nota: Ao fim de 45 dias diga-me como estão sua energias.
Durante 60 dias um poli-vitaminico que contenha B6 e B12 (1 comprimido/dia).
Adicionalmente, confinar-se com umas moças giríssimas, para jogar xadrez. Eu disse moças e não feministas. As feministas são deprimentes e deprimidas.
Vamos agora à substância:
1 – Importa que o buraco seja aberto quando estiver no topo;
2 – Importa deixar caminho feito para que outros o abram. Assim contribui para a manutenção de emprego.
Agora tenho de escrever algo que o ajudará a encontrar morada eterna e definitiva:
quando os discípulos de João, o Baptista, um deles era André irmão de Simão, o que viria a chamar-se Pedro (pedra), viram Jesus ,a pergunta que lhe fizeram foi: “onde moras?”
E Jesus respondeu: “Vinde ver.”
Jo 1, 35-42
35João estava de novo com dois de seus discípulos 36e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”
37Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus.
38Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi, onde moras?”
Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde.
40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram a palavra de João e seguiram Jesus. 41Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: “Encontrámos o Messias” (que quer dizer: Cristo).
42Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra).
De forma resumida, esses posteriores discípulos de Jesus não compreenderam bem o convite que este lhes dirigiu (vinde ver), pois em outra passagem encontramos a seguinte afirmação:
Mt. 8, 19-20
19Então, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores”. 20Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”.
Assim, meu caro Vorph, se tiver em conta que também levaram Jesus para o buraco, certamente compreenderá que esse buraco ficou vazio; e Ele habita moradas, incluindo profundas covas em que cada um se meteu vivendo para que também esses possam ressurgir e viver uma vida em abundância.
Em conclusão, procure sair desse buraco em que vive e verificará que o outro ficará somente para o corpo.
Não fora aquela treta qu deu no assassinato do Aldo Moro, Berlinguer e o PCI ganhavam as eleições à Democracia Cristã.
é possível. eu era muito jovem e desde então nunca li nada significante sobre esse período, não tenho ideia formada
Antes do rapto do Aldo Moro as bolsas mundiais estavam aflitinhas, quando se soube do assassinato por incrível que pareça começaram subir.
Não há homem como Tino de Rans !!!
O verdadeiro Senhor do Povo!!!
Abraço, jpt. É o que nos resta. Estamos, como o país, velhos demais para começos. Nestes 43 anos, feitos brevemente, até ver, tenho esperado, em miragem, pelo país. Mas o nosso presente continua escrito no passado das Velas, e o futuro um déjà vu, senão mesmo um velório com cheiro a vela. Entre um engasgo, um resmungo, um papel atirado, um gesto amassado, um arranque de cuspo, assistimos a comédias de enredo triste, trágico, onde os novos personagens não passam de bonecos de trapo, embebidos em formol, estrelas cadentes, prometendo mezzogiornos. A esses, aos professores de paraísos infernais, mando-os aos cumetas. Estou cansado de não contar, num país feito em bairro. E nele, o que será dos outros, que ainda vêm,que nem começaram? Oxalá houvesse um desnascer, para renascer.
Para quando a reedição de “O Pequeno Mundo de D.Camilo” ?…
JSP
Adenda: vou fazer, afinal, 44. Mas tenho certa a mesma merda.